quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Estante de leitura – A cidade das palavras

"A linguagem, como em tempo a conhecemos, não só nomeia, mas também dá existência à realidade: um ato conjuratório alcançado por intermédio das palavras e daqueles relatos dos acontecimentos da realidade a que chamamos histórias. 

As histórias, afirmou Döblin, são o nosso modo de registar a nossa experiência do mundo, de nós próprios, dos outros. As histórias destilam a nossa aprendizagem e conferem-lhe forma, narrativa, para que através de variações de tom e de estilo e de episódios consigamos não esquecer o que aprendemos.   
As histórias são a nossa memória, as bibliotecas são como que armazéns dessa memória, e a leitura é o labor através do qual podemos recriar essa mesma memória. Recitando-a e dando-lhe brilho, traduzindo-a para a nossa própria experiência, o que permite que nos ergamos sobre aquilo que  as gerações anteriores consideraram digno de preservação. (…) Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias desfrutar das experiências passadas de outros, como se fosse nossa. Em certas condições, as histórias podem ser-nos úteis. Por vezes podem curar-nos, iluminar-nos e mostrar-nos o caminho. Sobretudo, podem recordar-nos a nossa condição, romper a aparência superficial das coisas e fazer-nos tomar consciência das correntes e profundezas que lhe subjazem. As histórias podem alimentar a nossa consciência, o que pode conduzir à nossa faculdade de conhecer, se não quem somos, pelo menos que somos, uma percepção essencial que se desenvolve por meio do confronto com a voz de outrem.
Se ser é ser percepcionado, então, conhecer o que somos requer o conhecimento dos outros a quem percepcionamos e que nos percepcionam. Poucos métodos são tão adequados a esta tarefa de percepção mútua, como contar histórias.
Imaginar histórias, contar histórias, escrever histórias – tudo isso são artes complementares que emprestam palavras ao nosso sentido da realidade e podem servir de aprendizagem, transmissão de memória, instrução ou advertência. Em anglo-saxão arcaico a palavra “poeta” era “criador”, termo que alia o significado da tessitura das palavras ao da construção do mundo material. Adão, na Bíblia, ao nomear as coisas conferiu-lhes existência. “As nossas palavras, concedem-nos um lugar tanto no espaço, como no tempo.”
Os criadores dão forma às coisas, fazendo-as existir, atribuindo-lhes uma identidade intrínseca. Imóveis num canto das suas oficinas e no entanto errando nas correntes do rosto da humanidade, os criadores refletem o mundo nas suas rupturas e mutações constantes e espelham em si mesmos as formas instáveis da nossa sociedade, tornando-se “pára-raios celestiais” (Rubén Darío), ao perguntarem ininterruptamente “quem somos” e ao oferecerem o espectro de uma resposta nos termos da própria pergunta."

A cidade das palavras / Alberto Manguel ; trad. Maria de Fátima Carmo ; rev. Rita Almeida Simões. – 1ª ed. – Lisboa : Gradiva, 2011. – 158, [3] p. ; 23 cm. – (Trajectos ; 87). – Tít. orig.: The city of words. – Bibliografia, p. 143-150. – ISBN 978-989-616-430-0   

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Estante de leitura – O livro do silêncio

"São as primeiras horas do dia. É uma manhã de extraordinária radiância – por estranho que pareça, cá em cima praticamente não há vento. O silêncio é quase perfeito: alguns pássaros pequemos chilreiam de vez em quando e, há pouco, um par de corvos passou a esvoaçar, produzindo os seus habituais ruídos ásperos. É o primeiro dia de outubro, pelo que os maçaricos-reais e os ostraceiros já desceram até à linha costeira. (…) 

Estou sentada no degrau da frente da minha casinha, com uma chávena de café na mão, a olhar para baixo, para o vale, para a minha paisagem extraordinária de nada. É maravilhosa. (…) Na verdade, não é “nada” – são as formações das nuvens e os diferentes movimentos que o vento produz sobre os juncos, ervas, urze e fetos, além da mudança das cores, não apenas no decorrer do ano, mas ao longo do dia, enquanto o Sol e as nuvens se alternam e modificam -, mas, num outro sentido é o enorme nada que me atrai. Olho para ele e, como tenho menos coisas para observar, vejo melhor. Ouço o nada, e as suas melodias e ritmos silenciosos soam harmonicamente. A linha irregular do monte, com os postes de telégrafo e de eletricidade montados sobre ela, contém o silêncio, como se o encerrasse no interior de um recipiente, e abaixo de mim consigo ver umas faixas prateadas ocasionais e aparentemente desligadas, que constituem, de facto, o pequeno rio que serpenteia ao longo do vale.  
Há três minutos – é uma bênção, algo que não se pode pedir nem prever -, um milhafre passou em voo ao longo do regato, a não mais de vinte metros da porta. Não há muitas pessoas que tenham um milhafre no quintal, eles são relativamente raros na Grã-Bretanha, pois nas Terras Altas da Escócia vivem pouco mais de cem casais de milhafres. São aves ligeiramente mais pequenas e muito mais leves do que os bútios, e habitam em terrenos desolados. Os milhafres machos, se vistos a partir do solo, assemelham-se a fantasmas – completamente brancos, com excepção das cabeças cinzentas, mas têm as pontas das asas claramente negras. Caçam a baixa altitude e planam no ar, formando um V pouco acentuado com as asas; caçadores poderosos, belos, livres. Eles representam para mim o grande silêncio dos montes; eles acolheram-me nesse silêncio."

O livro do silêncio / Sara Maitland ; trad. Jorge Almeida e Pinho ; rev. Ayala Monteiro. – 1ª ed. – Alfragide : Estrela Polar, 2011. – 397, [3] p. ; 24 cm. – Tit. orig.: A book of Silence. – ISBN 978-989-8206-70-1

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Estante de leitura – Viagens

"Quando viajo, desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se estou já no ponto de chegada. Será que existe um “entre” as duas coisas? Ou serei eu como aquela noite recuperada quando se viaja para oeste? Será que sou regida por aquela lei que é o orgulho da Física Quântica – a partícula pode existir simultaneamente em dois lugares distintos? Ou talvez por outra lei, ainda desconhecida e por comprovar – a de poder não existir duplamente num mesmo lugar?

Penso que há muitas pessoas como eu. Desaparecidas, ausentes que, de repente, aparecem nos terminais dos aeroportos e só começam a existir quando os funcionários da alfândega lhe carimbam os passaportes ou quando um gentil recepcionista de hotel lhes entrega uma chave. Já devem ter descoberto a sua instabilidade e a sua dependência de lugares, horas do dia, línguas ou cidades e suas ambiências. Fluidez, mobilidade, ilusão – eis o que significava ser civilizado. Os bárbaros não viajam, dirigem-se diretamente para o destino ou, então, fazem incursões.

Assim pensa a mulher que me oferece um chá de plantas, guardado num termo, enquanto aguardamos o autocarro que nos leva da estação para o aeroporto. Tem, nas mãos pintadas com hena, um padrão complicado que se esbate a cada dia que passa. Quando nos sentamos, dá-me uma lição sobre a noção do tempo. Afirma que os povos sedentários, que se dedicam à agricultura, preferem os prazeres facultados pelo tempo circular, no seio do qual todos os acontecimentos retornam ao seu próprio princípio, enroscando-se para formar um embrião e repetir o processo de amadurecimento e de morte. Mas os nómadas e os mercadores, que se encontram constantemente em viagem, tiveram de inventar um tipo de tempo que melhor se adaptasse à sua condição de viajantes. Trata-se de um tempo linear, mais prático, que lhes permite medir a distância percorrida até alcançar o destino e a evolução dos proveitos obtidos. Cada momento é único e nunca se repete, o que favorece o risco, reforça o usufruto do presente e a fruição do momento. Mas, no fundo, trata-se de uma amarga descoberta – se a mudança no tempo se torna irreversível, a perda e o luto tornam-se algo quotidiano e, por tal razão, os seus lábios jamais dirão palavras como “esgotado” ou “inútil”.
– Esforços inúteis, contas bancárias esgotadas – ri-se a mulher, pondo as mãos pintadas atrás da cabeça.

Diz que a única maneira de sobreviver num tempo linear que se distende é conservando a distância, uma dança que consiste em aproximar-se e afastar-se, um passo para a frente e um passo para trás, um passo para a esquerda, outro para a direita – passo fáceis de decorar. E quanto maior o mundo se tornar maior será a distância que pode ser dançada desta maneira – emigrar para além de sete mares, para além de duas línguas e de uma religião.
Eu, porém, tenho uma opinião diferente sobre a noção de tempo. O tempo de todos os viajantes é constituído por muitos tempos reunidos num, uma multiplicidade de tempos. Há o tempo insular, arquipélagos da ordem, no oceano do caos; há o tempo produzido pelos relógios das estações de comboios, que é diferente consoante os lugares; há o tempo convencionado do meridiano e, por conseguinte, é bom que ninguém o leve muito a sério. Há as horas que desaparecem num avião em pleno voo, onde o amanhecer é repentino como um relâmpago e, logo, ameaçado pelo meio-dia e pelo anoitecer. Há o tempo caótico das grandes cidades onde permanecemos um momento para nos entregarmos à escravidão de um serão. E há o tempo preguiçoso das planícies desabitadas, vistas do alto de um avião.
Também acho que o mundo se encontra no interior de nós próprios."

Viagens / Olga Tokarczuk ; trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz ; rev. Raquel Lopes. – 1ª ed. – Amadora : Cavalo de Ferro, 2019. – 343, [4] p. : il. ; 24 cm. – ISBN 978-989-623-270- 

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Estante de leitura – África minha

 "Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. 
O equador passa a cento e sessenta quilómetros a norte desta região, e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-nos perto do Sol, mas as madrugadas e os fins de tarde eram límpidos e tranquilos e as noites frias. 

A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável. A terra não era farta nem luxuriante; era África destilada por dois mil metros de altitude, a essência forte e depurada de um continente.  As cores eram secas e queimadas como as da cerâmica. As árvores tinham uma folhagem leve e delicada, com uma estrutura diferente das da Europa; não crescia em arcos nem em cúpulas, mas em camadas horizontais, fazendo com que as árvores solitárias e altas se assemelhassem a palmeiras ou conferindo-lhes um ar heroico e romântico de galeras de velas desfraldadas, e à orla da floresta uma estranha aparência, como se toda ela vibrasse ligeiramente. Sobre a erva das vastas planícies havia velhas árvores dispersas, retorcidas e espinhosas, e a erva era aromática como o tomilho e a murta; em certos lugares o odor era tão intenso que fazia arder as narinas. Todas as flores que se encontravam nas planícies ou nas trepadeiras e lianas da floresta eram minúsculas como as flores dos prados, e só no início da longa estação das chuvas florescia uma profusão de grandes lírios perfumados. Os panoramas eram imensamente vastos e tudo o que se avistava evocava grandeza, liberdade e uma incomparável nobreza. 
A principal característica da paisagem, e da vida que nela se vivia, era o ar. Ao recordar uma temporada passada nos planaltos africanos fica-se com a impressão de ter vivido, durante algum tempo, suspenso. O céu raramente tinha uma tonalidade mais forte do que o azul-pálido ou lilás, com uma profusão de nuvens imensas, imponderáveis, em constante mutação, acasteladas ou parecendo vogar, mas era sempre de um azul vigoroso que, a uma curta distância, tingia as cordilheiras e os bosques de um azul-escuro intenso. A meio do dia, o ar era uma coisa viva sobre a terra, como uma chama a arder; cintilava, ondeava e brilhava como água corrente, espelhava e duplicava todos os objetos, criando grandes miragens. Nos cumes lá do alto, respirava-se com facilidade e inalava-se uma confiança vital e leveza no coração. Quando se acordava de manhã, pensava-se: “Aqui estou eu, onde devia estar.”

África minha ; e sombras no capim / Karen Blixen ; trad. Ana Falcão Bastos, Cláudia Brito ; rev. Silvina de Sousa. – 1ª ed. – Lisboa : Clube do Autor, 2011. – 433, [2] p. : il.