domingo, 19 de junho de 2022

Estante de leitura – Bom dia, Tristeza

«A este sentimento desconhecido, cujo tédio, cuja brandura me obsidiam, hesito em aplicar o nome, o belo e o grave nome de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta, que quase me envergonha, quando a tristeza sempre me pareceu honrosa. A ela, não conhecia, experimentava apenas o tédio, o arrependimento, mais raramente o remorso. Hoje, algo me envolve como seda, irritante e suave, isolando-me dos outros. (…)

E o tom de voz era tão convincente, tão meigo, que compreendi que ele poderia sentir-se infeliz. Pela noite dentro falámos do amor, das suas desventuras. Estas, aos olhos do meu pai, eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de gravidade, de compromisso. Explicava-me que eram arbitrárias, estéreis. Vindas de outra pessoa, tais afirmações ter-me-iam chocado. Mas eu sabia que no seu caso estavam presentes a ternura e a dedicação, sentimentos que manuseava tanto mais facilmente quanto os sabia, os queria provisórios. Esta conceção seduzia-me: amores breves, violentos e passageiros. Na minha idade, a fidelidade não cativava. Conhecia pouco do amor: encontros, beijos e desinteresse..” (…)
No dia seguinte de manhã, fui acordada por um raio de sol oblíquo e quente, que veio inundar a cama e pôr fim aos sonhos estranhos e um pouco confusos com que me debatia. Sonolenta, tentei afastar do rosto, com a mão, o calor insistente, mas acabei por desistir. Eram dez horas. Desci ao terraço, em pijama. Sentei-me tranquilamente num degrau da escada, com uma chávena de café e uma laranja e o sumo adocicado esguichava-me para a garganta, bebia um gole de café a escaldar e alternava este gesto com a frescura do fruto. O sol matinal aquecia-me o cabelo, desfazia as marcas que os lençóis me tinham deixado na pele. Já na praia avistei, no fundo do mar, uma linda rocha, cor-de-rosa e azul. Mergulhei, para a retirar, e guardei-a na palma da mão até ao almoço, muito lisa e gasta. Decidi que me daria felicidade, que a não abandonaria durante o Verão. Não sei porque a não perdi, já que perco tudo. Ainda hoje a tenho na mão, rosada e tépida. Sinto vontade de chorar. (…)
– Sim, custa-me muito – respondi [trocar a menina do pinhal pela de uma boa aluna]:
Disse – tão baixinho que eles não ouviram, ou não quiseram ouvir. No dia seguinte de manhã, dei comigo diante de uma frase de Bergson: precisei de alguns minutos para a compreender.: “Mesmo tendo em conta a heterogeneidade que possamos encontrar à partida entre os factos e a causa e embora não haja nenhuma regra de conduta para uma afirmação sobre o fundo das coisas, é sempre num contacto com o princípio gerador da espécie humana que sentimos crescer a força de amar a humanidade.” – Liberdade de pensar, de pensar mal e de pensar pouco, liberdade de escolher a minha própria vida, de me escolher a mim mesma. Não posso dizer “ser eu mesma”, pois mais não era do que uma pasta de moldar, mas apenas recusar os moldes.(…)
Só de madrugada, deitada na cama, ouvindo o ruído dos automóveis de Paris, a memória me trai, por vezes: revejo o Verão e todas as suas recordações. Anne, Anne! Repito esse nome, baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.”

Bom Dia, Tristeza / Françoise Sagan. Lisboa: Casa dos Ceifeiros: 2017

sábado, 4 de junho de 2022

Estante de leitura – Gente Independente

"Um pequeno riacho que nunca seca corre pelo curral abaixo, atrás do relvado, em semicírculo, límpido e frio. No Verão, os raios solares brincam na sua corrente alegre, e a ovelha está deitada mastigando nas margens com uma das patas dianteiras estendida em direção ao relvado. Em  momentos como este o céu fica azul. Então, brilhantes raios de sol cintilam no lago dos cisnes e no rio das trutas que corre serenamente pelo prado, e o brejo e o prado emitem uma alegria contínua e silenciosa.
O vale está rodeado por espinhaços e charnecas. No lado ocidental existe um estreito espinhaço, e a quinta que lhe fica mais próxima é Útiraudsmýri ou Mýri, a residência oficial do governador, a quem tem pertencido até agora este vale pantanoso. Mais adiante estendem-se terrenos vastos e povoados. Pela charneca ocidental, onde está talhado um caminho que vai dar à vila situada no fiorde, estima-se que a jornada dum bando de cavalos com carga levará cinco horas. A sul erguem-se do vale charnecas baixas e onduladas que se vão elevando até que as Montanhas Azuis encerram o horizonte, e é como se as montanhas de fundissem com o céu numa elevada iluminação, onde raramente a neve desaparece antes do solstício de Verão. E o que existe para além das Montanhas Azuis? A paisagem desértica do país.
E as brisas primaveris sopram pelo vale.
E quando as brisas primaveris sopram pelo vale, quando o sol da Primavera brilha na relva amarela das margens do rio, e no lago, e nos dos dois cisnes brancos deste lago, e incita a erva a brotar dos solos húmidos, quem havia de acreditar que este sereno vale verdejante englobasse a história das nossas vidas passadas e dos seus espectros? Pessoas andam a cavalo por ambas as margens do rio, onde durante séculos cavalos de tempos passados pisaram caminhos num terreno extenso, e com o sol a brilhar a brisa fresca da Primavera sopra pelo vale adentro. Nestes dias o sol é mais forte que o passado.
A nova geração esquece os fantasmas que possam ter atormentado os antepassados. (…)
Da montanha corria o riacho, que pertencia à quinta, em linha recta para o curral, depois virava para leste num semicírculo pelo monte, para poder seguir o seu percurso até ao prado. Havia duas quedas de água à altura dos joelhos e dois poços com a mesma profundidade. No fundo havia pedregulhos, seixos e areia. O riacho corria em várias curvas. Cada curva tinha um tom específico, mas em nenhuma havia um tom sombrio; era um riacho alegre e amante da música como a juventude, com várias cordas tocava os seus acordes sem se preocupar com audiências, e despreocupado mesmo se ninguém o tivesse ouvido durante cem anos, como o verdadeiro poeta. (…) o homem estava apenas repleto do espírito da modernidade e decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que ali se instalaram antes dele. (…)
Esses homens não tinham espírito de subserviência e não se viam como parte dum grupo. Viviam por sua própria conta, a independência era a sua mais-valia, eram homens de empreendimento individual e citavam as sagas e as rimas caso estivessem a beber aguardente. Eram homens de combate, perseverantes, que não tinham medo de enfrentar quaisquer adversidades físicas, nem mesmo a de passar fome com as suas famílias durante as derradeiras semanas de Inverno. Mas também não eram homens materialistas, desprovidos de espiritualidade, tinham Deus nas suas barrigas; antes sabiam de cor muitos versos livres e alguns exigiam invulgar habilidade para serem recitados, uns e outros até conseguiam improvisar quadras que falavam dos vizinhos, ou das dificuldades pessoais, ou dos perigos da vida, da natureza, ou da esperança de que melhores dias viriam no céu, e, sim, até sobre o amor. Bjartur fazia parte desses poetas."

                                  Halldór Laxness. (2013). Gente Independente. Lisboa: Cavalo de Ferro.