segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Estante de leitura – O Spleen de Paris

"– De quem gostas mais homem solitário? Do teu pai, da tua mãe, da tua irmã, ou irmão?

– Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
– Dos teus amigos?
– É uma expressão de que não sei o sentido.
– Da tua pátria?
– Não sei onde está situada.
– Da Beleza?
– Ama-lá-ia se a conhecesse, e a sua imortalidade.
– Do oiro?
– Odeio-o tanto como vós a Deus.
– Então que amas tu, singular estrangeiro?
– Amo as nuvens… as nuvens que passam… lá longe… as maravilhosas nuvens!

(Charles Baudelaire, “O estrangeiro”, Pequenos poemas em prosa, pág. 03).

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Estante de leitura – Miguel Torga

Sinopse: Conjunto de poemas que procuram retratar a obra de Miguel Torga, a sua paisagem humana na sua essência mais sublime, feita de raridade e frontalidade. Poesia sobre uma identidade, um território, a respiração do vento no alto das fragas. Poesia de grande dimensão humana, onde a solidariedade, a frontalidade e a consciência de valores imutáveis estão presentes. Poesia de um reino encantado, o reino do maravilhoso. Poesia de um espaço telúrico, quase eterno onde a montanha faz despontar a beleza e a procura da liberdade. Poesia feita da natureza maciça desse universo, a pedra em estado selvagem e puro, uma fonte de vida e de valores universais.

Sísifo

"Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, "Sísifo" -  Diário XIII, in Antologia Poética

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Estante de leitura – Fragmentos

"
Preciso viver alguns absurdos para descobrir que o mundo gira num caos…

E onde tentamos conviver com a desordem das ações da natureza…
Mundo, flores, céus, natureza…
Onde viver?
O que enfrentar?
Como conseguir?
Apenas tentar?
Viver, sem medo."

(Em mais um aniversário da sua morte, o encontro com as suas palavras). Outros fragmentos em língua inglesa. Aqui.

Marilyn Monroe. (2013). Fragmentos. Objetiva.

sábado, 1 de agosto de 2015

Estante de leitura – As ilhas desconhecidas

 “Mas hoje acordo, subo ao convés e tenho uma alegria frenética. Tudo isto, todo este azul, toda esta frescura, me entra em jorro pelos olhos dentro. A tinta azul não só ondula – estremece em pequenos grãos vivos, duma acção extraordinária, e o mundo sempre novo que me rodeia penetra-me do seu bafo e comunica-me a sua vida. (…) Luz cinzenta, luz doirada – transparência azul boiando cheia de cintilações ao longe, e depois mais luz viva que nasce e estremece diante da grande massa escura que sai do mar sobre a magia do nascente (…) E é esta luz que me acompanha e nunca mais me larga. A mim que vivo de luz límpida, e que acordo todas as manhãs com o pensamento na luz.” (1)

(Um dos mais belos livros de viagens, onde a palavra resgata a luz, a cor, a impressão viva do real.)

(1) Raul Brandão, Ilhas Desconhecidas. Quetzal, páginas. 12, 15 e 19)