sábado, 28 de maio de 2022

Estante de leitura – Uma semana nos rios Concord e Merrimack

“«Há uma voz interior, que no rio
Diz o que lhe vai na alma ao ouvido atento,
E corre com uma disposição tranquila,
Com o a sabedoria, acolhida pelo seu próprio respeito.
No seu seio repousa límpidos todos estes belos pensamentos,
Recebe as árvores verdes e airosas,
E as rochas cinzentas sorriem nos seus braços pacíficos.»

E o poema continuava, mas num tom demasiado sério para este livro. Para cada carvalho, e mesmo para cada bétula que se eleva no cume da colina, bem como para estes ulmeiros e salgueiros, sabíamos que existia uma árvores ideal, etérea e airosa, que cresce para baixo, e por vezes a natureza, quando a maré sobe, coloca o seu espelho a seus pés e torna-a visível. O silêncio era profundo e quase intencional, como se fosse um domingo natural, e gostávamos de imaginar que a manhã era o entardecer de um dia celestial. O ar era tão elástico e cristalino que tinha o mesmo efeito sobre a paisagem do que uma lente numa imagem: dar-lhe uma distância e uma perfeição ideais. a paisagem estava banhada numa luz suave e pacífica, em que os bosques e as vedações a reconfiguravam e a dividiam dando-lhe uma nova regularidade, e os campos acidentados estendiam-se a perder de vista com o aspeto liso de um relvado, enquanto as nuvens, pitorescas e recortadas com nitidez, pareciam um cortinado suspenso sobre um país encantado. Era como se o mundo estivesse enfeitado para qualquer festividade ou cerimónia, com fitas de seda a esvoaçar ao vento, e o trajeto das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho verdejante num labirinto rural, na estação em que as árvores de fruto estão em flor.
Por que razão a nossa vida e o cenário em que se desenrola não hão - de ser tão belos e nítidos? (…)
Embora as sombras das colinas começassem a invadir o rio, todo o vale ondulava com uma luz suave, mais pura e mais memorável do que ao meio-dia. Com efeito, é assim que o dia se despede mesmo nos vales isolados e desabitados. Duas garças-azuis-grandes, com as suas patas longas e esguias realçadas contra o céu, passaram alto sobre as nossas cabeças – o seu voo imponente e silencioso, ao crepúsculo, não parecia destinado a levá-las a pousar em qualquer pântano à superfície da Terra, mas, porventura, no outro lado da atmosfera, um símbolo para as gerações estudarem, quer esteja impresso no céu ou gravado entre os hieróglifos do Egito. Determinadas a atingir um prado a norte, mantinham o seu voo regular e majestoso, como as cegonhas nas ilustrações, até desaparecerem por trás das nuvens. Densos bandos de melros seguiam ao longo do curso do rio, como que numa curta peregrinação de final do dia a um dos seus santuários ou para celebrar aquele magnífico pôr-do-sol. Este supunha que todos os homens não tinham nada que fazer e eram de temperamento contemplativo.”

Uma semana nos rios Concord e Merrimack / Henry David Thoreau. Lisboa: Antígona, 2018. 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Estante de leitura – Sputnik, meu amor

“Cada um de nós possui qualquer coisa de especial, que se revela numa determinada altura da nossa vida, e só uma vez, como uma pequenina chama. As pessoas precavidas, abençoadas pela fortuna, conservam religiosamente essa chama, fazem-na crescer, usam-na como uma tocha que ilumina as suas vidas. Mas uma vez apagada, ela não voltará nunca mais a acender-se. Eu não me limitara a perder Sumire. Juntamente com ela, perdera também essa preciosa chama.

Amanhã meto-me no avião e regresso a Tóquio. As férias de Verão estão quase a acabar e voltarei a calcorrear os intermináveis caminhos do costume. É lá o meu lugar, é lá que estão o meu apartamento, a minha mesa de trabalho, a minha sala de aula, os meus alunos. Esperam-me dias tranquilos, romances por ler. Uma ou outra ligação esporádica.
Uma coisa é certa: não voltarei a ser o mesmo. A partir de amanhã, serei outra pessoa. Os que me rodeiam não se darão conta de que voltei ao Japão completamente diferente. Por fora, nada terá mudado, mas algo dentro de mim ficou reduzido a cinzas e deixou de existir. Houve sangue derramado e, dentro de mim, algo morreu. Desapareceu de vez, de cabeça baixa, sem uma palavra. Há uma porta que se abre e uma que se fecha. Apaga-se a luz. Para mim, tal como sou agora, hoje é o último dia. Este é o meu último entardecer. Quando o novo dia nascer, eu, tal, como sou agora, já não estarei aqui. Outra pessoa diferente habitará o meu corpo.
Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?.
Virei-me de costas sobre a laje de pedra, fitei o céu por cima de mim e pus-me a pensar na quantidade imensa de satélites que naquele preciso momento deviam girar à volta da Terra. No fio do horizonte era ainda possível distinguir uma réstia de luz, e as estrelas começavam a brilhar no céu de um profundo tom púrpura. Procurei com o olhar a luz de um satélite, mas havia demasiada claridade para distinguir fosse o que fosse a olho nu. As estrelas que estavam à vista permaneciam imóveis, cada uma no seu sítio, como se cravadas no céu. Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sptunik que continuavam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa. (…)
Fechei os olhos e esforcei-me por me lembrar do maior número possível de coisas belas que tinham desaparecido da minha vida. Esforcei-me por chamá-las a mim, retê-las entre as mãos, mesmo sabendo que a sua existência seria efémera. Sonho. Às vezes penso que é a única coisa que vale a pena. Sonhar, viver no mundo dos sonhos. Mas nunca dura muito tempo, a vigília acaba sempre por me trazer de novo a realidade. (…)
Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons bolorentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar para a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim.”

Sputnik, meu amor / Haruki Murakami. Lisboa: Cada das Letras, 2005.

sábado, 14 de maio de 2022

Estante de leitura – Alexis ou Tratado do vão Combate

“Toda a felicidade é inocência. Ainda que vos escandalize, é preciso repetir essa palavra que parece sempre miserável, pois nada prova melhor a nossa miséria do que a importância da felicidade. Durante algumas semanas, vivi de olhos fechados. Não abandonara a música; sentia pelo contrário uma grande facilidade em mover-me nela; conheceis essa leveza que experimentamos no fundo dos sonhos. Parecia que os minutos matinais me libertavam do meu corpo para o resto do dia. As minhas impressões de então, por muito diversas que fossem, são uma só na minha memória: dir-se-ia que a minha sensibilidade, porque não se cingia apenas a mim, se dilatava pelas coisas. A emoção da manhã prolongava-se nas frases musicais da tarde; – certo cambiante das estações, certo perfume, alguma antiga melodia de que então me enamorei passaram a ser para mim eternas tentadoras, porque me falam de um outro.

Aquilo que porventura torna a volúpia numa coisa tão terrível é ela ensinar-nos que temos um corpo. Até então, ele servia-nos a penas para viver. agora, sentimos que esse corpo tem a sua existência particular, os seus sonhos, a sua vontade, e que, até à nossa morte, teremos de o ter em conta, ceder, transigir ou lutar. Sentimos (julgamos sentir) que a nossa alma é tão-só o seu melhor sonho. Aconteceu-me, sozinho, frente a um espelho que desdobrava a minha angústia, perguntar-me o que teria de comum com o meu corpo, com os seus prazeres ou os seus males, como se eu não lhe pertencesse. Mas pertenço-lhe, minha amiga. Este corpo, que parece tão frágil, é todavia mais durável que as minhas virtuosas resoluções, talvez até que a minha alma, pois quantas vezes não morre a alma antes dele. Esta frase, Monique choca-vos por certo mais que toda a minha confissão: acreditais na alma imortal. Perdoai-me por ser menos seguro que vós ou menos orgulhoso; muitas vezes, a alma apenas me parece uma simples respiração do corpo.

E foi nesse momento que as minhas mãos ne apareceram. As minhas mãos repousavam nas teclas e era como se tivesse debaixo dos olhos a minha alma viva duas vezes. As minhas mãos pareceram-me de repente extraordinariamente sensitivas; mesmo imóveis, pareciam aflorar o silêncio como para o incitar a revelar-se em acordes. Repousavam, ainda um pouco trémulas do ritmo, e havia nelas todos os gestos futuros, como todos os sons possíveis dormiam naquele teclado. Havia atado em volta dos corpos a alegria breve dos abraços; haviam palpado, nos teclados sonoros, a forma das notas invisíveis; haviam, nas trevas, encerrado numa carícia o contorno dos corpos adormecidos. Muitas vezes as mantivera erguidas, num gesto de oração; muitas vezes as unira às vossas, mas nada disso se lembravam. Eram mãos anónimas, as mãos de um músico. Eram o meu intermediário, pela música, com esse infinito que somos tentados a chamar Deus, e, pelas carícias, o meu meio de contacto com a vida dos outros. Eram mãos apagadas, tão pálidas como o marfim em que se apoiavam, porque as tinha privado de sol, de trabalho e de alegria. E no entanto, eram servas bem fiéis; haviam-me alimentado, quando a música era o meu ganha-pão; e começava a compreender que há uma certa beleza em viver-se da sua arte; porquanto isso nos liberta de tudo o que não seja ela.

Na da iguala a doçura de uma derrota que sabemos definitiva: em Viena, durante esses últimos dias soalheiros de Outono, conheci o fascínio de reencontrar o meu corpo. O meu corpo que me cura de ter uma alma. Não soube, ou não ousei dizer-vos a adoração ardente que a beleza e o mistério dos corpos me faz sentir, nem como cada um deles, quando se oferece, parece trazer-me um fragmento da juventude humana. Minha amiga, viver é difícil. Já construí teorias morais de sobra para construir mais ainda, e contraditórias: sou demasiado sensato para acreditar que a felicidade apenas se encontra à beira de um erro, e o vício, tal como a virtude, não pode dar a alegria aos que a não têm em si mesmos. Simplesmente, ainda prefiro o erro (se de erro se trata) a uma denegação de nós próprios tão próxima da demência. A vida fez de mim aquilo que eu sou (se quisermos) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e este consentimento, assim o espero, sem me trazer felicidade, há - de proporcionar-me a serenidade. Minha amiga, sempre vos julguei capaz de tudo compreender, o que é bem mais raro do que perdoar tudo.
Tendo sido incapaz de viver segundo a moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha: é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo….. (…)

Alexis ou o Tratado do vão combate / Marquerite Yourcenar, Lisboa: Difel; 1988.