segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
Estante de leitura - acolher
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Estante de leitura - Os meus dias na Livraria Morisaki
– Este livro é belíssimo – disse eu, mostrando-lhe Até à Morte de uma Rapariguinha.
O seu rosto iluminou-se, parecia uma criança que acabara de receber um presente de aniversário maravilhoso.
– É verdade! Que bom que também aches – exclamou, todo entusiasmado.
– Sim, é mesmo um belo livro. Como posso dizer… Prendeu-me.
Irritava-me não conseguir explicar melhor. A expressão “prendeu-me” não transmitia, nem de perto, nem de longe, a ideia do alvoroço interior que aquele livro provocara em mim.
– É fantástico ouvir-te dizer isso. E, ainda por cima, foste ler um autor fora de moda como Murō Saisei, parabéns.
O tio estava tão feliz que também me contagiou.
Então, começámos a falar do livro e assim ficámos durante algum tempo. Eu estava contente por ter finalmente algo em comum com alguém. Mesmo que fosse o meu tio, aliás, estava emocionada precisamente porque se tratava de uma pessoa como ele.
As situações inesperadas abrem-nos portas que nem sequer imaginávamos. Era mesmo assim que me sentia.
E, de facto, a partir daquele momento, comecei a ler um livro atrás de outro. Era como se a sede de leitura, há muito adormecida dentro de mim, tivesse explodido de repente.
Tentava saborear os livros que lia, um de cada vez, devagar. Tinha todo o tempo do mundo, e, quanto aos livros, não corria o risco de ficar sem exemplares.
Nagai Kafū, Jun’ichirō Tanizaki, Dazai Osamu, Haruo Satō, Akutagawa Ryūnosuke , Uno Kōji… Nomesde que já ouvira falar, mas dos quais nunca lera nada, ou que me eram completamente novos, não importava: se me despertavam a curiosidade, pegava neles e lia-os avidamente. E quantos mais lia, mais queria ler.
Era a primeira vez que viva uma experiência tão maravilhosa. Quase parecia que desperdiçara anos de vida.
Deixei de dormir horas e horas, já não sentia essa necessidade. Ao invés de me refugiar no sono, quando o meu tio me substituía, ia a correr ler num café ou no meu quarto.
Aqueles livros velhos escondiam histórias, para mim, inimagináveis. E não me refiro apenas àquilo que contavam. Em cada um encontrei vestígios do passado.
Por exemplo, em Paisagem de Uma Alma, de Kajii Motojirō, li:
“O que significa observar? Significa transferir para um objeto parte da sua alma, se não a sua totalidade.
Alguém a ler esta frase, devia ter-se emocionado e sublinhara-a a caneta. Eu, que também me emocionara, senti uma afinidade com aquele desconhecido e fiquei feliz.
Aconteceu-me também encontrar flores secas usadas para marcar a página onde se parara. Quando acontecia, cheirava-as e fantasiava sobre quem, quando e em que estado de espírito as deixara entre aquelas páginas amarelecidas.
Eram encontros que ultrapassavam as barreiras temporais, apenas possíveis através dos livros velhos. E assim comecei a afeiçoar-me à livraria Morisaki, que estava repleta de livros velhos. Poder passar horas naquele pequeno mundo sereno parecia-me um privilégio.
Yagisawa, Satoshi. (2023). Os meus dias na livraria Morisaki. Barcarena: Editorial Presença
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
Estante de leitura - Rebeldes magníficos
Continuamos a ter de fazer essa escolha. Encontrar na vida de cada um o seu significado mais autêntico, forma de compreender os outros e estar num mundo social e cultural foi a sua grande oferta para outros tempos. Com o grupo de Jena podemos voar no pensamento do que pode ser esse eu interior, pois eles deram-nos asas para essa possibilidade. Como o usaremos é uma questão que igualmente nos deixaram, nessa visão destacada por Novalis que liberdade e amor são uma e a mesma coisa”. Uma ideia para refundar outra forma de pensarmos a vida e o mundo.
Um livro deslumbrante sobre um grupo fascinante que mudou o modo como podemos ver o mundo.
“O Iluminismo iluminara de facto, mas esta nova abordagem racional também criara um certo distanciamento em relação à natureza e excluíra os papéis do sentimento e da beleza. A natureza tornara-se algo que era investigado a partir de uma pretensa perspetiva objetiva. Por exemplo, a luz já não era apreciada pelo seu jogo caleidoscópio de cores iridescentes, dizia Novalis, mas pela sua refração e “obediência matemática”; daí a sua elevação à própria palavra “Iluminismo”.
Era por isso que os alunos de Schelling gostavam tanto do seu jovem professor. Ele reunia o que a revolução científica separara: a natureza e a humanidade. Por mais que os cientistas observassem, calculasse e experimentassem, havia algo emocional, algo visceral e talvez inexplicável em redor da ligação da humanidade com a natureza.
Seja como for que a sintamos, a natureza pode acalmar, curar ou encher-nos apenas de alegria. Schelling deu-nos a explicação filosófica. E ao fazê-lo, a sua filosofia de unicidade tornou-se o batimento cardíaco do Romantismo.”
Wulf, Andrea. (2023). Rebeldes Magníficos – Os primeiros Românticos e a Invenção do Eu. Lisboa: Temas e Debates.
sábado, 13 de julho de 2024
Estante de leitura – o olho e o espírito
É necessário que o pensamento da ciência – pensamento de sobrevoo, pensamento do objeto em geral – se coloque de novo num aí prévio, in locus, sobre o solo do mundo sensível e do mundo trabalhado. Tal como existe na nossa vida, para o nosso corpo, não esse corpo possível em relação ao qual é permitido defender que se trata de uma máquina de informações, mas este corpo atual que eu chamo meu, a sentinela que se mantém silenciosamente sob as minhas palavras e os meus atos. É necessário que, com o meu corpo, despertem os corpos associados, os «outros», que não são meus congéneres, como diz a zoologia, mas que me assombram, que eu assombro, com os quais comungo um ser único atual, presente, como nunca nenhum animal assombrou os da sua espécie, do seu território, ou do seu meio. Nesta historicidade primordial, o pensamento apressado e improvisador da ciência aprenderá a aprofundar-se nas coisas enquanto tais e em si mesmo, tornar-se-á de novo filosofia…
Ora a arte e especialmente a pintura bebem nessa camada de sentido bruto da qual o ativismo nada quer saber. Elas são mesmo as únicas a fazê-lo em toda a inocência. (…) Ao escritor, ao filósofo, pede-se conselho ou opinião, não se admite que tenham o mundo em suspenso, exige-se que tomem posição, não podem declinar as responsabilidades do homem falante. O pintor é o único a ter o direito do olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação. Dir-se-ia que perante ele as palavras de ordem do conhecimento e da ação perdem a sua virtude. (…) Ele [o pintor] aí está, forte ou fraco na vida, mas incontestavelmente soberano na sua ruminação do mundo, sem outra «técnica» senão a criada pelos seus olhos e pelas suas mãos à força de ver, à força de pintar, obstinado a tirar deste mundo, onde soam os escândalos e as glórias da história, telas que nada acrescentarão às cóleras e às esperanças dos homens e ninguém se queixa. Que ciência secreta é esta que ele possui ou procura? Esta dimensão segundo a qual Van Gogh quer ir «mais longe»? Este fundamental da pintura, e talvez de toda a cultura.”
O olho e o espírito / Merleu-Ponty. Pontinha: Vega; Imagem: “Senecio” / Paul Klee, 1922.
terça-feira, 18 de outubro de 2022
Estante de leitura - Emily Dickinson
“Não sou Ninguém! Quem és tu?
És um – ninguém – Também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! não vão eles – contar!
Que horror – o ser – Alguém!
Que vulgar – como a rã –
Passar o Junho todo – a anunciar o seu nome –
No charco de pasmar!” (1)
“Se eu já não estiver viva
Quando os Piscos voltarem,
Deem ao do Peitilho de Sangue
Uma migalha por minha Memória.
E se eu não vos puder agradecer
Por estar já tão adormecida,
Sabei que ainda assim o estou tentando
Com lábio de Granito!” (2)
“Hei-de sempre cantar!
Por mim passarão pássaros
A caminho de Climas mais de Sol –
Cada um – com seu anseio de Pisco –
Eu – com o meu Peito-Ruivo –
E o meu Rimar –
Mais tarde – quando ocupar o meu lugar no Verão –
Hei - de trazer muito mais cheio tom –
As Vésperas – mais doces que as Matinas – Senhor –
Só da Tarde a semente – é a Manhã – (3)
(1) “I’m nobody! Who are you?”; (2) – “If I shouldn’ t be alive”; (3) – I shall keep singing!”
in Duzentos Poemas / Emily Dickinson. Lisboa: Relógio D´Água, 2014.
sexta-feira, 30 de setembro de 2022
Estante de leitura – As Sibilas – Diálogos em Sfumato
Entre laranjeiras e roseiras, entre a manhã, a tarde e a noite, e um fundo de esmerados cultivos, deu-se um grande combate, um combate que mais parece um exercício de esgrima e não de morte. Cada dia da nossa vida é assim, uma batalha em três andamentos: o acordar, na sua luz branca – das interrogações; caminha-se para a tarde, na sua luz quente-os cães ladram, as vozes alteram-se, passa o carteiro; e depois o fim do dia, o fim do combate – rodam-se os anéis encravados nos dedos inchados, fecham-se as portadas à lua de prata, às vezes um relâmpago ao longe, e adormece-se, talvez. E tudo é nada.
A poesia das paisagens, é a sua história que a alimenta. Há, no entanto, tempos de pousio, uma espécie de morte, de cansaço da natureza. Uma espécie de vingança daqueles que já não as percorrem, e as apagam, até um dia, em que a nova geração as redesenhe e ocupe. Será outra coisa. Ou a mesma, porque a natureza não tem imaginação, nem os homens. (…)
Eram seus encontros, os pássaros saltitantes de galho em galho; as galinhas assustadiças nos quinteiros isolados; o som dos cantares longínquos, e interrompidos, das moças nos tanques-lavadouros; o sino do Mosteiro ou da Igreja do Salvador de Real; o cruzar-se com este e aquele, que paravam a contar os desaires dos negócios e da vida. Agustina aprendeu a ouvir e a falar com todas estas criaturas que faziam parte da Natureza, e que contavam os dias pela sua justa medida de tempo. Sábio ensinamento, esse, que ela levou no seu coração, que é a nossa máquina perfeita, de medir o tempo.
Os veios de água que desciam das minas até ao caminho formavam pequenas pias de agrieiras.
As descrições de lugares e de paisagens, depois, nos seus romances, podem ser destacadas como poemas intemporais, com uma raiz longínqua nos poetas da Antiguidade.
D. Amelinha entrava na feira discretamente e dirigia-se aos feirantes do ouro. Aí, meio encoberta por uma manta suspensa do toldo, sentava-se num banquinho e apreciava, escolhia, negociava, os brincos com turquesas, os cordões de cinco voltas, os anéis de desenho antiquíssimo, onde se vincavam símbolos dos quais se perdera já o significado. Mas lá estavam.
Hoje, imagino esse cenário, num filme de Kurosawa! As mesmas figuras, esfumadas na paisagem; os mesmos gestos repetidos, baloiçados, na rotina diária; o mesmo movimento secular, entre o nascimento e a morte. Tudo era um sonho. Como se à volta da vessada se perfilassem os espíritos do milheiral, encarnados em bonecos de corda, os contadores da história daquela mulher franzina, de olhos amendoados e semicerrados, e de tantos saberes e incumbências.
E a pequena Agustina captava esse sonho, entrava nele, e aprendia as artes.
Ah!… A Sibila é um sonho contado.”
“Às vezes sentava-me no degrau da cozinha, e pensava que não podia haver pacto com os outros, mas sim a renúncia da nossa presença; o auge da despedida” (Agustina, “poema pessoal” (1967), Ensaios e Artigos, 2017).
As Sibilas – Diálogos em Sfumato / Mónica Baldaque. Lisboa. Relógio D` Água, 2022.
sábado, 17 de setembro de 2022
Estante de leitura – Clarissa
“Sentado no banco do jardim, Amaro lê os seus poetas.
As folhas da árvore que lhe dá sombra, desenham arabescos móveis nas páginas do livro.
O jardim é uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, com uma folha de papel de seda levada. pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa se despetala lentamente e as pétalas rolam para o chão. Há pelos canteiros, verdes de todos os matizes. As glicínias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insetos minúsculos de asas coloridas.
Amaro fecha o livro e olha o jardim. Porque será que lhe vem à memória a imagem de Clarissa? Clarissa é parte integrante deste jardim florido e luminosos, Clarissa é como a relva veludosa, como as glicínias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia, menina e moça – olhos abertos para o mistério da vida, alma que amanhece.
Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele – insensato – pensava que a vida estava só nos livros…
Agora é tarde. tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete.
A hora rútila de Clarissa passará também. Amanhã ela se fará mulher de todo. Professora, irá para a sua cidade natal, onde decerto casará com o filho dum fazendeiro rico. Serão muito felizes, terão muitos pimpolhos gordos. Clarissa ganhará fatas carnes, ficará como a tia, será uma esplêndida dona de casa, que há-de saber fazer gostosos doces, e queijos e bolinhos…
Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Põe-se a caminhar dum lado para o outro, mãos às costas, o pensamento solto…
Clarissa! Agora ela é poesia, ingenuidade, ternura, incompreensão, encantamento… Para ela a vida está cheia de surpresas e de atrações irresistíveis. Mas amanhã que virá? Amanhã? A dissolução, a deformidade do corpo e do espírito. Hoje – a menina verde, fresca, risonha. Amanhã – a mulher gorda, senhora respeitável que sabe em que mês devemos plantar couves, que não acredita “nessas bobagens dos poetas”, e que nem sequer há - de saber ensinar aos filhos a mentira bonita dos contos de fadas. Dir-lhes-á com uma voz árida:
– As fadas não existem, nem as varinhas de condão.
Os poetas só dizem mentiras. Vocês devem mas é aprender as quatro estações, a curar bicheira e a dar banho de carrapaticida no gado. Isso é que vocês devem aprender, para juntar dinheiro, povoar a fazenda, comprar mais campo e ganhar prestígio político….
Amaro procura apagar o pensamento mau.
Agora compreende mais que nunca que só na arte a beleza é imortal. Canta-lhe na cabeça o verso de Keats:
A thing of beauty is a joy for ever.
Na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça.
Senta-se de novo, mais sereno.
Mas o momento luminoso de Clarissa ainda não passou. Ela vive aqui na pensão, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente….
E ele a poderá contemplar da sombra… Inspirado em Clarissa, há-de compor ainda muitas músicas frescas e alegres. A canção do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moça. Uma “suite” de cor e movimento que há-de se chamar: “Clarissa amanhece”.
Há-de compô-la em segredo, muito em segredo. Ninguém ficará sabendo.
E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim….”
A thing of beauty is a joy for ever.
Clarissa / Erico Veríssimo. São Paulo: Companhias das Letras, 2005.
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
Estante de leitura – O Mundo de Ontem
Lançam-nos então ao mundo, de repente; Banham-nos em cem mil vagas.
Tudo nos interessa, muito nos agrada,
Oscila a lama em leve agitação;
Sentimos, e o que temos sentido,
É levado pela corrente
Do colorido turbilhão do mundo.” (Goethe)
“Era tocante a confiança de cercar a vida com uma paliçada sem a menor brecha, evitando assim qualquer golpe do destino, enfermava, apesar de toda a solidez e humildade da conceção de vida, de uma grande e perigosa presunção. No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao “melhor de todos os mundos”. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras, fomes e revoltas, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. agora, porém, era apenas uma questão de décadas até terem sido definitivamente ultrapassados os últimos vestígios do mal e da violência, e a crença no “progresso” ininterrupto, imparável, tinha para essa época a força de uma verdadeira religião; (…)
Hoje é fácil para nós, que há muito tempo riscámos a palavra “segurança” do nosso vocabulário, como sendo uma mera ilusão, sorrir perante a loucura otimista daquela geração cega pelo idealismo e para a qual o progresso da humanidade deveria ter como consequência necessária uma evolução moral igualmente rápida. Nós, que neste novo século [XX] aprendemos a já não nos surpreendermos com nenhuma erupção de bestialidade coletiva, nós, que a cada novo dia esperávamos perversidades ainda maiores do que as doa dia anterior, somos marcadamente mais céticos no respeitante à capacidade de educação do ser humano. Tivemos de dar razão a Freud que via a nossa cultura, a nossa civilização, apenas como uma fina camada em risco de poder ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Tivemos de nos habituar gradualmente a viver sem chão debaixo dos pés, sem justiça, sem liberdade, sem segurança. Há muito que recusámos, na nossa própria existência, a religião dos nossos pais, a sua crença numa elevação rápida e constante da humanidade; a nós, que cruelmente fomos ensinados, parece-nos banal esse otimismo precipitado perante uma catástrofe que, de uma assentada, nos faz recuar mil anos para lá de todos os avanços da humanidade. Mas mesmo sendo apenas só loucura aquela que nossos pais serviram, nem por isso deixou de ser maravilhosa e nobre, mais humana e mais fecunda do que as palavras de ordem de hoje (…) e consola-me a confiança, herdade de meus pais, de que, algum dia, esta recaída parecerá ter sido apenas um intervalo no eterno ritmo do avanço contínuo. (…)
Quando hoje penso nele [Rainer Maria Rilke], e em cada um dos m
estres que cinzelaram a palavra com uma sublime peça artística de ourivesaria, quando penso nesses nomes venerados que iluminaram a minha juventude como constelações inacessíveis, sou irresistivelmente assaltado pela pergunta nostálgica: será que tais poetas puros, exclusivamente dedicados às formas líricas, voltarão a ser possíveis na nossa época de turbulência e de perturbação geral.(…) aqueles poetas que nada cobiçavam da vida exterior, nem a simpatia das grandes massas, nem condecorações, ou dignidades, ou lucro, que a nada mais aspiravam do que a unir de forma perfeita estrofe com estrofe, num esforço silencioso, porém apaixonado, cada verso impregnado de música, luminoso nas cores, resplandecente de imagens? Eles constituíam uma guilda, uma ordem quase monástica no seio dos nossos ruidosos dias, eles, deliberadamente de costas voltadas para o quotidiano, eles, para quem nada no universo era mais importante do que o doce som que, apesar de tudo, conseguia sobreviver ao fragor da época, logo que uma rima, ajustando-se a outra, extravasava aquela emoção indescritível, mais leve do que o som de uma folha rodopiando ao vento e, contudo, capaz de tocar as almas mais distantes com as suas vibrações.
Mas como era enaltecedora para nós, jovens poetas, a presença desses homens fiéis a si próprios, como eram modelares estes servidores austeros e guardiões da língua, que só á palavra purificadora concediam o seu amor, à palavra que não tinha a ver com o tempo nem com o jornal, e sim com a durabilidade e com a perenidade (…) ; será que tais almas ainda serão possíveis nos tempo que correm, nas nossas formas de vida que expulsam criminosamente as pessoas do seu recolhimento interior como um incêndio florestal escorraça os animais dos seus esconderijos mais ocultos? (…)
Era sempre a mesma, a eterna corja de todos os tempos que chamava cobardes aos cautelosos, fracos aos mais humanos, e que depois ficava sem saber o que fazer na hora da catástrofe provocada pela sua imprudência. Era sempre a mesma corja, a mesma que escarneceu de Cassandra, em Troia, de Jeremias, em Jerusalém, e nunca consegui compreender tão bem o carácter trágico e a grandeza dessas figuras como nestas horas tão semelhantes às que elas viveram (…) fez com que muitas vezes me questionasse se não seria eu próprio o louco no meio de toda aquela gente com juízo, ou talvez apenas terrivelmente lúcido no meio da sua embriaguez. Sentia-me constantemente tentado a mostrar o endurecimento interior que qualquer forma de poder provoca no indivíduo, o empedernimento de ala que qualquer vitória provoca em povos inteiros, e a contrapor-lhes a força tumultuosa da derrota que rasga na alma dolorosos e terríveis sulcos. Em plena guerra, enquanto os outros, prematuramente triunfantes, ainda demonstravam uns aos outros a infalibilidade da vitória, já eu me lançava no abismo mais profundo da catástrofe e procurava o caminho ascencional.
(…) quase parece vingança maldosa da natureza, que todas as conquistas da técnica, graças às quais o ser humano concentrou nas suas mãos os seus mais misteriosos poderes, lhe tenham destruído simultaneamente a alma. Não há pior maldição que a técnica tenha lançado sobre nós do que a de impedir a nossa fuga do presente, ainda que só por um instante. Em períodos de catástrofe, as gerações que nos precederam podiam refugiar-se na solidão e no isolamento; a nós, estava-nos reservado ter de saber e de sentir, na precisa hora e no preciso segundo, tudo o que acontece de mal em qualquer ponto do nosso globo; (…) em 1938 a consciência mundial ficou calada ou limitou-se a resmungar um pouco antes de esquecer e de perdoar. (…)
E eu sabia: de novo o passado se ia, de novo ficava reduzido a nada o que fora construído. (…) O sol brilhava em toda a sua força e plenitude. Ao regressar a casa, reparei de repente na minha própria sombra que me precedia, tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente. Durante todo este tempo, ela nunca mais saiu do meu lado, aquela sombra, pairando, dia e noite, sobre cada um dos meus pensamentos; talvez os seus escuros contornos apareçam também em algumas destas páginas. Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, (…) a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”
O Mundo de Ontem – recordações de um europeu / Stefan Zweig. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014.
segunda-feira, 25 de julho de 2022
Estante de leitura – O perfume das flores à noite
De uma estante tiro um exemplar de Venices de Paul Morand. Abro-o ao acaso e dou com este parágrafo: “Escaparia. Não sabia a quê, mas sentia que o sentido da minha vida se viraria para fora, para outros lados, para a luz. […] Ao mesmo tempo, começou este batimento de um pêndulo que nunca mais me deixou, um gosto, sem dúvida pré-natal, de constrição, a felicidade de viver num quarto exíguo contrariada pela embriaguez do deserto, do mar, das estepes. Eu odiava as cercas, as portas; fronteiras e muralhas ofendiam-me.” Foi assim que também eu sempre vivi. Nesta oscilação entre o chamariz do exterior e a segurança do interior, entre o desejo de conhecer e de me dar a conhecer e a tentação de me concentrar inteiramente na minha vida interior. Toda a minha existência foi atormentada por este conflito entre o desejo de ficar sossegada no meu quarto e a vontade, perpétua, de me divertir, de me roçar nos outros, de me esquecer. Tenho ao mesmo tempo o desejo de me disciplinar, de ficar tranquila e o de me arrancar à minha condição, à minha origem, e de conquistar, pelo movimento, a minha liberdade. Vivo neste desconforto constante: medo dos outros e atração por eles, austeridade e mundanidade, sombra e luz, humildade e ambição.
Por vezes digo-me que, se não falasse com ninguém, se guardasse para mim todos os meus pensamentos, eles não assumiriam a banalidade que lhes descubro quando os partilho com outrem. A conversa é o inimigo do escritor. É preciso ficarmos calados, refugiarmo-nos num silêncio obstinado e profundo. Se me impusesse um mutismo absoluto, poderia cultivar metáforas e e arroubos poéticos como se cultivam flores em estufas. Se me tornasse eremita, veria coisas que a vida mundana me impede de ver, escutaria ruídos que o quotidiano que o quotidiano e a voz dos outros acabam sempre por encobrir. Quando vivemos no mundo, parece-me que os nossos segredos azedam, que os nossos tesouros interiores se embotam, que arruinamos qualquer coisa que, guardada em segredo, poderia ter sido a matéria de um romance. O mundo exterior age sobre os nossos pensamentos como o ar sobre os afrescos murais que Fellini filma em Roma e que se desvanecem no exato momento em que apanham luz. Como se o excesso de atenção, o excesso de luz, em vez de preservar, levasse à destruição da nossa noite interior. (…)
O que não dizemos pertence-nos para sempre. Escrever é jogar com o silêncio, é dizer, de maneira indireta, segredos que na vida real seriam indizíveis. A literatura é uma arte de contenção. Contemo-nos como primeiros momentos do amor, quando nos vêm à mente expressões banais, declarações inflamadas, que nos forçamos a omitir para não estragar a beleza do momento. A literatura consiste numa erótica do silêncio. O que conta é o que não se diz. Em boa verdade, talvez seja a nossa época, e não apenas o meu ofício de escritora, que me impele a desejar a solidão e a calma. Pergunto-me o que teria pensado Stefan Sweig desta sociedade obcecada com a ostentação do eu e com a encenação da própria existência. Desta época em que qualquer tomada de posição nos expõe à violência e ao ódio, em que se espera que o artista esteja de acordo com a opinião pública. Em que se escreve, sob o domínio de uma pulsão, cento e quarenta caracteres. Em O Mundo de Ontem, Sweig faz um retrato cheio de admiração do poeta Rainer Maria Rilke. Pergunta-se aí que lugar reservará o futuro a escritores como ele, que fizeram da literatura uma vocação existencial. Pergunta Sweig: “Não será também exatamente assim esta nossa época, que não permite o silêncio nem mesmo ao que é mais puro, ao que está mais isolado, o silêncio da espera e do amadurecimento, da reflexão e do recolhimento?” (…)
Agora, sozinha e descalça neste museu, pergunto-me porque queria tanto ser fechada aqui. Como pode a feminista, a militante, a escritora que aspiro a ser fantasiar com quatro paredes e uma porta bem trancada? Deveria querer quebrar as jaulas, soprar contra as muralhas até elas estremecerem e caírem. Escrever não pode consistir apenas em retirarmo-nos, em comprazermo-nos com o calor de um apartamento, em construir paredes de tijolo para nos protegermos do mundo lá fora e para não olharmos os outros nos olhos. É também alimentar sonhos de expansão, de conquista, de conhecimento do mundo, do Outro, do desconhecido. Atrás de uma fortaleza, o que poderemos nós cultivar senão a indiferença? estar em paz é uma fantasia egoísta. (…)
Veneza é uma cidade sem terra e sem outra riqueza além do sal. É alimentada pelo que vem de fora, do exterior, do estrangeiro. Vejo nisso o símbolo da minha própria história. É talvez aí que vivo, num lugar que se parece com esta península pontiaguda. Numa alfândega, que é por essência um lugar paradoxal. Nunca abandonei de facto o meu lugar de partida nem habitei de facto no meu lugar de chegada. Estou em trânsito. Vivo num entremundo.”
O perfume das flores à noite / Leïla Slimani. Lisboa: Penguin Random House, 2022.
sexta-feira, 22 de julho de 2022
Estante de leitura – A eloquência da sardinha
«A Leste, o sol queimava os olhos. No azul panorâmico das águas do lago, estendiam-se, de leste a oeste, extensas pinceladas de luz, dançando ao ritmo do suave marulhar. As sardinhas corriam velozes, dispersas na quietude da manhã, refastelando-se com plâncton. Por cima delas, réstias de céu flutuavam à superfície. O rosa pastel diluía-se no azul do dia.
Por baixo, as suas sombras, projetadas para oeste, mergulhavam nas profundezas ainda saturadas de noite.
À distância, os atuns vislumbraram estas sombras dançantes.
A aproximação dos atuns provocou um calafrio. Subitamente, todo o banco de sardinhas se agrupou, organizando-se numa massa compacta e assustada.
Tornar-se um espelho do mar. A sardinha sabia que esta era a única forma de se esquivar do olhar dos atuns. Fundir-se na paisagem, tornar-se um mero reflexo. Todo o banco tinha de adotar de forma sincronizada o mesmo ângulo, de forma a que as escamas prateadas refletissem o azul da água em todas as direções e que eles não as pudessem distinguir do vazio do oceano. Não podiam estremecer, nem permitir que uma nesga de céu se espelhasse na mais ínfima escama: uma partícula de luz poderia trair a sua presença. A sardinha mantinha-se imóvel, desaparecia juntamente com todo o seu banco, num frémito invisível.
Mas, entre os reflexos de mar da sua pele, começara já a desenhar-se num a legião de atuns, alinhados, coordenados e implacáveis. Tarde demais para ter ilusões. O olho triangular do atum já detetara o banco. A sardinha viu os vultos pretos e perfilados, de longas barbatanas, materializarem-se. De súbito, esses vultos mudaram simultaneamente de cor. Os atuns tinham iluminado as suas listas azuis fluorescentes, cujo comprimento de onda ultravioleta está precisamente calibrado para ofuscar os olhos das sardinhas. Deu-se um clarão estonteante.
O ataque dos atuns foi rápido e violento. (…) O banco não cedeu ao pânico. Ofuscadas, atordoadas, as sardinhas sabiam que a sua salvação dependia de se manterem agrupadas, à escuta umas das outras, organizadas, agindo em conjunto, como um só peixe. O grupo desenhava estranhos arabescos e volutas para desconcertar os atacantes, esquivava-se dos seus assaltos, separava-se para logo de seguida voltar a agrupar-se, tentando refletir os raios de sol em todas as direções, para os cegar.
Mas os atuns vinham de longe, tinham viajado noite e dia sem parar; a fome ameaçava-os. Mudaram de estratégia e empurraram a bola de sardinhas para a superfície, para esse muro de céu movediço intransponível. (…) A sardinha, isolada num dos lados, não conseguia juntar-se às outras. Visível e vulnerável, afastada da massa protetora das suas congéneres. A única hipóteses era nadar, sempre em frente.
Os milhares de escamas arrancadas brilhavam no azul como flocos de neve. A sardinha acelerava, com pavor de ser descoberta. No espelho prateado da sua pele, a cena do festim dos atuns foi ficando cada vez mais pequena. Quantas imagens refletidas naquele espelho! Todas essas cenas em que a sardinha se mantivera invisível, e cujas cores se imprimiram fielmente na sua pele. Nadando com todas as suas forças, a sardinha relembrava esses quadros reproduzidos nas suas escamas: as brincadeiras dos golfinhos, o casco dos navios, os rochedos de ilhas longínquas, as estranhas tartarugas do mar… tantos eram os segredos que levava consigo. Mas que iria acontecer a essas histórias? Ela era apenas uma sardinha solitária, muito vulnerável, praticamente condenada a dissolver-se no suco gástrico de um atum. Um pedaço tão ínfimo na cadeia alimentar, uma mera dentada para os predadores que encontraria pelo caminho. Que fazer para que esses relatos dos quais estava impregnada não se dissolvessem no turbilhão dos ciclos do oceano?
A sardinha nadou durante muito tempo, até perder a noção do tempo. Nem sequer reparou que a água à sua volta tinha mudado de cor e que as suas escamas já não refletiam o azul do largo, mas o verde dos herbários e o ocre dos rochedos. Esgotada, vacilou. Ondas desconcertantes empurravam-na para um elemento novo para ela: a terra. Ainda mal se tinha dado conta de que uma rede verde a recolhera do mar, viu-se mergulhada num balde de plástico, decorado com estrelas-do-ar. Foi então que se cruzou com um phar desconhecido, um olhar de criança. E, antes de voltar a partir, milagrosamente salva, rumo à liberdade e aos perigos do mar, decidiu transmitir-lhe algumas das suas histórias e convencê-la a fazer o mesmo.
(…) deixemos estas histórias embalar-nos e inspirar-nos a inventar e partilhar outras tantas. Pois o mundo do mar é como o das palavras: um espaço de liberdade, que deverá manter-se assim. Aqueles que querem refrear as palavras, impor regras à expressão e à linguagem são como aqueles que pretendem erguer barreiras no mar. O oceano é de todos e de ninguém. A imaginação também. Assim, quer sejam uma baleia solitária que fala a sua própria língua ou uma das anchovas coordenadas de um vasto branco; quer sejam um polvo inventivo, uma rémora pegajosa ou um discreto lavagante – cada um à sua maneira, entoemos livremente as nossas histórias.”
A eloquência da sardinha / Bill François. Lisboa: Quetzal, 2021.
segunda-feira, 18 de julho de 2022
Estante de leitura – Cinquenta palavras para Chuva
Alguém deve ter-me carregado até aqui. Consigo cheirar as flores antes mesmo de abrir os olhos. O cheiro de cada flor exótica enche todo o meu corpo. Estou cercada por ele.
Este não é o meu jardim.
Abro os olhos e vejo que é interminável, estende-se para lá do horizonte e até ao infinito. O céu é de um azul prussiano perfeito e as nuvens são gordas e cremosas, como se um pasteleiro as tivesse criado à mão. O sol é brando, banhando tudo com uma suave luz branca.
Sei que este não é um jardim comum. Também sei que estou destinada a estar aqui.
Levanto-me e ponho uma mão em pala sobre os olhos para os proteger da luz. Os cortes desapareceram, como se nunca tivessem existido. Curvo-me ligeiramente e puxo para cima a bainha do meu quimono, que é branco como o alabastro e feito da mais delicada seda. Está guarnecido com pérolas minúsculas e bordado com kiku no hana, crisântemos. Puxo-o até à cintura e passo com os dedos ao longo da pele macia do interior da minha coxa. A minha cicatriz também desapareceu.
Baixo a saia e começo a andar, não sei para onde, mas em frente. Caminho por baixo de árvores com ramos pesados com frutos maduros: romãs e maçãs, bananas e limas, ameixas e alperces, cerejas e frutos cujo nome desconheço. Há molhos de flores vermelhas por entre a erva alta, espalhados como fogos de artifício caídos. Curvo-me para apanhar uma rosa em rons de salmão.
O caule não tem espinhos.
Então, ouço qualquer coisa, um soim suave e perfeito. Não hesito e sigo-o. É como uma canção de sereia. Nunca consegui resistir a isso. Nunca o quereria fazer.
Não me pergunto para onde vou porque estou neste lugar, que obviamente não se destina a olhos mortais. Talvez eu esteja morta. Encosto as mãos à barriga magra e continuo a andar. Se estou morta, não posso dizer que me importo. Este lugar é… o paraíso. E nada me dói aqui. Toda a minha vida, carreguei uma dor abafada dentro de mim, tão constante que mal me apercebi.
Mas apercebo-me agora, porque desapareceu.
Ouço o ruído constante de um riacho murmurante algures nas proximidades, por baixo da canção. Começa a soar-me familiar. Dou por mim a caminhar um pouco mais depressa, numa tentativa de o apanhar. Conheço esta canção. De onde? Levanto a bainha da saia para andar mais depressa. Sinto o piso quente sob os meus pés descalços.
Onde é que eu já ouvi esta canção?
Está a ficar mais alta nos meus ouvidos e o som está a tornar-se mais rico, a lavar-me e a purificar-me de todas as dores que já senti. Agora estou a correr. Corro através de um bosque de árvores cujos ramos se juntam para formar uma auréola por cima da minha cabeça. Corro ao lado de um lago límpido com patinhos a salpicar. Corro até estar num prado com delfínios de um tom roxo profundo que me chegam até à cintura e papoilas vermelhas que parecem sorrir para mim. Faço uma pausa, o meu coração palpita no meu peito, os meus olhos vagueiam freneticamente para encontrar a fonte da música. Há uma árvore um pouco mais à frente. Viro o pescoço para ver melhor e percebo que é um pessegueiro.
Então, sei.
É a Ave Maria, de Schubert. É a minha primeira e única canção de embalar.”
Cinquenta palavras para chuva / Asha Lemmie. Lisboa: 20 | 20 Editora, 2021.
domingo, 19 de junho de 2022
Estante de leitura – Bom dia, Tristeza
E o tom de voz era tão convincente, tão meigo, que compreendi que ele poderia sentir-se infeliz. Pela noite dentro falámos do amor, das suas desventuras. Estas, aos olhos do meu pai, eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de gravidade, de compromisso. Explicava-me que eram arbitrárias, estéreis. Vindas de outra pessoa, tais afirmações ter-me-iam chocado. Mas eu sabia que no seu caso estavam presentes a ternura e a dedicação, sentimentos que manuseava tanto mais facilmente quanto os sabia, os queria provisórios. Esta conceção seduzia-me: amores breves, violentos e passageiros. Na minha idade, a fidelidade não cativava. Conhecia pouco do amor: encontros, beijos e desinteresse..” (…)
No dia seguinte de manhã, fui acordada por um raio de sol oblíquo e quente, que veio inundar a cama e pôr fim aos sonhos estranhos e um pouco confusos com que me debatia. Sonolenta, tentei afastar do rosto, com a mão, o calor insistente, mas acabei por desistir. Eram dez horas. Desci ao terraço, em pijama. Sentei-me tranquilamente num degrau da escada, com uma chávena de café e uma laranja e o sumo adocicado esguichava-me para a garganta, bebia um gole de café a escaldar e alternava este gesto com a frescura do fruto. O sol matinal aquecia-me o cabelo, desfazia as marcas que os lençóis me tinham deixado na pele. Já na praia avistei, no fundo do mar, uma linda rocha, cor-de-rosa e azul. Mergulhei, para a retirar, e guardei-a na palma da mão até ao almoço, muito lisa e gasta. Decidi que me daria felicidade, que a não abandonaria durante o Verão. Não sei porque a não perdi, já que perco tudo. Ainda hoje a tenho na mão, rosada e tépida. Sinto vontade de chorar. (…)
– Sim, custa-me muito – respondi [trocar a menina do pinhal pela de uma boa aluna]:
Disse – tão baixinho que eles não ouviram, ou não quiseram ouvir. No dia seguinte de manhã, dei comigo diante de uma frase de Bergson: precisei de alguns minutos para a compreender.: “Mesmo tendo em conta a heterogeneidade que possamos encontrar à partida entre os factos e a causa e embora não haja nenhuma regra de conduta para uma afirmação sobre o fundo das coisas, é sempre num contacto com o princípio gerador da espécie humana que sentimos crescer a força de amar a humanidade.” – Liberdade de pensar, de pensar mal e de pensar pouco, liberdade de escolher a minha própria vida, de me escolher a mim mesma. Não posso dizer “ser eu mesma”, pois mais não era do que uma pasta de moldar, mas apenas recusar os moldes.(…)
Só de madrugada, deitada na cama, ouvindo o ruído dos automóveis de Paris, a memória me trai, por vezes: revejo o Verão e todas as suas recordações. Anne, Anne! Repito esse nome, baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.”
Bom Dia, Tristeza / Françoise Sagan. Lisboa: Casa dos Ceifeiros: 2017
sábado, 4 de junho de 2022
Estante de leitura – Gente Independente
"Um pequeno riacho que nunca seca corre pelo curral abaixo, atrás do relvado, em semicírculo, límpido e frio. No Verão, os raios solares brincam na sua corrente alegre, e a ovelha está deitada mastigando nas margens com uma das patas dianteiras estendida em direção ao relvado. Em momentos como este o céu fica azul. Então, brilhantes raios de sol cintilam no lago dos cisnes e no rio das trutas que corre serenamente pelo prado, e o brejo e o prado emitem uma alegria contínua e silenciosa.
O vale está rodeado por espinhaços e charnecas. No lado ocidental existe um estreito espinhaço, e a quinta que lhe fica mais próxima é Útiraudsmýri ou Mýri, a residência oficial do governador, a quem tem pertencido até agora este vale pantanoso. Mais adiante estendem-se terrenos vastos e povoados. Pela charneca ocidental, onde está talhado um caminho que vai dar à vila situada no fiorde, estima-se que a jornada dum bando de cavalos com carga levará cinco horas. A sul erguem-se do vale charnecas baixas e onduladas que se vão elevando até que as Montanhas Azuis encerram o horizonte, e é como se as montanhas de fundissem com o céu numa elevada iluminação, onde raramente a neve desaparece antes do solstício de Verão. E o que existe para além das Montanhas Azuis? A paisagem desértica do país.
E as brisas primaveris sopram pelo vale.
E quando as brisas primaveris sopram pelo vale, quando o sol da Primavera brilha na relva amarela das margens do rio, e no lago, e nos dos dois cisnes brancos deste lago, e incita a erva a brotar dos solos húmidos, quem havia de acreditar que este sereno vale verdejante englobasse a história das nossas vidas passadas e dos seus espectros? Pessoas andam a cavalo por ambas as margens do rio, onde durante séculos cavalos de tempos passados pisaram caminhos num terreno extenso, e com o sol a brilhar a brisa fresca da Primavera sopra pelo vale adentro. Nestes dias o sol é mais forte que o passado.
A nova geração esquece os fantasmas que possam ter atormentado os antepassados. (…)
Da montanha corria o riacho, que pertencia à quinta, em linha recta para o curral, depois virava para leste num semicírculo pelo monte, para poder seguir o seu percurso até ao prado. Havia duas quedas de água à altura dos joelhos e dois poços com a mesma profundidade. No fundo havia pedregulhos, seixos e areia. O riacho corria em várias curvas. Cada curva tinha um tom específico, mas em nenhuma havia um tom sombrio; era um riacho alegre e amante da música como a juventude, com várias cordas tocava os seus acordes sem se preocupar com audiências, e despreocupado mesmo se ninguém o tivesse ouvido durante cem anos, como o verdadeiro poeta. (…) o homem estava apenas repleto do espírito da modernidade e decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que ali se instalaram antes dele. (…)
Esses homens não tinham espírito de subserviência e não se viam como parte dum grupo. Viviam por sua própria conta, a independência era a sua mais-valia, eram homens de empreendimento individual e citavam as sagas e as rimas caso estivessem a beber aguardente. Eram homens de combate, perseverantes, que não tinham medo de enfrentar quaisquer adversidades físicas, nem mesmo a de passar fome com as suas famílias durante as derradeiras semanas de Inverno. Mas também não eram homens materialistas, desprovidos de espiritualidade, tinham Deus nas suas barrigas; antes sabiam de cor muitos versos livres e alguns exigiam invulgar habilidade para serem recitados, uns e outros até conseguiam improvisar quadras que falavam dos vizinhos, ou das dificuldades pessoais, ou dos perigos da vida, da natureza, ou da esperança de que melhores dias viriam no céu, e, sim, até sobre o amor. Bjartur fazia parte desses poetas."
Halldór Laxness. (2013). Gente Independente. Lisboa: Cavalo de Ferro.
sábado, 28 de maio de 2022
Estante de leitura – Uma semana nos rios Concord e Merrimack
“«Há uma voz interior, que no rio
Diz o que lhe vai na alma ao ouvido atento,
E corre com uma disposição tranquila,
Com o a sabedoria, acolhida pelo seu próprio respeito.
No seu seio repousa límpidos todos estes belos pensamentos,
Recebe as árvores verdes e airosas,
E as rochas cinzentas sorriem nos seus braços pacíficos.»
E o poema continuava, mas num tom demasiado sério para este livro. Para cada carvalho, e mesmo para cada bétula que se eleva no cume da colina, bem como para estes ulmeiros e salgueiros, sabíamos que existia uma árvores ideal, etérea e airosa, que cresce para baixo, e por vezes a natureza, quando a maré sobe, coloca o seu espelho a seus pés e torna-a visível. O silêncio era profundo e quase intencional, como se fosse um domingo natural, e gostávamos de imaginar que a manhã era o entardecer de um dia celestial. O ar era tão elástico e cristalino que tinha o mesmo efeito sobre a paisagem do que uma lente numa imagem: dar-lhe uma distância e uma perfeição ideais. a paisagem estava banhada numa luz suave e pacífica, em que os bosques e as vedações a reconfiguravam e a dividiam dando-lhe uma nova regularidade, e os campos acidentados estendiam-se a perder de vista com o aspeto liso de um relvado, enquanto as nuvens, pitorescas e recortadas com nitidez, pareciam um cortinado suspenso sobre um país encantado. Era como se o mundo estivesse enfeitado para qualquer festividade ou cerimónia, com fitas de seda a esvoaçar ao vento, e o trajeto das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho verdejante num labirinto rural, na estação em que as árvores de fruto estão em flor.
Por que razão a nossa vida e o cenário em que se desenrola não hão - de ser tão belos e nítidos? (…)
Embora as sombras das colinas começassem a invadir o rio, todo o vale ondulava com uma luz suave, mais pura e mais memorável do que ao meio-dia. Com efeito, é assim que o dia se despede mesmo nos vales isolados e desabitados. Duas garças-azuis-grandes, com as suas patas longas e esguias realçadas contra o céu, passaram alto sobre as nossas cabeças – o seu voo imponente e silencioso, ao crepúsculo, não parecia destinado a levá-las a pousar em qualquer pântano à superfície da Terra, mas, porventura, no outro lado da atmosfera, um símbolo para as gerações estudarem, quer esteja impresso no céu ou gravado entre os hieróglifos do Egito. Determinadas a atingir um prado a norte, mantinham o seu voo regular e majestoso, como as cegonhas nas ilustrações, até desaparecerem por trás das nuvens. Densos bandos de melros seguiam ao longo do curso do rio, como que numa curta peregrinação de final do dia a um dos seus santuários ou para celebrar aquele magnífico pôr-do-sol. Este supunha que todos os homens não tinham nada que fazer e eram de temperamento contemplativo.”
Uma semana nos rios Concord e Merrimack / Henry David Thoreau. Lisboa: Antígona, 2018.
terça-feira, 24 de maio de 2022
Estante de leitura – Sputnik, meu amor
Amanhã meto-me no avião e regresso a Tóquio. As férias de Verão estão quase a acabar e voltarei a calcorrear os intermináveis caminhos do costume. É lá o meu lugar, é lá que estão o meu apartamento, a minha mesa de trabalho, a minha sala de aula, os meus alunos. Esperam-me dias tranquilos, romances por ler. Uma ou outra ligação esporádica.
Uma coisa é certa: não voltarei a ser o mesmo. A partir de amanhã, serei outra pessoa. Os que me rodeiam não se darão conta de que voltei ao Japão completamente diferente. Por fora, nada terá mudado, mas algo dentro de mim ficou reduzido a cinzas e deixou de existir. Houve sangue derramado e, dentro de mim, algo morreu. Desapareceu de vez, de cabeça baixa, sem uma palavra. Há uma porta que se abre e uma que se fecha. Apaga-se a luz. Para mim, tal como sou agora, hoje é o último dia. Este é o meu último entardecer. Quando o novo dia nascer, eu, tal, como sou agora, já não estarei aqui. Outra pessoa diferente habitará o meu corpo.
Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?.
Virei-me de costas sobre a laje de pedra, fitei o céu por cima de mim e pus-me a pensar na quantidade imensa de satélites que naquele preciso momento deviam girar à volta da Terra. No fio do horizonte era ainda possível distinguir uma réstia de luz, e as estrelas começavam a brilhar no céu de um profundo tom púrpura. Procurei com o olhar a luz de um satélite, mas havia demasiada claridade para distinguir fosse o que fosse a olho nu. As estrelas que estavam à vista permaneciam imóveis, cada uma no seu sítio, como se cravadas no céu. Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sptunik que continuavam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa. (…)
Fechei os olhos e esforcei-me por me lembrar do maior número possível de coisas belas que tinham desaparecido da minha vida. Esforcei-me por chamá-las a mim, retê-las entre as mãos, mesmo sabendo que a sua existência seria efémera. Sonho. Às vezes penso que é a única coisa que vale a pena. Sonhar, viver no mundo dos sonhos. Mas nunca dura muito tempo, a vigília acaba sempre por me trazer de novo a realidade. (…)
Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons bolorentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar para a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim.”
Sputnik, meu amor / Haruki Murakami. Lisboa: Cada das Letras, 2005.
sábado, 14 de maio de 2022
Estante de leitura – Alexis ou Tratado do vão Combate
“Toda a felicidade é inocência. Ainda que vos escandalize, é preciso repetir essa palavra que parece sempre miserável, pois nada prova melhor a nossa miséria do que a importância da felicidade. Durante algumas semanas, vivi de olhos fechados. Não abandonara a música; sentia pelo contrário uma grande facilidade em mover-me nela; conheceis essa leveza que experimentamos no fundo dos sonhos. Parecia que os minutos matinais me libertavam do meu corpo para o resto do dia. As minhas impressões de então, por muito diversas que fossem, são uma só na minha memória: dir-se-ia que a minha sensibilidade, porque não se cingia apenas a mim, se dilatava pelas coisas. A emoção da manhã prolongava-se nas frases musicais da tarde; – certo cambiante das estações, certo perfume, alguma antiga melodia de que então me enamorei passaram a ser para mim eternas tentadoras, porque me falam de um outro.
Aquilo que porventura torna a volúpia numa coisa tão terrível é ela ensinar-nos que temos um corpo. Até então, ele servia-nos a penas para viver. agora, sentimos que esse corpo tem a sua existência particular, os seus sonhos, a sua vontade, e que, até à nossa morte, teremos de o ter em conta, ceder, transigir ou lutar. Sentimos (julgamos sentir) que a nossa alma é tão-só o seu melhor sonho. Aconteceu-me, sozinho, frente a um espelho que desdobrava a minha angústia, perguntar-me o que teria de comum com o meu corpo, com os seus prazeres ou os seus males, como se eu não lhe pertencesse. Mas pertenço-lhe, minha amiga. Este corpo, que parece tão frágil, é todavia mais durável que as minhas virtuosas resoluções, talvez até que a minha alma, pois quantas vezes não morre a alma antes dele. Esta frase, Monique choca-vos por certo mais que toda a minha confissão: acreditais na alma imortal. Perdoai-me por ser menos seguro que vós ou menos orgulhoso; muitas vezes, a alma apenas me parece uma simples respiração do corpo.
E foi nesse momento que as minhas mãos ne apareceram. As minhas mãos repousavam nas teclas e era como se tivesse debaixo dos olhos a minha alma viva duas vezes. As minhas mãos pareceram-me de repente extraordinariamente sensitivas; mesmo imóveis, pareciam aflorar o silêncio como para o incitar a revelar-se em acordes. Repousavam, ainda um pouco trémulas do ritmo, e havia nelas todos os gestos futuros, como todos os sons possíveis dormiam naquele teclado. Havia atado em volta dos corpos a alegria breve dos abraços; haviam palpado, nos teclados sonoros, a forma das notas invisíveis; haviam, nas trevas, encerrado numa carícia o contorno dos corpos adormecidos. Muitas vezes as mantivera erguidas, num gesto de oração; muitas vezes as unira às vossas, mas nada disso se lembravam. Eram mãos anónimas, as mãos de um músico. Eram o meu intermediário, pela música, com esse infinito que somos tentados a chamar Deus, e, pelas carícias, o meu meio de contacto com a vida dos outros. Eram mãos apagadas, tão pálidas como o marfim em que se apoiavam, porque as tinha privado de sol, de trabalho e de alegria. E no entanto, eram servas bem fiéis; haviam-me alimentado, quando a música era o meu ganha-pão; e começava a compreender que há uma certa beleza em viver-se da sua arte; porquanto isso nos liberta de tudo o que não seja ela.
Na da iguala a doçura de uma derrota que sabemos definitiva: em Viena, durante esses últimos dias soalheiros de Outono, conheci o fascínio de reencontrar o meu corpo. O meu corpo que me cura de ter uma alma. Não soube, ou não ousei dizer-vos a adoração ardente que a beleza e o mistério dos corpos me faz sentir, nem como cada um deles, quando se oferece, parece trazer-me um fragmento da juventude humana. Minha amiga, viver é difícil. Já construí teorias morais de sobra para construir mais ainda, e contraditórias: sou demasiado sensato para acreditar que a felicidade apenas se encontra à beira de um erro, e o vício, tal como a virtude, não pode dar a alegria aos que a não têm em si mesmos. Simplesmente, ainda prefiro o erro (se de erro se trata) a uma denegação de nós próprios tão próxima da demência. A vida fez de mim aquilo que eu sou (se quisermos) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e este consentimento, assim o espero, sem me trazer felicidade, há - de proporcionar-me a serenidade. Minha amiga, sempre vos julguei capaz de tudo compreender, o que é bem mais raro do que perdoar tudo.
Tendo sido incapaz de viver segundo a moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha: é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo….. (…)
Alexis ou o Tratado do vão combate / Marquerite Yourcenar, Lisboa: Difel; 1988.















