segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Estante de leitura – I’m your man

«É um homem cortês, elegante, como modos de antigamente. Faz uma vénia quando nos saúda, põe-se de pé quando se despe de nós, certifica-se de que nos sentimos à vontade e abstêm-se de referir que o mesmo não se passa com ele próprio; o afagar discreto do rosário grego que traz no bolso, porém, denuncia-o. É por natureza um homem reservado, um pouco tímido, mas, quando precisamos de explorar os recantos sombrios da sua natureza, cerra os dentes e vai à luta, com dignidade e bom humor. 

Escolhe as palavras cuidadosamente, como um poeta ou um político, e nota-se que se habituou a ser preciso, que tem o ouvido apurado para as sonoridades e que possui o talento e o gosto das esquiva e do mistério. Sempre apreciou cortinas de fumo e espelhos. E, no entanto, há qualquer coisa de conspirativo na maneira como ele fala, tal como sucede quando ele canta, como se nos confiasse um grande segredo.

  É um homem aprumado e sóbrio – não há nele nada de supérfluo -e mais baixo do que parece à primeira vista. Irrepreensível. Ficamos com a impressão de que não lhe custaria nada usar um uniforme. Neste momento, veste um fato completo. É de tecido escuro, listado, assertoado, e , se foi comparado numa loja de pronto-a-vestir, não parece.
   – Querida – diz, eu nasci de fato completo. (…)»

I’m your man / Sylvie Simmons. Lisboa: Tinta da China, 2019, 615p.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Estante de leitura – Criação (VII) – 2.º

 «Já na rua, sem brisas, sem sentidos, sem que a minha mão esteja segura dentro de outra mão que me proteja, parto em perseguição do telhado cor de dia de chuva.   Fui eu e todos aqueles em que me multipliquei. Demorei passos com muitos zeros. Pesados e lentos. Os pensamentos, aqueles que costumam doer, doíam ainda mais. Os pensamentos têm memória, mas os pensamentos não gostam de se lembrar. A rua onde a rua que começa na porta da minha casa de hoje vai dar e a rua onde a rua onde a rua que começa na porta da minha casa de hoje vai dar e todas as ruas que vão dar a outras ruas estão na memória do meu pensamento. São lugares já pisados por nós. E isso faz-lhe doer. E isso faz-me doer. 
   Os pensamentos que doem nascem de um conhecimento indubitável de que algo existiu. Existência pretérita. Presença não continuada. Os pensamentos que costumam doer são a consciência de que o que existiu foi maior que nós. Foi maior que nós enquanto existiu. E é maior que nós mesmo depois de já não existir em nós. Dói porque é externa a nós. Porque o longe nos magoa. Não é nosso, não cuidamos e aguça-se. Fere o pensar nele. E faz doer.

   Os pensamentos que fazem doer têm neles os fracassos. Mas pior do que terem intentos malogrados é terem a dúvida do que poderia ter sido. A existência hipotética que mora nos ses. É a incerteza a lâmina mais cortante do pensamento. Fere, corta. Dói.
     Pisei mais chão. Pisei mais chão com os passos cheios de gente pesados e lentos. Dói-me um pouco mais.
     Não alcancei o telhado cor dia de chuva.
    Voltei à falsa paz de um cigarro à janela de casa. O céu tinha descido em negro em toda a cidade. E em todas as minhas cidades. Não havia uma única luz que perturbasse o silêncio desse início de noite. Não existia um único telhado. Não existiam mais telhados. Não existia um único eu.
    Queimei os pensamentos, daqueles que costumam doer, no resto do cigarro. Apaguei-me no frio fundo do cinzeiro.»

Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – m-ban