sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Estante de leitura – Sem nunca chegar ao cimo

 «Sentei-me com as costas apoiadas num dos moinhos e observei o mosteiro. Mais acima, nas encostas arborizadas do monte Somdo, um rebanho de bharal ruminava ao sol. Nenhum leopardo à vista, mas o céu da tarde estava límpido e àquela altitude a luz possuía algo de absoluto, como se fosse luz no seu estado mais puro. E, de igual modo, o ar rarefeito que respirava, a água gelada que acariciava com a mão, a rocha aquecida pelo sol na qual estava apoiado. A essa pureza correspondia outra dentro de mim, era este o pensamento ao qual procurava dar forma: o vento, a torrente, a luz, a pedra eram feitos da mesma substância do meu sangue, das minhas fibras, dos meus órgãos, e ecoavam nestes assim como o tambor do monge tinha feito vibrar as minhas membranas: bum, bum, bum, eu sou feito disso, disto e disto. A montanha conduzia-me ao essencial.

Peter identificara a mesma sensação nas páginas mais explícitas do seu diário. No fundo, eu simplesmente reescrevia o que à sua época ele havia escrito, e no entanto parecia-me perfeitamente condizente com Shey: ali nada andava para a frente ou para trás, mas em círculos. segundo o preceito do eterno retorno, ou da eterna reescrita. E não era de todo um movimento ocioso. Para os tibetanos, o girar das rodas, o nosso andar às voltas em em redor de muros, mosteiros e montanhas ativa as rezas inscritas no seu interior, assim como o badalo que acaricia a borda do sino o faz vibrar produzindo uma nota. 

Tinha escutado em Catmandu o lá dos sinos tibetanos, capaz de ferver a água com a qual eram cheios. Se isto é verdadeiro, pensei, então de Shey parte uma única e potente nota para o universo: giravam os peregrinos em redor da Montanha de Cristal, girava o monge sorridente em redor do seu mosteiro, giravam os moinhos da farinha nas torrentes e giravam os pombos selvagens que revelavam, talvez, um celeiro escondido no gompa; giravam os escritores em redor do sentido de estarem ali.  Quem viu alguma vez o monte Kailash do cume inviolado da Montanha de Cristal? Fechei o caderno. Nesse mesmo momento, só que quarenta anos antes, Peter fechou também o seu, no qual havia escrito: ”O segredo das montanhas é que elas existem simplesmente, como eu. e existem com simplicidade, não como eu. As montanhas não têm significado, elas são significado; as montanhas são. Eu ecco de vida, assim como as montanhas, e quando consigo ouvi-lo esse é um som que partilhamos.”
Mensagens, correio electrónico, alertas, chamadas perdidas. Bem-vindos ao deserto do real, pensei eu. Reentrávamos na rede, no mundo, no tempo, e sentia que aquele mundo sem tempo, o chá do monge no eremitério debruçado sobre o abismo, O Leopardo dobrado e marcado dentro da minha mochila perdiam já o seu sentido. Quem é que alguma viu o monte Kailash do cimo inviolado da Montanha de Cristal? Agora este meu Koan era somente uma frase feita boa para figurar numa camisola para ser vendida nos mercados de Catmandu.

“A lucidez da vida em Shey diminui rapidamente”, anotava Peter durante o caminho de regresso. Contudo, logo a seguir reconhecia a necessidade da perda: “Também a transparência pode constituir um impedimento, se nos agarrarmos demasiado a ela. Não devemos demorar-nos na Montanha de Cristal.”
O derradeiro limiar foi uma árvore, um cedro-do-himalaia coberto de pó e enrugado. Desde o lago Phoksundo que não os via e fiquei de tal modo impressionado que parei para desenhá-lo. Enquanto fazia o seu retrato, apercebi-me de que por cima do cedro, por detrás do Dhaulagiri, tinham surgido nuvens. 

Nuvens! As nuvens e a árvore estavam ligadas entre si. Virei-me na direção da vertente na minha retaguarda, um salto de mais de mil metros que conduzia ao planalto. Já havia reparado nos barrancos de erva onde pastavam os carneiros-azuis. Os carneiros-azuis eram as sentinelas de Dolpa, o cedro e a nuvem, o seu derradeiro limiar. Lá em cima, em algum lado, estava o leopardo-das-neves, para me fazer recordar que nem tudo o que existe é visível aos olhos, que nem tudo é compreensível, que nem tudo podemos colher e levar conosco. “E neste não ver sou feliz”, escrevia Peter. Deixava para trás algo não visto e não tocado, mas tinha chegado tão próximo que podia sentir a sua presença. Eis o que se experimenta ao descer da montanha.»

Sem nunca chegar ao cimo, viagem aos Himalaias / Paolo Cognetti. Alfragide: D. Quixote, 2020.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Estante de leitura – Flecha

«one by one the guests arrive
the open-hearted many 

the broken hearted few 
the guests are coming through (Leonard Cohen, “The Guests”).

ressoou o arco, vibrou alto a corda, e apressou-se rápida
a flecha aguda, desejosa de voar por entre a multidão (Ilíada, canto IV, 125).

As histórias vêm antes da literatura. Antes da palavra escrita, dos símbolos, do papel impresso, até mesmo antes das tábuas, as narrativas já cá estavam. E enquanto a primeira história tem a idade do primeiro movimento do mundo, a primeira história partilhada só pode ser contemporânea do primeiro homem. Seja qual for o seu nome ou até a sua proveniência, o que importa é que com ele começam as narrativas. 

A partir da primeira experiência nasce a partilha, e da partilha nasce a comunidade. E embora seja impossível saber quando foi que o primeiro ser humano contou uma história a outro, supõe-se que a primeira troca de experiência tenha sido transmitida de maneira gestual. Um homem apontou ao outro um galho, uma corrente onde a água era mais fresca, ou até mesmo um animal ao longe. Com sorte, o primeiro gesto foi um toque – fazia frio no princípio do mundo, quem sabe se o homem inicial não colocou a mão sobre as costas do segundo homem para assim o proteger do vento. Logo depois, ou talvez antes, um apresentou ao outro o fogo.

Em volta do fogo sempre se contaram boas histórias. Basta que a labareda se levante para que o rol de narrativas comece a desenrolar-se. Mesmo sem palavras, o crepitar do lume já é só por si um contador de histórias. Imagine-se uma fogueira a arder sozinha, no mato, sem nenhum homem por testemunha: aquele ruído de madeira a queimar lenta, com os seus estalidos particulares, contém um dialeto específico, uma conversa, um linguajar antigo que vai contando as coisas devagar. Talvez seja por isso que, quando o homem se chega perto, acontece-lhe logo uma necessidade forte de dar continuidade à conversa. Perto do fogo as histórias nunca começam num ponto, elas apenas pegam num sinal qualquer que já lá estava. Junto ao fogo não há tempo, sem século, nem seque a hora fixa. Frente ao fogo, todos somos ouvintes.

Muito depois do átomo solitário a expandir-se, depois do levantar do fogo e das estrelas dissipadas, nasceu nalgum lugar um leito. Primeiro, quem sabe, feito de um molho de folhas estendidas no chão, ao relento. Mais tarde um tecido forte atado entre duas árvores, e mais tarde ainda a cama, construída a partir da madeira que um dia ardeu nas chamas, e que com certeza num outro dia voltará a arder. Sobre cada um desses leitos uma mulher ou um homem conta histórias. Por vezes um ao outro, outras vezes a si mesmos, em surdina. Ulisses regressa a Ítaca para se deitar na cama que ele mesmo esculpiu na oliveira, e só aí, em posição horizontal e de corpo despido, que Penélope o legitima por inteiro. Depois do reconhecimento, Ulisses baixa as armas e conta à sua mulher as peripécias da viagem.»

Flecha / Matilde Campilho. Lisboa: Tinta da China, 2020.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Estante de leitura – Manual de sobrevivência de um escritor

“Afinal as, as únicas coisas que valem a pena fazer-se
são aquelas que te podem partir o coração.” (Colum McCann)

Um escritor é, antes de mais (ou apesar de tudo), um observador estupefaco da disfunção humana ou da membrana de isolamento que existe entre si e o mundo, entre si e os outros, entre os outros e os outros. Perante esta “desaquaduação” das coisas a resposta humana tem sido, desde os primórdios daquilo que somos, a tentativa de controlar o caos e de o ordenar segundo um plano, enformado pela linguagem. Das pinturas rupestres à maravilhosa prosa de Faulkner, dos hieóroglifos egípcios ao assombro de Joyce em Finnegan’s Wake, tudo serviu para delimitar e conter a propensão da vida para a catarse, a dispersão. A  literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana. (…)
A escrita não é terapia – ou teria uma “função”, o que arruinaria a maravilhosa ideia de inutilidade hoje associada à  literatura ou às artes em geral. Durante séculos,a expressão artística esteve intimamente ligada ao útil, no sentido da construção e edificação do carácter e do espírito. Com a emergência do capitalismo, no século XX, o útil transformou-se num meio para chegar a um fim, e, portanto, a arte passou a estar ausente desta definição.
Graham Greene descreveu a escrita como “uma forma de terapia” e acrescentou: “Por vezes pergunto-me como é que todos aqueles que não escrevem, compõem ou pintam são capazes de fugir à loucura, à melancolia, ao pânico e ao medo que é inerente à condição humana.”
Green concorda com Byron quando ele disse: “Se não escrever para esvaziar a minha mente, enlouqueço”; e sem dúvida que Somerset Maugham concorda com ambos. N’O Véu pintado podemos ler: Tenho a ideia de que a única coisa que torna possível encarar este mundo em que vivemos sem desprezo é a beleza que, de vez em quando, os homens geram a partir do caos. As pinturas que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, e as vidas que vivem. De todos estes exemplos, o mais rico em beleza é a vida bela. É a  obra de arte perfeita.”
Claro que Maugham está a enganar subtilmente o leitor. A “vida bela” depende da quantidade de coisas belas que nela estão inscritas; além da beleza natural o belo surge no ato de criação e, portanto, depende desse gesto que fazemos ao tentar gerar sentido a partir do caos.
O sentido foge à literalidade das coisas.

Manual de sobrevivência de um escritor / João Tordo. Lisboa: Companhia das Letras: 2020.