segunda-feira, 25 de julho de 2022

Estante de leitura – O perfume das flores à noite

 Nessa noite, quando chego a casa, já estou arrependida da minha decisão. Como se ficar fechada durante uma noite fosse resolver os meus problemas de criatividade. Procuro na minha biblioteca livros sobre a Dogana da Mar ou sobre Veneza. Tenho alguns guias, desprovidos de interesse salvo pela indicação de restaurantes baratos e do funcionamento do vaporetto.

De uma estante tiro um exemplar de Venices de Paul Morand. Abro-o ao acaso e dou com este parágrafo: “Escaparia. Não sabia a quê, mas sentia que o sentido da minha vida se viraria para fora, para outros lados, para a luz. […] Ao mesmo tempo, começou este batimento de um pêndulo que nunca mais me deixou, um gosto, sem dúvida pré-natal, de constrição, a felicidade de viver num quarto exíguo contrariada pela embriaguez do deserto, do mar, das estepes. Eu odiava as cercas, as portas; fronteiras e muralhas ofendiam-me.” Foi assim que também eu sempre vivi. Nesta oscilação entre o chamariz do exterior e a segurança do interior, entre o desejo de conhecer e de me dar a conhecer e a tentação de me concentrar inteiramente na minha vida interior. Toda a minha existência foi atormentada por este conflito entre o desejo de ficar sossegada no meu quarto e a vontade, perpétua, de me divertir, de me roçar nos outros, de me esquecer. Tenho ao mesmo tempo o desejo de me disciplinar, de ficar tranquila e o de me arrancar à minha condição, à minha origem, e de conquistar, pelo movimento, a minha liberdade. Vivo neste desconforto constante: medo dos outros e atração por eles, austeridade e mundanidade, sombra e luz, humildade e ambição.
Por vezes digo-me que, se não falasse com ninguém, se guardasse para mim todos os meus pensamentos, eles não assumiriam a banalidade que lhes descubro quando os partilho com outrem. A conversa é o inimigo do escritor. É preciso ficarmos calados, refugiarmo-nos num silêncio obstinado e profundo. Se me impusesse um mutismo absoluto, poderia cultivar metáforas e e arroubos poéticos como se cultivam flores em estufas. Se me tornasse eremita, veria coisas que a vida mundana me impede de ver, escutaria ruídos que o quotidiano que o quotidiano e a voz dos outros acabam sempre por encobrir. Quando vivemos no mundo, parece-me que os nossos segredos azedam, que os nossos tesouros interiores se embotam, que arruinamos qualquer coisa que, guardada em segredo, poderia ter sido a matéria de um romance. O mundo exterior age sobre os nossos pensamentos como o ar sobre os afrescos murais que Fellini filma em Roma e que se desvanecem no exato momento em que apanham luz. Como se o excesso de atenção, o excesso de luz, em vez de preservar, levasse à destruição da nossa noite interior. (…)
O que não dizemos pertence-nos para sempre. Escrever é jogar com o silêncio, é dizer, de maneira indireta, segredos que na vida real seriam indizíveis. A literatura é uma arte de contenção. Contemo-nos como primeiros momentos do amor, quando nos vêm à mente expressões banais, declarações inflamadas, que nos forçamos a omitir para não estragar a beleza do momento. A literatura consiste numa erótica do silêncio. O que conta é o que não se diz. Em boa verdade, talvez seja a nossa época, e não apenas o meu ofício de escritora, que me impele a desejar a solidão e a calma. Pergunto-me o que teria pensado Stefan Sweig desta sociedade obcecada com a ostentação do eu e com a encenação da própria existência. Desta época em que qualquer tomada de posição nos expõe à violência e ao ódio, em que se espera que o artista esteja de acordo com a opinião pública. Em que se escreve, sob o domínio de uma pulsão, cento e quarenta caracteres. Em O Mundo de Ontem, Sweig faz um retrato cheio de admiração do poeta Rainer Maria Rilke. Pergunta-se aí que lugar reservará o futuro a escritores como ele, que fizeram da literatura uma vocação existencial. Pergunta Sweig: “Não será também exatamente assim esta nossa época, que não permite o silêncio nem mesmo ao que é mais puro, ao que está mais isolado, o silêncio da espera e do amadurecimento, da reflexão e do recolhimento?” (…)
Agora, sozinha e descalça neste museu, pergunto-me porque queria tanto ser fechada aqui. Como pode a feminista, a militante, a escritora que aspiro a ser fantasiar com quatro paredes e uma porta bem trancada? Deveria querer quebrar as jaulas, soprar contra as muralhas até elas estremecerem e caírem. Escrever não pode consistir apenas em retirarmo-nos, em comprazermo-nos com o calor de um apartamento, em construir paredes de tijolo para nos protegermos do mundo lá fora e para não olharmos os outros nos olhos. É também alimentar sonhos de expansão, de conquista, de conhecimento do mundo, do Outro, do desconhecido. Atrás de uma fortaleza, o que poderemos nós cultivar senão a indiferença? estar em paz é uma fantasia egoísta. (…)
Veneza é uma cidade sem terra e sem outra riqueza além do sal. É alimentada pelo que vem de fora, do exterior, do estrangeiro. Vejo nisso o símbolo da minha própria história. É talvez aí que vivo, num lugar que se parece com esta península pontiaguda. Numa alfândega, que é por essência um lugar paradoxal. Nunca abandonei de facto o meu lugar de partida nem habitei de facto no meu lugar de chegada. Estou em trânsito. Vivo num entremundo.”

O perfume das flores à noite / Leïla Slimani. Lisboa: Penguin Random House, 2022.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Estante de leitura – A eloquência da sardinha

«A Leste, o sol queimava os olhos. No azul panorâmico das águas do lago, estendiam-se, de leste a oeste, extensas pinceladas de luz, dançando ao ritmo do suave marulhar. As sardinhas corriam velozes, dispersas na quietude da manhã, refastelando-se com plâncton. Por cima delas, réstias de céu flutuavam à superfície. O rosa pastel diluía-se no azul do dia.

Por baixo, as suas sombras, projetadas para oeste, mergulhavam nas profundezas ainda saturadas de noite.

À distância, os atuns vislumbraram estas sombras dançantes.
A aproximação dos atuns provocou um calafrio. Subitamente, todo o banco de sardinhas se agrupou, organizando-se numa massa compacta e assustada.
Tornar-se um espelho do mar. A sardinha sabia que esta era a única forma de se esquivar do olhar dos atuns. Fundir-se na paisagem, tornar-se um mero reflexo. Todo o banco tinha de adotar de forma sincronizada o mesmo ângulo, de forma a que as escamas prateadas refletissem o azul da água em todas as direções e que eles não as pudessem distinguir do vazio do oceano. Não podiam estremecer, nem permitir que uma nesga de céu se espelhasse na mais ínfima escama: uma partícula de luz poderia trair a sua presença. A sardinha mantinha-se imóvel, desaparecia juntamente com todo o seu banco, num frémito invisível.
Mas, entre os reflexos de mar da sua pele, começara já a desenhar-se num a legião de atuns, alinhados, coordenados e implacáveis. Tarde demais para ter ilusões. O olho triangular do atum já detetara o banco. A sardinha viu os vultos pretos e perfilados, de longas barbatanas, materializarem-se. De súbito, esses vultos mudaram simultaneamente de cor. Os atuns tinham iluminado as suas listas azuis fluorescentes, cujo comprimento de onda ultravioleta está precisamente calibrado para ofuscar os olhos das sardinhas. Deu-se um clarão estonteante.

O ataque dos atuns foi rápido e violento. (…) O banco não cedeu ao pânico. Ofuscadas, atordoadas, as sardinhas sabiam que a sua salvação dependia de se manterem agrupadas, à escuta umas das outras, organizadas, agindo em conjunto, como um só peixe. O grupo desenhava estranhos arabescos e volutas para desconcertar os atacantes, esquivava-se dos seus assaltos, separava-se para logo de seguida voltar a agrupar-se, tentando refletir os raios de sol em todas as direções, para os cegar.
Mas os atuns vinham de longe, tinham viajado noite e dia sem parar; a fome ameaçava-os. Mudaram de estratégia e empurraram a bola de sardinhas para a superfície, para esse muro de céu movediço intransponível. (…) A sardinha, isolada num dos lados, não conseguia juntar-se às outras. Visível e vulnerável, afastada da massa protetora das suas congéneres. A única hipóteses era nadar, sempre em frente.
Os milhares de escamas arrancadas brilhavam no azul como flocos de neve. A sardinha acelerava, com pavor de ser descoberta. No espelho prateado da sua pele, a cena do festim dos atuns foi ficando cada vez mais pequena. Quantas imagens refletidas naquele espelho! Todas essas cenas em que a sardinha se mantivera invisível, e cujas cores se imprimiram fielmente na sua pele. Nadando com todas as suas forças, a sardinha relembrava esses quadros reproduzidos nas suas escamas: as brincadeiras dos golfinhos, o casco dos navios, os rochedos de ilhas longínquas, as estranhas tartarugas do mar… tantos eram os segredos que levava consigo. Mas que iria acontecer a essas histórias? Ela era apenas uma sardinha solitária, muito vulnerável, praticamente condenada a dissolver-se no suco gástrico de um atum. Um pedaço tão ínfimo na cadeia alimentar, uma mera dentada para os predadores que encontraria pelo caminho. Que fazer para que esses relatos dos quais estava impregnada não se dissolvessem no turbilhão dos ciclos do oceano?

A sardinha nadou durante muito tempo, até perder a noção do tempo. Nem sequer reparou que a água à sua volta tinha mudado de cor e que as suas escamas já não refletiam o azul do largo, mas o verde dos herbários e o ocre dos rochedos. Esgotada, vacilou. Ondas desconcertantes empurravam-na para um elemento novo para ela: a terra. Ainda mal se tinha dado conta de que uma rede verde a recolhera do mar, viu-se mergulhada num balde de plástico, decorado com estrelas-do-ar. Foi então que se cruzou com um phar desconhecido, um olhar de criança. E, antes de voltar a partir, milagrosamente salva, rumo à liberdade e aos perigos do mar, decidiu transmitir-lhe algumas das suas histórias e convencê-la a fazer o mesmo.

(…) deixemos estas histórias embalar-nos e inspirar-nos a inventar e partilhar outras tantas. Pois o mundo do mar é como o das palavras: um espaço de liberdade, que deverá manter-se assim. Aqueles que querem refrear as palavras, impor regras à expressão e à linguagem são como aqueles que pretendem erguer barreiras no mar. O oceano é de todos e de ninguém. A imaginação também. Assim, quer sejam uma baleia solitária que fala a sua própria língua ou uma das anchovas coordenadas de um vasto branco; quer sejam um polvo inventivo, uma rémora pegajosa ou um discreto lavagante – cada um à sua maneira, entoemos livremente as nossas histórias.”

A eloquência da sardinha / Bill François. Lisboa: Quetzal, 2021.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Estante de leitura – Cinquenta palavras para Chuva

 «Acordo num jardim.

Alguém deve ter-me carregado até aqui. Consigo cheirar as flores antes mesmo de abrir os olhos. O cheiro de cada flor exótica enche todo o meu corpo. Estou cercada por ele.
Este não é o meu jardim.
Abro os olhos e vejo que é interminável, estende-se para lá do horizonte e até ao infinito. O céu é de um azul prussiano perfeito e as nuvens são gordas e cremosas, como se um pasteleiro as tivesse criado à mão. O sol é brando, banhando tudo com uma suave luz branca.
Sei que este não é um jardim comum. Também sei que estou destinada a estar aqui.
Levanto-me e ponho uma mão em pala sobre os olhos para os proteger da luz. Os cortes desapareceram, como se nunca tivessem existido. Curvo-me ligeiramente e puxo para cima a bainha do meu quimono, que é branco como o alabastro e feito da mais delicada seda. Está guarnecido com pérolas minúsculas e bordado com kiku no hana, crisântemos. Puxo-o até à cintura e passo com os dedos ao longo da pele macia do interior da minha coxa. A minha cicatriz também desapareceu.
Baixo a saia e começo a andar, não sei para onde, mas em frente. Caminho por baixo de árvores com ramos pesados com frutos maduros: romãs e maçãs, bananas e limas, ameixas e alperces, cerejas e frutos cujo nome desconheço. Há molhos de flores vermelhas por entre a erva alta, espalhados como fogos de artifício caídos. Curvo-me para apanhar uma rosa em rons de salmão.
O caule não tem espinhos.
Então, ouço qualquer coisa, um soim suave e perfeito. Não hesito e sigo-o. É como uma canção de sereia. Nunca consegui resistir a isso. Nunca o quereria fazer.
Não me pergunto para onde vou porque estou neste lugar, que obviamente não se destina a olhos mortais. Talvez eu esteja morta. Encosto as mãos à barriga magra e continuo a andar. Se estou morta, não posso dizer que me importo. Este lugar é… o paraíso. E nada me dói aqui. Toda a minha vida, carreguei uma dor abafada dentro de mim, tão constante que mal me apercebi.
Mas apercebo-me agora, porque desapareceu.
Ouço o ruído constante de um riacho murmurante algures nas proximidades, por baixo da canção. Começa a soar-me familiar. Dou por mim a caminhar um pouco mais depressa, numa tentativa de o apanhar. Conheço esta canção. De onde? Levanto a bainha da saia para andar mais depressa. Sinto o piso quente sob os meus pés descalços.
Onde é que eu já ouvi esta canção?
Está a ficar mais alta nos meus ouvidos e o som está a tornar-se mais rico, a lavar-me e a purificar-me de todas as dores que já senti. Agora estou a correr. Corro através de um bosque de árvores cujos ramos se juntam para formar uma auréola por cima da minha cabeça. Corro ao lado de um lago límpido com patinhos a salpicar. Corro até estar num prado com delfínios de um tom roxo profundo que me chegam até à cintura e papoilas vermelhas que parecem sorrir para mim. Faço uma pausa, o meu coração palpita no meu peito, os meus olhos vagueiam freneticamente para encontrar a fonte da música. Há uma árvore um pouco mais à frente. Viro o pescoço para ver melhor e percebo que é um pessegueiro.
Então, sei.
É a Ave Maria, de Schubert. É a minha primeira e única canção de embalar.”

Cinquenta palavras para chuva / Asha Lemmie. Lisboa: 20 | 20 Editora, 2021.