quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Estante de leitura – Criação (IX)

"Lavo as feridas com álcool. Ao balcão de um café de má fama, no coração movimentado da cidade. Paredes sujas. Ar rarefeito. Corpos pelo chão. Cheiro a gordura e a alho. Luz baixa. Murmúrios que também são silêncios. Uma televisão muda. Prateleiras de pó com garrafas para consumo no estabelecimento. Corpos no chão. Os corpos dos eus que me matei.

Sou um não abrigo. Já ninguém mora em mim. Sou agora um edifício devoluto. Portas e janelas vedadas com cimento. Ninguém mais entra. Não me crio mais ninguém. Tenho sangue nas mãos. Tenho sangue e cimento nas mãos.
A cidade invadida pelo motim das gentes de mim. Cruel e vil população. Monstro de mil cabeças e vontades. Ditando a revolta. Decretando liberdades. Impondo-me destruição. Se era para matar, matei. Venci. Extingui-me. Auto genocídio. Criei e matei em dias contados pelos dedos de duas mãos. Antes destruir-nos que ver-nos partir de mim.
Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir as vozes do contentamento. Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir a devastação. Cá dentro, no meu lado de dentro, já tenho a paz e o júbilo do meu próprio caos. Desfruto do prazer banal do vinho-sangue. A sede é um incêndio.
Abdico das minhas magras competências para deus. Não me servem as peles de herói. Não me servem as vestes de herói sensato. Esqueci-me do saber em alguma paisagem distante. A glória é um horizonte sem lugar.
O mais difícil sempre foi escolher o eu certo para o amanhã certo.
Quem deveria acordar no dia seguinte. Para não matar e para não morrer. O mais difícil foi acertar. Decidir sem culpas. Sem despistes. Manter a obediência às expectativas. Rodar o tambor, premir o gatinho e calhar na câmara vazia. Para não matar. Para não morrer.
Após a ambição. Após a descontrolada multiplicação. Após a metamorfose. Depois da urgência. Depois de amar. Depois dos sentidos em turbilhão. Depois de cair. Depois de criar raízes. Depois de arrancar raízes. Apenas o deixar de querer. Desapego. Tédio. Abandono. Amnésia.
Melhor não acordar no fim. Cumprir pena. Viver um sono eterno. Deixa-me ser aqui.
Melhor não acordar no fim."

Armanda Azevedo, “Dia 9 – Todos os dias seguintes”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – daniel-ablitt-heart-of-the-forest