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segunda-feira, 13 de maio de 2019

A leitura - um espaço do sagrado

Na liberdade criativa de uma vida, espaço formulado também pelas possibilidades da leitura existem histórias que nos deliciam. Ela também nos pode confinar a um ponto de esperança quando uma catástrofe ocorre. Passou-se com Dylan Thomas, o conhecido poeta irlandês, no tempo da sua infância. É ele próprio que a conta em A Child’s Christmas in Wales.

Uma vizinha da sua casa sofre um incêndio que consome uma sala inteira da casa. Após o fogo debelado que consumiu uma sala inteira e no meio da confusão e dos objectos encharcados, a senhora Prothero exclama esta frase deliciosa aos bombeiros: “Quererão agora ler um pouco?”.

Era um consolo naquela de bonomia de um tempo e de uma forma de ser, mas ela dá-nos também essa ideia tão necessária de que a existência e o real podem ser suportados, mesmo que ligeiramente pela literatura. O próprio Flaubert viu nesta inspiração uma espécie de “orgia perpétua”e com ela nos seduziu com as aventuras de Madame Bovary.

Esta orgia perpétua não é mais que uma forma continuada de ler, de encontrar nessa expressão não só a própria liberdade, mas também o seu significado mais primordial, uma ideia de sagrado, uma forma de individualmente aceder a um culto de divindade, próprio e irrepetível noutros.

Sim, a leitura não preenche a vida e esta aprende-se vivendo, mas como disse Günter Bruyn, “aprende-se da leitura, lendo”, e este foco sobre tantas vidas de tantas possibilidades e experiências é sem dúvida um modo de com esse olhar chegar a um conhecimento que nos ilucida a nós próprios sobre a nossa própria vida. Essa orgia de leitura acaba por superar muitas vezes a nossa própria experiência, pois ela é muito variada e rica nas leituras feitas. Não só se está perto da vida dos outros lendo, como se acede a um amor, “ama-se o amor dos outros”, nas palavras iluminadas de Elke Heidenreich.

A leitura permite pois, uma construção individual, mas também pode apresentar-se como alienação do real, capaz de alguns desastres. Bluma Lennon morreu na esquina de uma rua de Buenos Aires ao ler um poema de Emily Dickinson que a fazia desligar do real, segundo a narrativa inicial de A Casa de Papel. É um ponto extremo, mas todos sabemos que ao longo dos séculos XVIII e XIX a advertência aos perigos da leitura eram uma forma de condicionar projectos de vida, de amarrar pessoas, e, sobretudo mulheres a modelos sociais e culturais.

É ainda de Elke Heidenreich essas palavras que nos devolvem o valor inestimável da leitura. “A leitura questiona não só o projecto de vida, como também as directivas de instâncias superiores, tais como Deus, o marido, o governo e a Igreja. A leitura dá asas à fantasia e esta última afasta do presente, mas para onde?” Pergunta importante, pergunta sem resposta, pois depende da individualidade, da história de cada um. Tudo na leitura é fonte e processo incontrolável.

E todos sabemos que os legitimados nas palavras burocráticas, como sacerdotes e governos desconfiam das palavras voadoras, das palavras incontroláveis, essas que amamos na respiração das coisas. E, talvez só Deus mesmo nos acompanhe nessa compreensão pela viagem das palavras, como o sentiu Virginia Woolf ao dizer-nos que o próprio Deus acolhendo todos no seu trono celestial dirá, “Olha, estes não precisam de recompensa. Nada temos para lhes dar aqui. Eles amavam a leitura.”

Imagem: Copyright – Duncan Grant, O fogão, Fitzroy Square, 1936, Espólio de Ducan Grant. (via https://theartstack.com)
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Leitura e sociedade...

Leitura e sociabilidade podem-nos dizer que por aquela se construíram a construção de uma personalidade. A educação do indivíduo, forma de elaboração de uma individualidade capaz de assegurar uma comunidade participada fez-se em determinados tempos por essa dupla construção, a de uma personalidade e de uma liberdade. A arte tentou dar-lhe um sinal na leitura do feminino com a reprodução de corpos desnudados no melhor dos sentidos.

Justamente alguém capaz de se oferecer à leitura, integralmente, absorvendo as palavras, conduzindo-se por imagens a reconstruir em si, alimentando um coração, uma vida. E encontrar no autor essa criação que o leitor assume em múltiplas perspectivas para si criando essa fusão no espírito das ideias e nas faculdades do próprio leitor. Leitura feita como um amor a preservar para algo maior em que se fundamenta a vida e que importa continuar a construir, em abnegação e em virtude. Deste jogo do espírito feito pelos livros nasce, ou pode nascer uma coragem dada por uma confiança do que se apreendeu. 

E, mais do que a vida é nos livros que se persiste a aprender e a encontrar possíveis. Há quadros na arte que nos dão essa procura e esse encontro, como se o mundo dependesse na sua verdade e inteligibilidade desse momento de leitura. O quadro é de Harald Metzkes e o que é extraordinário nele é a forma como o corpo de uma mulher se debruça sobre a leitura. Ela está sentada a uma janela, de onde se observa um fundo de paisagem natural sem identificação de pessoas. Ela está junto à janela numa atitude de apreensão do que lê. O dia parece estar a clarear, mas a leitura parece conduzir toda a sua acção. 

O quadro revela-nos essa postura de dar às palavras a possibilidade de um conhecimento e de uma fuga, mas também concede algo de revolucionário. Justamente a crença de que nas palavras pode estar a esperança para algo novo, diferente no real, e, nesse sentido é o próprio desafio ao destino que ela revela. Mudará alg0? 

Isso não é importante, pois a leitura neste caso é a ferramenta para a construção de uma força interior. Nada mais decisivo para a formação de cada um e para a respiração da sua vida. E saber que é nessa esperança, nessa perigosa esperança que a vida se pode construir uma liberdade, essa fragrância que muitos ainda não têm.

Imagem: Copyright – Harald Metzkes, Mulher a ler à janela, 2001, Galeria Leo Coppi, Berlim.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Leitoras...

Biblioteca imaginária é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Biblioteca Imaginária formaliza-se nos leitores, nas suas construções intimistas, mas também nos escritores, nesses desejos de reerguer possibilidades, como visíveis linhas de um real.

Ossip Mandelstam foi um dos grandes escritores, ou poetas russos que sucumbiu ao regime dos camaradas, aí, onde toda a palavra era um argumento de traição, embora eles próprios não soubessem nunca muito a quê. Os seus breves poemas foram queimados, mas Nadeshda, sua mulher registou-os todos mentalmente e voltou a escrevê-los e preservou-os. Ela que escreveria “Hope against Hope” na denúncia do regime comunista de Estaline fez aquilo que mais importa a um leitor, registar na memória as palavras impedidas de nascer ao sol, à respiração das coisas.

O feito de Nadeshda Mandelstam foi o de ser uma leitora, uma criadora de uma Biblioteca Imaginária. Os leitores, mas sobretudo as leitoras têm desempenhado essa missão generosa de guardar tesouros, de os partilhar com os outros. Às vezes algo interrompe essa generosidade por uma outra. Chamam-lhe amor, mas sendo ele tanto de sedução e fragilidade, há quem considere que o amor na literatura é mais perene, talvez mais feliz. Às vezes o amor suspende as lutas políticas, ultrapassa-as. O Doutor Jivago mostra-nos isso, também de um escritor russo a compor um fresco sobre a transformação política e o modo como as pessoas se envolvem, se definem entre si. 

Outro escritor russo, Boris A. Lavrenev escreveu “O Quadragésimo Primeiro”, narrativa entre dois opositores na grande estepe russa, um homem e uma mulher em campos opostos da disputa política. O amor quase supera essa diferença. Ela acaba por matá-lo, pois a consciência de classe é uma mortalha para espíritos burocráticos. Elke Heidenreich quando nos contou este episódio diz-nos algo sobre essa diferença entre leitores e leitoras. Antes do fim, um pequeno livro de poemas que ela escreveu serve de mortalha para os desejos que ele tem em fumar. Ela perde os seus poemas, todas as palavras desfeitas em fumo e cinzas. O inverso sucederia? Dar-lhe ia ele os seus poemas para as suas mortalhas? Talvez não. Ele talvez exigisse os seus poemas perto do coração.

A história levou Elke Heidenreich a concluir que sendo as mulheres leitoras de uma frequência maior que os homens estarão numa postura de maior dádiva e disso deriva um temor masculino. O de que mulheres leitoras são uma forma de ser que é temido, por tudo aquilo que a leitura concede. A História cultural e social dos últimos séculos rapidamente nos assegura que foram elas a desbravar páginas para construir na intimidade outras formas de conhecer e de ser.

Vittorio Matteo Corcos pintou um quadro que denuncia esta ideia de que as palavras pelo feminino desencadearam uma chama capaz de outras possibilidades, de um outro real. A imagem não nos revela uma leitora a ler, mas sim, observamos a construção mental das ideias, as palavras lidas a construir desejos e sonhos. Os livros que a acompanham são vários e isso transmite a ideia de uma procura larga pelo conhecimento, por uma luz capaz de desbravar quotidianos num outro sentido. Há na sua expressão um desafio de quem compreendeu que do seu hábito de leitura nasceu um desafio, uma determinação, a capacidade de romper com uma atitude, quase um nascimento.

Imagem: Vittorio Matteo Corcos, Sonhos, 1896, Galeria Nacional de Arte Moderna, Madrid
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O livro e a leitura


 Biblioteca imaginária já o tínhamos dito, é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Biblioteca Imaginária foram todos os leitores que procuraram criar um mundo pessoal em alternância a um outro, ou tão só construir uma inspiração para esse feito de uma banal regularidade. De todos os leitores que criaram ou tentaram fazer dos livros e das palavras uma forma de transformação do mundo e da vida, as mulheres foram as que mais procuraram, as que mais tentaram ir de encontro a essas possibilidades pelas palavras. E é enigmático que o tenham sido numa civilização fundada no Livro e construída em redor do poder masculino.

Essa procura da palavra escrita pelo público no feminino talvez nos conceda uma explicação por uma certa procura pelas histórias, esse romantismo das palavras em dias incertos. E , as palavras estão reunidas nesses temas que nos abraçam pela alegria ou pela angústia, como o são o Amor, o Tempo, o Medo e a Morte. É na linguagem que eles se encontram em nós. Os livros e as palavras sempre incomodaram o pensamento unitário, os caminhos únicos. A Inquisição e as fogueiras que se seguiram existiram sempre mais mulheres e livros que homens.

Assim anunciou-se há muitos séculos esse perigo eminente que eram os livros e os seus leitores, o conhecimento e a coragem. É verdade que nos homens a palavra é muitas vezes desprezada. Basta pensar no mundo dos políticos, as palavras para todo o engano. Algumas vezes isso também tem acontecido com as mulheres e, principalmente pela propagação do sistema de poder ao utilitarismo ideológico. Fiquemo-nos pela incineração dos livros que tantos admiraram como se isso matasse as ideias lá inscritas.

A leitura foi pois durante muito tempo uma actividade pouco tolerada. A leitura traz-nos a reflexão, a possibilidade de formular uma opinião, a possibilidade de ser um dissidente da realidade social e política. Numa palavra um leitor pode aceder a essa altura única que é a de poder ser a voz que incomoda a maioria e os seus privilégios. 

A leitura progrediu muito a partir do momento que as tertúlias e os cafés divulgaram uma nova forma de sociedade. Essa sociedade burguesa que com o tempo desdenharia dos livros, pois a sua composição de boçalidade não se adequava à representação e à linguagem de vida. Sobre esse valor único do livro, transformador e mágico disse-o Guy Montag nessa obra de referência, Fahrenheit 451, " um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala da arma. Abre-se uma brecha no espírito do homem."

Imagem: Copyright, Peder Severin Kroyer, Roseiral, 1893, Fine Art Society, Londres, Bridgeman Giraudon.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Histórias...

 

"Oh eu, Oh vida,
 
das perguntas sempre iguais
Das gerações infindáveis de infiéis
Das cidades cheias de tolos (...)
O que há de bom no meio disso,
Oh eu, Oh vida,

Que você está aqui
Que a vida existe
E a identidade...

Resposta

Que a poderosa peça continua
e você pode contribuir com um verso."
 
Biblioteca imaginária é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Tudo o que vivemos é feito de histórias. Instantes criados, vividos e embalados em momentos, onde lugares, geografias, atmosferas, objectos, pessoas se oferecem numa composição de múltiplas faces. As histórias, como nós, são os elementos multiplicados e recontados como se tratasse de uma boneca russa, as matrioskas do que nos é possível contar, ou tão só imaginar.

As Histórias. São elas que nos compõem. Dão-nos pontos de referência, alimentam-nos em geografias de impossível, ou em desejos de mudança, em respostas para o ocasional. Nelas sobrevivemos ou nos perdemos a compor aquilo que o real devia ser. São pois lugares, atmosferas, vivências do que amamos, das relações que conseguimos estabelecer. Sem elas não temos identidade, não temos um reconhecimento do mundo, pois elas são mais que o nosso nome, são as nossas propriedades  no real. As Histórias podem nos salvar e podem nos fazer naufragar. No fim as Histórias somos simplesmente nós.

Caminhamos na vida fazendo escolhas, recriando as possibilidades nascidas no azul e imaginamos essa velha ingenuidade de que criamos uma História. A de que nós somos uma narrativa de gestos e espaços, aventuras e falhanços. Às vezes, muitas vezes não é assim. As Histórias são elas, as condutoras do que acabamos por fazer. Há Histórias, como vidas escritas que nos chegam e que nos influenciam, nos fazem fazer escolhas, antes da própria escolha. A História que compomos é no fundo a escrita do que soubermos ouvir, da liberdade concedida a cada experiência relatada na memória.

As Histórias podem ser a chave para nos fazer decidir as escolhas, o registo de significado que poderá permitir múltiplas portas, de onde sairemos para a nossa História, a que soubermos escrever. Se ela tiver a capacidade de se escrever aumentando as que recebemos, ou dando-lhe oportunidades possíveis. Assim, no fim, a nossa História poderá ser mais um ponto, um divergente ponto, quase uma formulação para outras múltiplas Histórias. Essas com que fazemos o rascunho do possível, ou o modo como nos integrámos no mundo. As Histórias, ou a nossa é só o modo como soubemos resolver a cor dos dias, de que pedras se formaram os nossos despojos, ou tão só, o que fizemos das flores silvestres adormecidas em tempos de usura. Em todas as tardes as maçãs das Hespérides caem no sentido das nossas Histórias.

(1) - Folhas de erva: antologia / walt Whitman ; selec. e trad. José Agostinho Baptista - Lisboa : Assírio & Alvim, 2003. - 415 p. : il. ; 21 cm. - (Grãos de pólen ; 4). - ISBN 972- 37- 07357 
Imagem: Copyright - - A Woman reading in a interior, Carl Vilhelm Holsøe.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Ler...


 "Ler para quê? E escrever, para quê? Depois de ler cem mil, dez mi livros durante a vida, que se leu? Nada. (...) Ler não serve para nada, é um vício, um puro prazer, uma felicidade". (1)

Desde que entrámos na porta da História, se há algo que caracteriza a aventura humana são as palavras. Suporte desse material onde a linguagem organiza o conhecimento, a dúvida, a emoção e o sonho, os livros são a nossa memória. Conseguirá essa memória da palavra apresentar satisfatoriamente os sonhos do quotidiano?

Afinal que papel desempenham no quotidiano vivido de cada um a leitura e a escrita? Não serão aquelas signos materiais afastados das nossas necessidades pessoais? Na sociedade da imagem, que valor podem ter o livro e a leitura com a inevitável falta de tempo, onde a contemplação do horizonte parece apenas destinado aos que se situam à margem do sucesso virtual. A acrescentar a estas dificuldades, uma mais. Que livros escolher e quais deixar de lado, quais seleccionar, aqueles que nos «permitiriam melhor relacionar com o Universo», nas palavras de Gabriel Zaid. Como contornar este labirinto?

O livro nasceu como produto cultural no momento e no tempo em que a difusão de novas ideias permitia organizar outros modelos sociais. O livro trouxe-nos da História esses momentos de emancipação individual. O livro e a sua difusão estão ligados à criação dessa liberdade onde cada um pode ouvir a sua respiração e onde estão dispensados os sacerdotes do templo para que fundamentem o significado das acções humanas.

O encontro do homem com o livro é o resultado de uma acção que pretende afinal estabelecer uma «conversação» que faça da vida um caminho com significados. Afastados dessa liberdade criativa que a cultura greco-romana ou o renascimento afirmaram tão alto, vivemos num tempo absurdo em que da pior maneira verificámos que a nossa tecnologia e doutrinas económicas não souberam salvaguardar a dignidade individual. Tantos milhões de anos de História para concretizarmos uma sociedade com fundamentos de uma solidez feita de aparências.

Neste País onde o estudo do Grego, do Latim, da Filosofia, da Arqueologia são um passatempo para lunáticos, dispensável na formação da maioria, pode-se aspirar à organização do pensamento? Um País onde sai mais barato fazer exercícios para tratar do corpo do que alimentar o espírito, onde se deslocam objectos de memória sem conhecimento, onde tudo vale apenas pelo valor funcional. Sem valorização da identidade, da diferença, um caminho de ícones de plástico, onde se dispensa ser. Aspira-se aparentemente a ideias, mas sem leitura crítica, como se fosse possível presente, sem memória. O livro, a memória, a sua humanidade está em stand by, numa fogueira de vaidades pessoais.

O livro contém si o universo dos possíveis, encerra em si o leitor e apesar da sua magia deposita também nele e em nós,imensas fragilidades. Poderíamos comparar o livro à vindima da uva e ao seu produto, o generoso vinho. Quem o sabe apreciar não o dispensa, quem não o conhece vive afastado de uma beleza sem tempo. É verdade que o livro não regista a vida, a construção do quotidiano. Ele tal como a vindima é o produto, a colheita de um esforço humano, de uma inspiração da memória. É igualmente verdade que não poderemos ler todos os livros, nem sequer os que consideraríamos mais interessantes. E é sobretudo verdade que a natureza humana não está pensada para ser dominada por uma língua universal, numa aldeia global onde se determina tudo a todos e do mesmo modo.

A actual crise económica e social revela como mal preparados estão os agentes do poder político, os que organizam o domínio social e económico. Tantos já prevêem o fim do livro e nenhum soube compreender o seu próprio tempo, nem os movimentos que o organizam. Tantos afirmaram o fim da História a caminho de uma felicidade garantida pelos meios tecnológicos, pela clarividência dos princípios e afinal aqui estamos tão sós de sonhos, ainda à espera do «dia inicial e limpo» , como expressava Sophia.

Mais uma vez se comprova que a Humanidade dá-se melhor com uma Torre de Babel onde cada aldeia é um Universo, um centro de uma ideia de vida do que na vasta globalização. O homem vive na sua natureza de uma universalidade limitada. Estas fragilidades do homem, do leitor e da vida são oportunidades. Podem ser as nossas oportunidades. Elas permitem-nos compreender que a vida humana é feita de momentos.

É o livro que nos dá essa revelação, essa relatividade de que todos somos feitos. «O livro não oferece nenhuma explicação acerca do destino do homem, mas tece uma apertada rede de convivências entre a vida e ele», nas palavras de Daniel Pennac, expressam bem o motivo de o homem pela sua mortalidade aspirar aos sonhos, às emoções e é esse é o fundamento da escrita. Esperamos assim da leitura, o que Gabriel Zaid no seu pequeno, mas íntimo livro consegue estabelecer connosco, uma «conversação». E não é isso a vida, entre a alegria e o absurdo, uma tentativa de construir um diálogo? O homem e o livro aproximam-se assim, «na definição de constelações que promovam a conversação para o bem comum», ainda nas palavras de Gabriel Zaid. As Bibliotecas são neste contexto apenas um dos instrumentos para organizar, promover e difundir esse diálogo comunicativo essencial ao Homem. O livro pode dar-nos essa intimidade do diálogo, num mundo de cegos.

(1) - Gabriel Zaid, Livros de mais, Ler e publicar na era da abundância, páginas 49 e 116)
Imagem - sem referência de autoria na Web.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Da casa de papel (I)


A cidade era modestamente recente, feita dessas novidades de novos colonizadores, artefactos de comunicação à procura de novidades, como instantes de repouso nos olhos dos deuses. Atrás desse tempo comemorativo de grandes conquistas, ruas empoeiradas de mendigos traziam os velhos despojos dos que não foram reabilitados para a iconografia de novos sucessos.

O porto ainda trazia as gaivotas e os gansos de longas distâncias, onde caminhavam crianças adormecidas no rasto dessa liberdade de ave e onde novas lojas se abasteciam dos peixes entornados do mar, vivos ainda de maresia e azul. Entre essas crianças e eu próprio vestiram-se edifícios novos, lojas de novos conquistadores, como se o tempo fosse uma grosseira construção de escolhidos. Nas margens da doca ouviam-se sons de realejo, os desfasados do sucesso a pedir esmolas, mas também a colorir voos rasantes com uma tristeza soturna de quem pede pão, um sinal de uma lágrima a querer voar, como um beijo numa face.

Na parte velha da cidade, arqueológica, de pedaços de um tempo esquecido, uma Nothing Hill de outras latitudes arruma frutos tropicais e livros antigos, contos de aztecas e maias entre as novidades do mercado castelhano, avassalador de traduções, enigmas de um tempo a construir. Abandonei essa circulação estratégia de palavras, por onde em prateleiras distantes velhos livros de sabedoria ainda se consumiam em totens de outros tempos, de outros sonhos. E vi neles essa importante forma de passar o tempo com vozes que nos quer fazer compreender algo, distribuir algumas formas de delicadeza, como quem se oferece na sua própria revelação. 

Delicadeza como quem revela segredos, sempre eternos do próprio sentido humano. Emoção e mistério confirmando o livro como janela de luz sobre a vida, suporte de entendimento para ela própria em vozes nascidos no enigma do próprio tempo. No centro da cidade El Ateneo é uma referência. Arte em si e na divulgação do livro. Um templo. Não admira que Borges visse esse conto de fantástico como a energia possível do paraíso.

(A partir de uma viagem pelas ruas de Buenos Aires e com o coração em Buenos Aires).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Vá a uma Biblioteca

 “Podemos combater a ignorância e a desinformação que alimenta o ódio. E podemos fazê-lo numa biblioteca pública”.  

Os tempos são de uma substantiva crise que se alarga do económico, ao social, ao cultural e ao espiritual. Uma crise que se vislumbra em amplos sectores da sociedade e que está a conduzir-se nos próprios fundamentos do que poderíamos chamar a decadência dos valores de uma Nação. Crise que fez emergir um caos feito de desordem, de desregulação, de disfunções várias. Uma crise que oblitera o essencial do que deveria ser uma acção política virada para a comunidade, como um sentido partilhado de valores. 

Crise formulada em desrespeito pelos valores essenciais, feitos de debate sério, informado, consciente sobre o próprio valor das pessoas e do seu contributo na sociedade. Crise feita da ideia de que qualquer informação é credível para manter uma posição ideológica. Uma crise feita sobre a decadência do conhecimento e formulada em opiniões irreconhecíveis em qualquer construção do saber, da sua curiosidade. A curiosidade pelo conhecimento, pelo acto de saber termina quando se descobre que a informação que cada um tem é diferente daquela em que se acredita. A crise que vivemos alicerça na ideia de que as nossas convicções são as únicas possíveis e que elas estão absolutamente certas. Por isso não se toleram ideias alternativas ao que cada um pensa, ao que institucionalmente se define como o certo. Não existe pois pensamento alternativo.

O caminho por aqui definido é perigoso e destrói o essencial do que significa a democracia. Este processo de caos em que nos encontramos impede que o sistema político e a sociedade sejam constituídos por cidadãos informados, por pessoas que sentem a curiosidade como forma de partilhar uma ideia colectiva sobre o futuro. Impede que cada um se sinta responsável por defender os valores que animaria uma sociedade feita da aceitação do outro. Para isso seriam precisos processos que abandonámos, Aceitação, Discussão, Debate, Igualdade, Oportunidade. Sem eles, sem o exercício da razão baseada em argumentos e factos sólidos que permitam a crítica ao próprio poder estabelecido não existe democracia.

É pois preciso uma acção capaz de mudar esta situação. Como sempre, qualquer mudança global implica uma transformação local. O que significa que é em cada um de nós que a mudança e o processo deve ocorrer. Como? Mantendo a capacidade de sermos informados, de sermos curiosos, de aceitar que sabemos pouco sobre muitas coisas e que é necessário que sejamos uma comunidade feita de diferentes perspectivas. Apenas assim se combate a ignorância e a desinformação, que são o alimento do ódio.

É preciso um sentido comunitário, de convivência com os outros, com os que nos rodeiam. E podemos fazer mais. Ler um jornal ou ver programas informativos em diferentes canais. Podemos estabelecer um diálogo com as pessoas que conhecemos e que têm um sentido diferente da escolha política e iniciar uma discussão, propor uma reflexão. Podemos ouvir. Fazendo isto e tentando entender melhor a opinião dos outros o mundo, poderá ser um lugar melhor.

E existe algo mais que todos podemos fazer. Podemos ir a uma Biblioteca, obter um librarycard e iniciar uma viagem para fortalecer a democracia. Podemos fazer da Biblioteca um lugar de encontro com vizinhos e conhecidos. Podemos encontrar livros e estabelecer uma rede de informação para melhor conhecer um assunto. Podemos fazer da Biblioteca um espaço de reconhecimento da própria comunidade. Podemos ir e visitar esse espaço e podemos recomendá-lo a diferentes pessoas. É por demais evidente que existem enormes benefícios de uma interacção com a comunidade e de ler por prazer. Recordemo-los. 

O estar sentado num espaço tranquilo feito de silêncio. O conhecer os espaços de uma Biblioteca Pública. O estar em contacto com uma ideia visual de ver pessoas procurando livros, lendo, tomando notas e aprendendo. Pessoas de diferentes espaços sociais e culturais estão sentadas juntamente, aprendendo juntas e falando umas com as outras. A Biblioteca concede esse encontro especial de ver que todos, de diferentes cores e nacionalidades se juntam com iguais oportunidades para aceder ao conhecimento e à informação. Tudo é gratuito e livre no melhor sentido das coisas. Num mundo isolado, onde é tão fácil criticar e desrespeitar os outros no anonimato da internet, as bibliotecas são um oásis propiciadores de um ambiente calmo e de comunidade. Elas são templos de conhecimento que dão as boas vindas a todos e dão substância espacial a todas as comunidades de um país.

Estamos no momento a viver um período na História, em que se não podemos estar juntos, se não podemos aprender uns com os outros, se não nos podemos respeitar mutuamente, então não teremos nenhuma democracia. A biblioteca pública está a desenvolver o seu papel para proteger e manter a nossa democracia. Ela está em cada comunidade, na linha da frente para ajudar a esse papel de conceder o acesso à informação, de promover competências de aprendizagem e de cidadania. A Biblioteca está consciente desse importante papel e orgulhosa de o realizar.
Por isso em 2019, seria muito bom que cada uma fizesse uma resolução contra a escuridão e a ignorância. Visitar regularmente uma biblioteca, utilizar o seu catálogo, o seu variado fundo de recursos. O nosso futuro, ou os caminhos do que seremos como nação depende muito disso.

Anthony W. Marx, New York Public Library. 01.01.2019 (via https://www.salon.com/)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O tempo das bibliotecas

As Bibliotecas conduzem um circuito de silêncio preparado desde largos confins do tempo, como uma cerimónia para novos espectadores. Fazem-no um pouco como as velhas glórias do passado, como uma pirâmide em Gizé, ou a Torre de Mangia, em Siena a olhar persitentemente para nós, para tantos nós a desfilar no horizonte. 

As Bibliotecas forram-se de esperança e ingenuidade na sugestão de possibilidades. Essa imaginação de latitudes que nos deu O Tigre da Malásia, Siddharta ou Alice no país das maravilhas. Essa fuga para um outro mundo que era O apelo da selva de Jack Lonon a mergulhar nos contrafortes do natural, ou só a sabedoria de Thoreau a contar macieiras nas margens do Walden. 

As Bibliotecas, todas elas avançam como um exército de ideias, sempre em silêncio, sempre na inocência de quem apenas quer abrir uma possibilidade. As Bibliotecas juntam as nossas memórias e quando perdemos os seus artefactos, os livros é a nossa própria história que passou a um átomo esquecido no Universo, são as nossas emoções que se volatilizaram no tempo. Os livros são nelas as ferramentas da construção de uma emoção, a frágil margem do tempo.

Imagem: Copyright - Public Library of Lima

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Ler

 Lemos as palavras, os sinais dos nomes das coisas. Lemos na paisagem os contornos das colinas, o diverso em diálogo com o aberto. Lemos com os olhos, com as cores e as formas da arte. Lemos entre o sonho e a perda, o doce e o amargo, Lemos na utopia do que procuramos compreender. Jorge Luís Borges deu-lhe a mais bela e sentida definição par esse espaço único, a Biblioteca. Defini-a assim, “Sempre imaginei a Biblioteca como uma espécie de paraíso”.    

Frase de Borges que se tornou um lema vivo, uma visão para um mundo suportado no livro, mas também em outras formas de expressão, a arte. Frase que nos indica que é necessário alimentar a imaginação, criar a fantasia para que seja possível alimentar outros territórios, ou tão só como disse Tolentino Mendonça, “encontrar Deus pelos baldios.” 

Frase para um resguardo do mundo, do barulho, do movimento, do social e onde é possível realizar a maior das aprendizagens. Essa que se torna essencial que é o de ler, ler continuadamente para um dia poder exprimir uma frase, uma história, ou só guardar a essência do real mais substantivo. A imaginação é sempre aqui uma conquista sobre o banal, sobre instante perdido em novidades sem significado.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Uma Biblioteca imaginária

Uma Biblioteca é uma composição de todas as possibilidades, daquelas que de diferentes tempos sonhámos com tudo aquilo que era possível construir, a palavra e a linguagem, o conceito e a imagem. Biblioteca Imaginária, um espaço para construir um repositório de palavras, de imagens, de ideias à sombra de utopia humanas. Se a biblioteca é o melhor lugar do mundo, como construção de uma respiração individual, como lugar acima do tempo e do espaço, em cada um existe uma ideia imaginária do que cada um pode ser. Esta é a minha Biblioteca Imaginária, os espaços das palavras, as cores do que um dia cada homem ousou ser entre a face da verdade e o signo do belo.