sábado, 17 de junho de 2017

Estante de leitura – Mulher de Porto Pim

"Do seu deus mais importante, que me parece pai de todos os deuses do céu e da terra, ouvi relatos muito diversos e não pude ver o seu templo nem aproximar-me da sua ilha; não porque os estrangeiros não sejam ali tolerados, mas porque mesmo os cidadãos desta república só podem alcançá-la depois de haverem atingido um estado de espírito que raramente se alcança, e depois não voltam mais. Na sua ilha ergue-se um templo que os habitantes destas paragens denominam de um modo que eu poderia traduzir por “As Maravilhosas Moradas”, e que consiste numa cidade toda ela virtual, no sentido em que não existem edifícios mas apenas as suas plantas traçadas no solo. Essa cidade tem a forma de um tabuleiro de xadrez e estende-se por milhas e milhas; e todos os dias os peregrinos com um simples giz, deslocam os edifícios à sua vontade, como se fossem peças de xadrez, de maneira que a cidade é móvel e variável, e a sua fisionomia muda constantemente. No centro do tabuleiro ergue-se uma torre sobre a qual assenta uma enorme esfera dourada, que lembra vagamente o fruto que abunda nos jardins destas ilhas. E esta esfera é o deus.

 Não me foi possível descobrir quem seja exatamente esse deus; as definições que me deram até agora são imprecisas e reticentes, e talvez pouco compreensíveis para um estrangeiro. Depreendo que ele esteja relacionado com a ideia da plenitude e da perfeição, uma ideia altamente abstrata e pouco compreensível para o intelecto humano. E foi por isso que pensei que se tratasse do deus da Felicidade; mas da felicidade de quem compreendeu tão plenamente o sentido da vida que para si a morte já não tem importância alguma e é por isso que os poucos eleitos que vão venerá-lo não voltam mais. A velar este deus está um idiota de rosto cretino e de fala desconexa, que talvez esteja em contacto com o deus por misteriosas vias que a razão ignora. Quando manifestei desejo de lhe render homenagem, as pessoas riram-se de mim e, com ar de profundo afeto que talvez contivesse uma ponta de comiseração, beijaram-me na face. 

Em contrapartida, também eu rendi homenagem ao deus do Amor, cujo templo se ergue numa ilha de praias louras e em arco, na areia dourada acariciada pelo mar. E a imagem do deus não é um ídolo nem qualquer coisa visível, mas um som, o puro som da água do mar que entra no templo através de uma canal cavado na rocha e que se quebra num lago secreto; e ali, devido à forma das paredes e à amplitude da construção, o som reproduz-se num eco infinito que arrebata quem o ouve e provoca uma espécie de embriaguez ou de tontura. E a muitos e estranhos efeitos se expõe quem honra este deus, porque o seu princípio comanda a vida, mas é um princípio bizarro e caprichoso; e se é verdade que ele é a alma e a concórdia dos elementos, também pode produzir ilusões, delírios e visões. E eu assisti nessa ilha a espetáculos que me perturbaram pela sua verdade inocente; tanto que tive dúvidas se tais coisas existiam deveras ou se eram antes fantasmas do meu sentimento que saíam de mim e tomavam aparência real no ar por me ter exposto ao som enfeitiçado deste deus; e pensando isto, tomei por um caminho que leva ao ponto mais alto da ilha, de onde se pode ver o mar de todos os lados. E então apercebi-me de que a ilha era deserta, que não havia nenhum templo na praia e que as figuras e os vários rostos do amor que eu tinha visto como quadros vivos e que compreendem múltiplas gradações do espírito como a amizade, a ternura, a gratidão, o orgulho e a vaidade, todos esses rostos que eu pensava ter visto em formas humanas, eram apenas miragens provocadas em mim quem sabe por que sortilégio. E assim cheguei mesmo ao cimo do promontório, e enquanto observava o mar infinito, abandonando-me já ao desalento que a desilusão provoca, uma nuvem azul desceu sobre mim e arrebatou-me para um sonho; e sonhei que te escrevia esta carta, e que eu não era o grego que partiu em busca do Ocidente e não mais voltou, mas que estava apenas a sonhá-lo.  

Mulher de Porto Pim e outras histórias. António Tabucchi. Alfragide: D. Quixote, 2016. 

sábado, 3 de junho de 2017

Estante de leitura – Luz de luz

"Hans-Jurgen Syderberg falou-nos do “mundo perdido”, da perda da paisagem, da morte das florestas, dos lugares de infância, da decadência de uma civilização: a vaicuidade sem desígnio, o consumismo desenfreado, a massificação da cultura, a comunicação entre pessoas pautada pela superficialidade e cinismo.
uma pequena luz, luz bruxuleante, treme, de novo a esperança, como nos recordam os registos de vida e a própria obra atual de ai wi-wei, verdadeiro feixe de luz que teima em persistir mesmo perante a indomável força retropulsora e estagnante que o envolve desde há anos, provavelmente desde a sua infância, um mal que tem sido um horror mudo e que nos empurra para uma pergunta crucial: como iremos ultrapassar esta humanidade em que a barbárie de corpos destroçados, migrantes afogados, crianças não nascidas na liberdade da escolha, convive diariamente com a euforia colorida e imparável do comércio? eis o maior risco que agora enfrentamos, a dura guerra diária de, segundo José Gil, “deixar de haver um lugar, um território próprio do objeto e do sujeito: o lugar do desdobramento incessante do espaço e do tempo, em todos os sentidos”. o lugar do permanente devir daquele que ainda pode olhar para fora de si. Rui Chafes recorda-nos: “o homem dignifica aquilo a que chamamos vida quando tem consciência de participar numa dimensão superior que o transcende”.
no fundo, a arte de viver é uma intensa declaração de amor. pelo outro. onde se aprende diariamente a gerir encontros e despedidas. onde se aprende a aceitar limites. a alargá-los, sendo capaz de mais e, sobretudo, de diferente. (…)
juntar o que está separado. desiquilibrar para reequilibrar. transformar. transcender. quando aterrou pela primeira vez em Nova Iorque, (…) ai wei-wei escreveu perante as luzes da cidade que então se acendiam, iluminando o céu a uma distância para si impensável:”this is the light I will die for”. (…) “the worst tragedy is disrepect for life”, escreveu mais tarde no seu blog. (…) só a permanente capacidade de espanto e temor para com o mundo pode manter acesa a chama da indignação. da força que deseja ser eterna aliada da verdade, da beleza, da bondade.
negação da morte
vida eterna
assombro
glória
luz de luz
Hubert Dreyfus e Dorrance Kelly no seu livro, Um mundo Iluminado recordam-nos uma velha história de um sábio e dois alunos. Um dia o sábio deu a um aluno a ordem de, certo dia, correrem eles próprios mundo e, enfim, aplicarem por si próprios algo de útil que lhes tivesse ensinado. muitos anos decorridos, os dois alunos reencontraram-se pelo acontecimento da morte do sábio e, entre eles, trocaram acesas experiências. o primeiro disse: “aprendi a ver no mundo muitas coisas plenas de luz, mas (ai de mim!), continuo a ser infeliz. pois também deparei com muitas desilusões e muitas coisas tristes e sinto ainda que não consegui seguir o conselho do mestre. talvez nunca venha a sentir-me preenchido de felicidade e alegria, porque sou realmente incapaz de descobrir todas as coisas plenas de luz.”
respondeu então o segundo: “nem todas as coisas que existem são plenas de luz, mas de todas as que são dotadas de luz, sim, existem.”
por isso, não sejas tão só refúgio de luz. ilumina. ergue-te em desafio diário. tocando um a um os raios de sol. que teus dedos sejam fios infinitos nesse desígnio desumano de viver de janela sempre aberta, as mãos em chama, a dor doendo em febre alta por entre a profissão impossível em que evocas sonhos nos quais a beleza ainda é nova.
não sejas tão só a sombra. consente a dúvida, o pasmo. e vive.
vive em cada momento como amante eterno. eis o outro, diante de ti, suspenso.
disse-nos por fim Tarkowsky: “se quiseres viver, tens de permanecer macio e flexível como uma criança”. não te deixes endurecer. sê feliz.
apago agora a luz. é noite. creio no novo dia que virá depois.

Pedro Strecht. (2017). Luz de luz. Lisboa: Manufactura.