A vida oculta, que aí se tinha fértil, guardada pela sombra do muxito – húmida e quente, a fermentar verduras – abandonou o trato, se movente, ou murcha se fenece, sem abrigo, se vegetal e tenra.
Vista de longe, inserida na encosta para além do vale, prolonga outras clareiras mais antigas e apenas se distingue, sendo nova, pela cor de folhas mortas no chão que era da mata, e pelos sinais de cinza que o fogo largou. O muxito que a cerca, acometido há pouco pela catana, destaca ainda troncos paralelos, verticais, sem trepadeiras tenras que os confundam ou arbustiva flora onde se implantem.
Vista de perto, se a mão pode alcançar o pormenor das pedras, e das fibras, deixa de haver clareira, há só a terra e o microcosmos que a produz fecunda: o grão de areia a rebrilhar na argila, a massa apodrecida da raiz castanha, a malha fina e densa da cabeleira que uma planta esconde na escuridão do húmus, o verme informe que segrega sais, a galeria das térmitas cimentada e múltipla.
O que antes era equilíbrio de silêncios, a folha morta sobre a folha podre, afolha podre sobre o chão castanho, o chão castanho sobre a terra crua, (a folha morta a decompor-se em podre, a podridão a misturar-se aos sais, a solução – a seiva – progredindo aos ramos e os ramos a explodirem tenras ramas) jaz desventrado agora, exposto ao sol e ao vento, ao fumo, aos pés e aos olhos.
De chuva se carece, para refazer a vida e dominar o tempo e o movimento. Virá de madrugada, na noite escura de uma lua avulsa, sem ventos que a precedam ou mais sinais que a digam certa e exata.
A primeira manhã de uma primeira chuva: as encostas de pronto povoadas por femininos corpos; o som e a imagem limpos, tudo tão perto, o canto e o gesto; o fumo e a neblina, anterior e esparsa, que confundia as serras e as distâncias, agora floculada em brancas nuvens, baixas e rentes, a emergir dos vales, por detrás dos morros.
O mundo é claro. Dir-se-á varrido. Varrido da poalha que encurtava a vista e abafava o som. Por isso o campo agora é desenhado e nítido, e onde havia só a dimensão e a cor de uma esbatida massa de cinzentos, surge o recorte, firme, dos vegetais distintos – o plano sobre o plano, a folha sobre a folha – e a construção real das pedras altas – a pedra sobre a pedra, a fenda entre uma e outra, o seu volume.
De súbito se impõe a geografia exacta deste mundo, rigorosa e clara, e dói sabê-la assim tão rica de caminhos, de um momento para o outro aberta ao movimento e aos sinais: a escura habitação, o seu contorno; a goiabeira e as muitas outras plantas que dão fruto; e os animais, varando o espaço aberto, cientes da fartura que os aguarda.
Com a chuva se inaugura o tempo do concreto. O que era mato, ontem, hoje é matos. E cada um se apresta para dar-se à vida. Debruçam-se as mulheres nas lavras de sustento; os homens gratificam cafezais."
Ruy Duarte de Carvalho. (1999). Vou lá visitar pastores. Lisboa: Cotovia.
