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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Os Livros

"O livro é um dos objetos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores.

 


segunda-feira, 3 de junho de 2019

O prazer da leitura (II)

A leitura cria em si múltiplas imagens, as do leitor em si, mas também aquilo que as obras de arte permitem desvendar  no nosso olhar. E, neste caso os objectos que aproximam a leitura dos espaços de intimidade, onde ela decorreu em diferentes momentos do passado podem também criar um conjunto de imagens, de ideias sobre a sociedade que viu nascer essas formas de expressão. O século XVIII foi em  muitos aspectos uma forma de explorar novas atmosferas, descobrir outras linhas para habitar o quotidiano.

Pierre-Antoine Baudoin pintou no século XVIII um quadro que nos conduz novamente ao prazer da leitura, embora aqui com dimensões novas. A marquesa de Pompadour figura conhecida da aristocracia e da realeza francesa de Setecentos tinha em Pierre-Antoine Baudoin o seu pintor preferido e a abordagem que ele faz neste quadro de 1760 é diferente do conhecido feito por François Boucher, onde a leitura aparece numa pose mais ocupacional do tempo. 

Aqui, no retrato de Pierre-Antoine Baudoin, a marquesa de Pompadour está numa atitude descontraída, habitada por um abandono, como quem descansa no seu quarto e onde se notam diversos objectos de um quotidiano, o biombo e o dossel da cama. Aqui ao contrário do quadro de François Boucher tudo se define numa ideia de letargia, a apontar a um sonho, permitida pela leitura. O livro escorrega-lhe da mão e cai acompanhando os outros objectos de uma intimidade feminina, o cão e o alaúde, assim como outros livros aparecem junto a uma mesa, onde ela descai a sua mão. 

A marquesa de Pompadour tem neste quadro uma representação de alguma letargia, a invocar uma intimidade que pode partir da leitura para chegar a outros domínios. O aberura do seu corpete revela uma intimidade de instante de quem prolonga o dia no seu quarto. O quadro revela-nos, como o salientou Rousseau uma ideia de uma viagem rápida entre o livro e o seu sonho que se define no globo e nos mapas numa das mesas do quarto. Na verdade, não sabemos se a atitude de letargia é um abandono ao próprio corpo, a uma prazer sensorial ou a uma espera de uma amante distante. 

A leitura enquadrada assim é sem dúvida uma construção de uma imagem de prazer, mas este pode ser mais alguma coisa, pode indicar que aquela é uma libertação capaz de construir ambientes frívolos, desgovernados de uma razão, de uma moral. No fundo o prazer da leitura poderá ser aqui a construção da ideia que o século XVIII assistiu por diferentes autores, da corrupção dos valores morais. Apesar das possibilidades desta interpretação, o que Pierre-Antoine Baudouin nos concede é algo mais elevado.

Diderot falou deles. Dessa clientela que sob o pano de uma moralidade de costumes eram apenas "abades insignificantes, jovens advogados de mente frívola, magnatas corpulentos e outras pessoas de mau gosto". No fundo todos os que observam e criticam esta abordagem frívola de uma mulher a ler o que pretendem é chegar a esses pensamentos sensuais que a sua figura profisisonal não aconselha. A hipocrisia de um mundo burguês expressa-se aqui de uma forma brilhante. A leitura emergiu no século XVIII como uma construção de atmosferas de intimidade, de um erotismo a caminhar para as possibilidades de um novo mundo, ainda que individual.

Imagem: Copyright – Pierre-Antoine Baudouin, A leitora, c. 1760, Museu das Artes Decorativas, Paris.
Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O prazer da leitura (I)

 A leitura será sempre uma viagem a transportar-nos entre nós e o mundo, entre nós e amplos mundos. Viagem feita de conhecimento, de descoberta e prazer. Viagem a sobrepor-se ao espaço físico, ao tempo emerso no real de cada um.  A leitura é tudo isto, mas aquilo que a tornou de um certo modo mais pertinente a alguns leitores, foi o prazer que ela podia albergar, que esse podia ser o seu móbil mais decisivo.

Foi o século dos iluministas que encontrou essa possibilidade. Esse prazer relacionou-se com aquilo que a sociedade burguesa haveria de designar os prazeres da vida privada. Essa ideia que também foi designada no título de um quadro do século XVIII, justamente de Jean-Siménon Chardin apelava mais ao espaço de lazer, de fruição no quotidiano, do que do prazer. Falemos dele.

O quadro de Chardin falava sobretudo de uma forma de disfrutar lazer, como tempo do quotidiano. O quadro mostra-nos uma mulher sentada de um modo muito confortável numa grande poltrona e que segura no seu colo um livro. Ao fundo do quadro encontramos objectos diversos, uma mesa com roda de fiar, uma terrina e um espelho e um armário com a porta entreaberta. Os elementos do quadro dão-nos então os sinais de uma vida privada, não necessariamente de um prazer no quotidiano. As cores da mulher são muito mais vivas que o do resto do espaço habitado. A cor terá aqui a função de separar as ideias de prazer e lazer?

No quadro o livro aparece-nos a dizer que este momento é apenas um entre outros dedicado a outras tarefas. Não existem testemunhas que interrompam o momento, ou que solicitem algo, que habitem o espaço. Ela também não está a ler, parece apenas meditar em algo lido. Não existe um ponto de referência para essa leitura, ela parece vaguear em algo que nós não conhecemos e o seu olhar talvez seja só o efeito dessa leitura, o momento em que ela cria uma imagem do mundo, a sua. E é isso que faz um grande leitor, o momento para a criação das imagens que a leitura permitiu realizar.

Imagem: Copyright – Jean-Siménon Chardin, Os prazers da vida privada, 1746, Museu Nacional de Belas-Artes da Suécia, Estocolmo.
Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Leitura e sociedade...

Leitura e sociabilidade podem-nos dizer que por aquela se construíram a construção de uma personalidade. A educação do indivíduo, forma de elaboração de uma individualidade capaz de assegurar uma comunidade participada fez-se em determinados tempos por essa dupla construção, a de uma personalidade e de uma liberdade. A arte tentou dar-lhe um sinal na leitura do feminino com a reprodução de corpos desnudados no melhor dos sentidos.

Justamente alguém capaz de se oferecer à leitura, integralmente, absorvendo as palavras, conduzindo-se por imagens a reconstruir em si, alimentando um coração, uma vida. E encontrar no autor essa criação que o leitor assume em múltiplas perspectivas para si criando essa fusão no espírito das ideias e nas faculdades do próprio leitor. Leitura feita como um amor a preservar para algo maior em que se fundamenta a vida e que importa continuar a construir, em abnegação e em virtude. Deste jogo do espírito feito pelos livros nasce, ou pode nascer uma coragem dada por uma confiança do que se apreendeu. 

E, mais do que a vida é nos livros que se persiste a aprender e a encontrar possíveis. Há quadros na arte que nos dão essa procura e esse encontro, como se o mundo dependesse na sua verdade e inteligibilidade desse momento de leitura. O quadro é de Harald Metzkes e o que é extraordinário nele é a forma como o corpo de uma mulher se debruça sobre a leitura. Ela está sentada a uma janela, de onde se observa um fundo de paisagem natural sem identificação de pessoas. Ela está junto à janela numa atitude de apreensão do que lê. O dia parece estar a clarear, mas a leitura parece conduzir toda a sua acção. 

O quadro revela-nos essa postura de dar às palavras a possibilidade de um conhecimento e de uma fuga, mas também concede algo de revolucionário. Justamente a crença de que nas palavras pode estar a esperança para algo novo, diferente no real, e, nesse sentido é o próprio desafio ao destino que ela revela. Mudará alg0? 

Isso não é importante, pois a leitura neste caso é a ferramenta para a construção de uma força interior. Nada mais decisivo para a formação de cada um e para a respiração da sua vida. E saber que é nessa esperança, nessa perigosa esperança que a vida se pode construir uma liberdade, essa fragrância que muitos ainda não têm.

Imagem: Copyright – Harald Metzkes, Mulher a ler à janela, 2001, Galeria Leo Coppi, Berlim.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

domingo, 31 de março de 2019

Os livros...

 

Se são os livros um coração para dentro de algo a descobrir, a imaginar em nós e a reportar em franjas de real, poderíamos vê-los como algo a preservar, a prender em nós, como uma oferta de um silêncio maior, íntimo? Poderiam eles ser nessa austeridade pública, nessa linha de algo especial e único um elemento em nós, como o pode ser um beijo? Max Frisch disse-nos um dia que os livros deviam ser preservados em nós, para que assumissem uma dimensão especial, acima de qualquer vulgaridade. Vivê-los como um tesouro guardado no coração, fruto dessa obra individual que foi compor abnegadamente essa linha do corpo em instantes de imaginação.

Compostura e minimalismo no interior do nome das coisas essenciais, como a identificação de um coração que nos preenche, nos identifica numa multidão de vulgaridades. Just like a kiss. Sim, a leitura realizada como actividade de informação, de lazer, mas também com a necessária atenção àquilo que nos pode dar uma tranquilidade, uma forma imaginada e lúdica de ver o mundo, os outros.

A leitura vivida nessa fronteira de algo nobre e formativo poderá produzir no leitor sinais de autoconfiança, o que conduzirá inevitavelmente à formalização de um pensamento, sempre devedora de uma coragem de ser livre. Que leitores procuram o estímulo para o seu coração nas obras literárias para si próprios e para a sua vida? Alguns homens, mas sobretudo são elas que o fizeram, que ainda o fazem. Os grandes leitores são mulheres, pois essa é uma ideia genérica que a história social e cultural dos últimos dois séculos nos diz de forma inequívoca, assim como a Arte. 

Esta dá-nos em múltiplos criadores essa fantasia de leitoras, de diferentes idades, geografias e atmosferas nesse consolo e deslumbramento de olhar as palavras, para mais tarde aguardarmos os seus olhos levantados das imagens dos sinais gráficos. Sim, os livros são como os beijos. Frescos, matinais, austeros e únicos na construção de uma intimidade no interior de nós.

Imagem: Copyright – J. J. Henner, Mulher a ler, C. 1880-90, Museu d’ Orsay, Paris.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Leitores

A leitura aproxima-nos de universos desconhecidos, formula possibilidades às interrogações que o conhecido nos coloca. Seria assim possível ver nos leitores feitos de homens e mulheres o campo para uma aproximação no campo humano? Seriam os leitores como construtores de uma imaginação possíveis elementos de um entendimento sobre as dificuldades de cada um? Ou então, poder-se-ia perguntar que um leitor não tem género e que o objecto da leitura pode nos dois chegar ao coração, depois das palavras lidas? 

Pode o livro assegurar essa igualdade de género que são as palavras ditas e por isso pode a leitura construir o que Gertrud Lehnert chamou o possível encontro de almas? É um sonho belo em que seria bom acreditar. Virginia Woolf acreditava que o livro e a sua substância poderia apenas ter uma acção de transformação quando se concretizasse essa fusão, entre o leitor e o autor, como um encontro de espíritos. Aliás ela em Orlando misturou os géneros para nos dizer que essas duas possibilidades poderiam ser um encontro de algo maior do que cada um individualmente. E, nesse sentido seria uma história que no colectivo era uma história de amor. Mas, o que dizer de como eles e elas se mostram como Leitores?

Os leitores no seu sentido global foram quase sempre os que liam no feminino. Saberiam os homens mais das mulheres se lessem Sylvia Plath, ou Carson MacCullers, ou Virginia Wolf?
Saberiam as mulheres mais dos homens se lessem Hemingway, ou Capote, ou Faulkner, ou  Balzac? No essencial as mulheres já o fizeram numa expressão íntima da leitura. Leram mais e de modo diferente, o que ainda fazem. As mulheres, ao serem grandes leitoras já fizeram essa identificação entre homem e mulher, herói e heroína, entre leitora e autor ou autora. Parece consensual que as mulheres amam os homens que lêem, mas o contrário parece pouco credível.

A leitura conjunta entre homens e mulheres é rara. Parece ser pouco prático, parece um perigo. A história de Francesca e Paolo relembra-nos desse perigo, quando os próprios relembram o episódio de Lançarote.  Essa leitura conjunta conduziu-os ao Inferno, como o expressa Dante na sua A divina Comédia. A leitura é um processo individual, mas quem se ama gosta particularmente de ler no outro o seu amor, como se fosse um livro, uma aprendizagem e uma construção emotiva. Um leitor aprecia os seus livros, como um amante aprecia os beijos de quem ama.

Imagem: Copyright – Anselm Feurbach, Paloe Francesca, 1864, Schack-Galerie, Munique.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 11 de março de 2019

A leitura e o ler


O livro foi no século XVIII e XIX, memso quando aspirava um pouco a ser um instrumento de mudança cultural, permanecia ainda permanecia uma ferramenta condicionada pelas ideologias, pelo poder político, pela dominância social e económica. Nesses tempos que podíamos datar como o espaço do romance oitocentista, Madame Bovary é ainda um sinal dessa memória de um processo. Os livros começavam a circular pelo universo feminino, mas a iconografia do objecto ainda era muitas vezes uma lembrança das obrigações sociais e económicas. 

O livro em si era apenas uma possível forma de perder tempo. O leitor quando lê encontra ou pode encontrar a forma de uma luz capaz de olhar o mundo, de o compreender, ou de lhe dar significado. Se a encontrar pode ousar quebrar as regras formuladas e no feminino, no espaço de oitocentos essa é um pouco a história da leitura. Voltemos a esse exemplo, a de Madame Bovary. É verdade que ela lê, embora seja esses romances cheios de casos amorosos que ela usava para preencher a sua vida. Curioso que uma das personagens diga sobre Ema Bovary que passa o tempo a “ler romances ruins, livros contra a religião e com palavreado tirado de Voltaire!”

Caso Ema Bovary lesse Voltaire talvez ela tivesse tido a possibilidade de encontrar um significado para as suas aspirações, para os seus desejos individuais. E no fim, tal como as heroínas dos romances que lia, ela toma arsénico que a conduz a um fim. Ema Bovary lia, mas ela não lhe deu essa conjugação de com as palavras pensar a sua vida, de reformular a sua vida pessoal e é nesse caso uma actividade perigosa, capaz de imaginar mundos impossíveis de concretizar.

A leitura conduz experiências no mundo da ficção, mas não torna possível que tenhamos a mesma abordagem estética do que é lido, não nos devolve as palavras que devemos usar. Essas só podem ser nossas. É um campo de experiências, não é uma resposta de ideias absolutas. No fundo a leitura congrega informação, prazer, abandono a uma experiência momentânea de solidão com o leitor e um pouco também com o escritor. E, se no fim o leitor existe é porque ele encontrou algo que lhe prendeu a atenção. Daí pode nascer um acto de rebeldia, um isolamento, um esquecimento do formal quotidiano. Daí pode nascer um momento de liberdade, suspenso noutras latitudes, noutras afeições, num outro real. A leitura no feminino em oitocentos conduziu-se muitas vezes por essa fronteira, ainda que apenas no espaço  dos ambientes de intimidade.

Imagem: E. Burne-Jones, retrato de Katie Lewis, 1896, colecção particular, Bridegman Giraudon
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

 

segunda-feira, 4 de março de 2019

Leitoras...

Biblioteca imaginária é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Biblioteca Imaginária formaliza-se nos leitores, nas suas construções intimistas, mas também nos escritores, nesses desejos de reerguer possibilidades, como visíveis linhas de um real.

Ossip Mandelstam foi um dos grandes escritores, ou poetas russos que sucumbiu ao regime dos camaradas, aí, onde toda a palavra era um argumento de traição, embora eles próprios não soubessem nunca muito a quê. Os seus breves poemas foram queimados, mas Nadeshda, sua mulher registou-os todos mentalmente e voltou a escrevê-los e preservou-os. Ela que escreveria “Hope against Hope” na denúncia do regime comunista de Estaline fez aquilo que mais importa a um leitor, registar na memória as palavras impedidas de nascer ao sol, à respiração das coisas.

O feito de Nadeshda Mandelstam foi o de ser uma leitora, uma criadora de uma Biblioteca Imaginária. Os leitores, mas sobretudo as leitoras têm desempenhado essa missão generosa de guardar tesouros, de os partilhar com os outros. Às vezes algo interrompe essa generosidade por uma outra. Chamam-lhe amor, mas sendo ele tanto de sedução e fragilidade, há quem considere que o amor na literatura é mais perene, talvez mais feliz. Às vezes o amor suspende as lutas políticas, ultrapassa-as. O Doutor Jivago mostra-nos isso, também de um escritor russo a compor um fresco sobre a transformação política e o modo como as pessoas se envolvem, se definem entre si. 

Outro escritor russo, Boris A. Lavrenev escreveu “O Quadragésimo Primeiro”, narrativa entre dois opositores na grande estepe russa, um homem e uma mulher em campos opostos da disputa política. O amor quase supera essa diferença. Ela acaba por matá-lo, pois a consciência de classe é uma mortalha para espíritos burocráticos. Elke Heidenreich quando nos contou este episódio diz-nos algo sobre essa diferença entre leitores e leitoras. Antes do fim, um pequeno livro de poemas que ela escreveu serve de mortalha para os desejos que ele tem em fumar. Ela perde os seus poemas, todas as palavras desfeitas em fumo e cinzas. O inverso sucederia? Dar-lhe ia ele os seus poemas para as suas mortalhas? Talvez não. Ele talvez exigisse os seus poemas perto do coração.

A história levou Elke Heidenreich a concluir que sendo as mulheres leitoras de uma frequência maior que os homens estarão numa postura de maior dádiva e disso deriva um temor masculino. O de que mulheres leitoras são uma forma de ser que é temido, por tudo aquilo que a leitura concede. A História cultural e social dos últimos séculos rapidamente nos assegura que foram elas a desbravar páginas para construir na intimidade outras formas de conhecer e de ser.

Vittorio Matteo Corcos pintou um quadro que denuncia esta ideia de que as palavras pelo feminino desencadearam uma chama capaz de outras possibilidades, de um outro real. A imagem não nos revela uma leitora a ler, mas sim, observamos a construção mental das ideias, as palavras lidas a construir desejos e sonhos. Os livros que a acompanham são vários e isso transmite a ideia de uma procura larga pelo conhecimento, por uma luz capaz de desbravar quotidianos num outro sentido. Há na sua expressão um desafio de quem compreendeu que do seu hábito de leitura nasceu um desafio, uma determinação, a capacidade de romper com uma atitude, quase um nascimento.

Imagem: Vittorio Matteo Corcos, Sonhos, 1896, Galeria Nacional de Arte Moderna, Madrid
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O livro e a leitura


 Biblioteca imaginária já o tínhamos dito, é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Biblioteca Imaginária foram todos os leitores que procuraram criar um mundo pessoal em alternância a um outro, ou tão só construir uma inspiração para esse feito de uma banal regularidade. De todos os leitores que criaram ou tentaram fazer dos livros e das palavras uma forma de transformação do mundo e da vida, as mulheres foram as que mais procuraram, as que mais tentaram ir de encontro a essas possibilidades pelas palavras. E é enigmático que o tenham sido numa civilização fundada no Livro e construída em redor do poder masculino.

Essa procura da palavra escrita pelo público no feminino talvez nos conceda uma explicação por uma certa procura pelas histórias, esse romantismo das palavras em dias incertos. E , as palavras estão reunidas nesses temas que nos abraçam pela alegria ou pela angústia, como o são o Amor, o Tempo, o Medo e a Morte. É na linguagem que eles se encontram em nós. Os livros e as palavras sempre incomodaram o pensamento unitário, os caminhos únicos. A Inquisição e as fogueiras que se seguiram existiram sempre mais mulheres e livros que homens.

Assim anunciou-se há muitos séculos esse perigo eminente que eram os livros e os seus leitores, o conhecimento e a coragem. É verdade que nos homens a palavra é muitas vezes desprezada. Basta pensar no mundo dos políticos, as palavras para todo o engano. Algumas vezes isso também tem acontecido com as mulheres e, principalmente pela propagação do sistema de poder ao utilitarismo ideológico. Fiquemo-nos pela incineração dos livros que tantos admiraram como se isso matasse as ideias lá inscritas.

A leitura foi pois durante muito tempo uma actividade pouco tolerada. A leitura traz-nos a reflexão, a possibilidade de formular uma opinião, a possibilidade de ser um dissidente da realidade social e política. Numa palavra um leitor pode aceder a essa altura única que é a de poder ser a voz que incomoda a maioria e os seus privilégios. 

A leitura progrediu muito a partir do momento que as tertúlias e os cafés divulgaram uma nova forma de sociedade. Essa sociedade burguesa que com o tempo desdenharia dos livros, pois a sua composição de boçalidade não se adequava à representação e à linguagem de vida. Sobre esse valor único do livro, transformador e mágico disse-o Guy Montag nessa obra de referência, Fahrenheit 451, " um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala da arma. Abre-se uma brecha no espírito do homem."

Imagem: Copyright, Peder Severin Kroyer, Roseiral, 1893, Fine Art Society, Londres, Bridgeman Giraudon.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Histórias...

 

"Oh eu, Oh vida,
 
das perguntas sempre iguais
Das gerações infindáveis de infiéis
Das cidades cheias de tolos (...)
O que há de bom no meio disso,
Oh eu, Oh vida,

Que você está aqui
Que a vida existe
E a identidade...

Resposta

Que a poderosa peça continua
e você pode contribuir com um verso."
 
Biblioteca imaginária é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Tudo o que vivemos é feito de histórias. Instantes criados, vividos e embalados em momentos, onde lugares, geografias, atmosferas, objectos, pessoas se oferecem numa composição de múltiplas faces. As histórias, como nós, são os elementos multiplicados e recontados como se tratasse de uma boneca russa, as matrioskas do que nos é possível contar, ou tão só imaginar.

As Histórias. São elas que nos compõem. Dão-nos pontos de referência, alimentam-nos em geografias de impossível, ou em desejos de mudança, em respostas para o ocasional. Nelas sobrevivemos ou nos perdemos a compor aquilo que o real devia ser. São pois lugares, atmosferas, vivências do que amamos, das relações que conseguimos estabelecer. Sem elas não temos identidade, não temos um reconhecimento do mundo, pois elas são mais que o nosso nome, são as nossas propriedades  no real. As Histórias podem nos salvar e podem nos fazer naufragar. No fim as Histórias somos simplesmente nós.

Caminhamos na vida fazendo escolhas, recriando as possibilidades nascidas no azul e imaginamos essa velha ingenuidade de que criamos uma História. A de que nós somos uma narrativa de gestos e espaços, aventuras e falhanços. Às vezes, muitas vezes não é assim. As Histórias são elas, as condutoras do que acabamos por fazer. Há Histórias, como vidas escritas que nos chegam e que nos influenciam, nos fazem fazer escolhas, antes da própria escolha. A História que compomos é no fundo a escrita do que soubermos ouvir, da liberdade concedida a cada experiência relatada na memória.

As Histórias podem ser a chave para nos fazer decidir as escolhas, o registo de significado que poderá permitir múltiplas portas, de onde sairemos para a nossa História, a que soubermos escrever. Se ela tiver a capacidade de se escrever aumentando as que recebemos, ou dando-lhe oportunidades possíveis. Assim, no fim, a nossa História poderá ser mais um ponto, um divergente ponto, quase uma formulação para outras múltiplas Histórias. Essas com que fazemos o rascunho do possível, ou o modo como nos integrámos no mundo. As Histórias, ou a nossa é só o modo como soubemos resolver a cor dos dias, de que pedras se formaram os nossos despojos, ou tão só, o que fizemos das flores silvestres adormecidas em tempos de usura. Em todas as tardes as maçãs das Hespérides caem no sentido das nossas Histórias.

(1) - Folhas de erva: antologia / walt Whitman ; selec. e trad. José Agostinho Baptista - Lisboa : Assírio & Alvim, 2003. - 415 p. : il. ; 21 cm. - (Grãos de pólen ; 4). - ISBN 972- 37- 07357 
Imagem: Copyright - - A Woman reading in a interior, Carl Vilhelm Holsøe.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

O livro e a leitura

 
 "Todo o poema é um fragmento, mais ou menos
curto de um infinito poema universal..." (Shelley)

Biblioteca imaginária é um fundo de palavras, um barco de imaginação para reter as que nos dão uma memória, as que nos permitem fazer um caminho de possibilidades, como um jogo de sedução pelas oportunidades criadas pela imaginação. O tempo pode perturbar-se, pode alimentar desencontros. Pode ser um mecanismo, onde somos repartidos, antes de o delimitarmos em nós, coma a repetição do Chapeleiro, onde às cinco horas eram sempre horas de chá, ou pode ser uma construção, uma forma de resistência.

Biblioteca imaginária foi a história da leitura, essa composição de sonhos que livro e leitores construíram na intimidade da leitura. Séculos, longos séculos assistiram no território da intimidade a essa composição de olhares a procurar sentido nas palavras, a tentar definir caminhos, tantas vezes uma forma de sobreviência em sociedades fechadas, determinadas pelo preconceito, pela exploração individual de cada um.

Nessa Biblioteca imaginária, que é no fundo uma História da Leitura tiveram especial destaque as mulheres. Foram elas, são elas ainda os grandes leitores, no sentido largo da Leitura. A arte, através da pintura e da fotografia recolhem esses instantes, que eram pequenas memórias de um quotidiano, mas também espaços largos de algo maior, ainda que muitas vezes apenas um fragmento de uma possibilidade no real. 

Esta leitura evoluiu muito entre os princípios do mundo medieval e a sociedade contemporânea.  Durante muito tempo essa leitura era uma ousadia, um risco para a coragem de cada um. O nome da rosa de Umberto Eco dá conta desse perigo que era o riso alimentando a dúvida, a partir do conhecimento, da leitura. No feminino essa coragem estendeu-se por muitos séculos.  O papel da mulher na sociedade impediu durante muitos séculos esse acesso à leitura, à intimidade das palavras. 

Houve um momento em que os espaços de intimidade, também no feminino se encheram de palavras. Isso veio permitir alargar esses territórios, tornando-os mais latos, onde as ideias, a fantasia e o conhecimento alargaram-nos até que se formalizaram como uma ameaça à ordem social e cultural dominante. A leitura integrou novas experiências, novas formas do possível que lhes eram desconhecidas, que não faziam parte daquilo que lhes era destinado. A História da leitura e concretamente no feminino, como a história da escrita representam uma Biblioteca imaginária, não só de sonhos, mas também de construção de uma sociedade mais aberta.

Imagem: Copyright - R. Casas Carbó, Depois do Baile, 1895, Museu de Monserrat, Catalunha.