terça-feira, 29 de maio de 2018

A gente se acostuma…

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colansanti, "Eu sei, mas não devia". Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1996. Imagem: © Luís Godinho 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Estante de leitura – Criação (VII)

  "Hoje persegui um telhado…. Hoje persegui um telhado…
  Queimava com o resto de um cigarro alguns pensamentos, daqueles que costumam doer e olhava o que existe do lado de fora da minha janela. Lá, rasgando a linha por cima de todas as coisas que meus olhos alcançavam, chamava-me especial atenção um telhado.
   Todos os telhados são telhados vermelhos, iguais aos desenhos que pintávamos, com lápis de cera. Pintávamos telhados vermelhos em folhas brancas assentes nas mesas gastas da escola primária. A folha ganhava o relevo da madeira velha, a madeira velha ganhava alguma cor vermelha do lápis de cera, a cera deixava nos dedos o cheiro igual ao da missa de domingo de manhã.
  Este telhado era um telhado cor de dia de chuva. Não havia nele o calor da recordação dos nossos desenhos de meninos.
  Este telhado apontava austeramente para o céu. Este telhado tinha janelas a toda a volta. Este telhado, certamente, era habitado por um qualquer ser que eu teria sido capaz de inventar com todos os pormenores e em toda a sua existência, aos meus primeiros anos de idade, quando ainda pintava telhados vermelhos na mesa gasta da escola primária.
   Os meus dedos hoje cheiram a cigarros fumados continuadamente.
Hoje eu já não sei qual o cheiro das missas ao domingo de manhã. Já não sei se há daquela brisa que nessas manhãs me tocava o rosto e me fazia sorrir, enquanto fazia todo o caminho com a minha mão apertada dentro da mão da minha mãe. Também já não sei se existem ruas iguais às ruas por onde caminhávamos. Nessas ruas, que começavam na porta de minha casa e iam para todos os lugares, cabia toda a minha curiosidade. E como eram longe todos os lugares e como proporcionavam aventuras sempre novas! Mesmo que o caminho demorasse apenas dois minutos.
   Desci as escadas e saí para a rua a partir da porta da minha casa de hoje. A rua que começa na porta da minha casa de hoje apenas vai dar a uma outra rua. As ruas hoje continuam grandes, não por terem capacidade de guardar a curiosidade de uma criança, mas simplesmente porque me cansam. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é medido em tempo. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é medido em passos. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é preenchido por aventuras. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é preenchido por pensamentos… daqueles que costumam doer."

  Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem: © – m-ban