Sou um não abrigo. Já ninguém mora em mim. Sou agora um edifício devoluto. Portas e janelas vedadas com cimento. Ninguém mais entra. Não me crio mais ninguém. Tenho sangue nas mãos. Tenho sangue e cimento nas mãos.
A cidade invadida pelo motim das gentes de mim. Cruel e vil população. Monstro de mil cabeças e vontades. Ditando a revolta. Decretando liberdades. Impondo-me destruição. Se era para matar, matei. Venci. Extingui-me. Auto genocídio. Criei e matei em dias contados pelos dedos de duas mãos. Antes destruir-nos que ver-nos partir de mim.
Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir as vozes do contentamento. Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir a devastação. Cá dentro, no meu lado de dentro, já tenho a paz e o júbilo do meu próprio caos. Desfruto do prazer banal do vinho-sangue. A sede é um incêndio.
Abdico das minhas magras competências para deus. Não me servem as peles de herói. Não me servem as vestes de herói sensato. Esqueci-me do saber em alguma paisagem distante. A glória é um horizonte sem lugar.
O mais difícil sempre foi escolher o eu certo para o amanhã certo.
Quem deveria acordar no dia seguinte. Para não matar e para não morrer. O mais difícil foi acertar. Decidir sem culpas. Sem despistes. Manter a obediência às expectativas. Rodar o tambor, premir o gatinho e calhar na câmara vazia. Para não matar. Para não morrer.
Após a ambição. Após a descontrolada multiplicação. Após a metamorfose. Depois da urgência. Depois de amar. Depois dos sentidos em turbilhão. Depois de cair. Depois de criar raízes. Depois de arrancar raízes. Apenas o deixar de querer. Desapego. Tédio. Abandono. Amnésia.
Melhor não acordar no fim. Cumprir pena. Viver um sono eterno. Deixa-me ser aqui.
Melhor não acordar no fim."
Armanda Azevedo, “Dia 9 – Todos os dias seguintes”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
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