segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Estante de leitura - acolher

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() O dia está quente, luminoso. com manchas de sombra e uma luz esverdeada súbita ao longo da estrada. (…) Aqui e ali, o azul está esborratado com nuvens, mas, no geral, é uma mistura estonteante de céu e árvores atravessados por cabos de eletricidade em cima dos quais, de vez em quando, se veem pequenos bandos acastanhados de pássaros evanescentes.
E os dias vão passando. Estou sempre à espera de que algo aconteça, que a descontração que sinto chegue ao fim: acordar numa cama molhada, fazer alguma asneira, uma gafe grande, partir algo, mas cada dia que passa é igual ao anterior. Acordamos com o nascer do sol e, ao pequeno – almoço, comemos ovos preparados de uma maneira ou de outra, acompanhados com torrada e marmelada. (…)
Uma Lua enorme brilha sobre o pátio, delineando o nosso trajeto até ao caminho de acesso e depois ao longo da estrada.

O Kinsella dá-me a mão. Assim que ele o faz, ocorre-me que o meu pai nunca me segurou a mão, e uma parte de mim deseja que o Kinsella ma largue, para que eu não tenha de sentir isto. É um sentimento complicado, mas, à medida que continuamos, começo a sentir-me mais à vontade e aceito a diferença entre a minha vida em casa e aqui. Ele dá passos mais pequenos, para que possamos caminhar lado a lado. Penso na mulher na casa pequena, na maneira como caminhava e falava, e concluo que as pessoas são todas muito diferentes. (…)
«Às vezes acontecem coisas estranhas – continua ele. – Esta noite também te aconteceu uma coisa estranha, mas a Edna não fez por mal. É demasiado boazinha, ela. Está sempre à procura do que há de melhor nas outras pessoas, e, às vezes, a sua maneira de o encontrar é confiando nelas, esperançosa de que não a desiludirão, só que às vezes desiludem.» (…) “

Tudo nessa noite me parece estranho: visitar um mar que sempre ali esteve, vê-lo e senti-lo e temê-lo na meia-luz, e ouvir este homem dizer coisas sobre cavalos no mar, sobre a mulher dele confiar em pessoas para saber em quem não confiar, coisas que não compreendo muito bem, coisas que talvez nem sejam para os meus ouvidos.
Continuamos a andar até alcançarmos uma zona onde os penhascos e as rochas se estendem até à água. Agora que não podemos continuar em frente, temos de voltar para trás. Talvez o caminho de regresso me ajude a compreender o passeio até aqui. Aqui e ali , cintilam conchas lisas e brancas deixadas pelas ondas. Baixo-me para as colher. Sinto-as suaves e limpas e frágeis nas minhas mãos. Damos meia-volta e continuamos ao longo da praia, parecendo percorrer uma distância maior do que aquela que atravessámos até alcançarmos o sítio onde já não havia passagem, e então a Lua desaparece atrás de uma nuvem meio escura, e deixamos de ver o caminho. Nessa altura, o Kinsella deixa escapar um suspiro, para e acende a lanterna. (…)

Quando a Lua torna a parecer, ele desliga a lanterna e, sob a luz do luar, encontramos facilmente o caminho que fizemos desde as dunas. Quando chegamos ao cimo, ele não me deixa calçar os sapatos, e em vez disso calça - mos ele. Em seguida, calça-se e aperta os atacadores. Depois ficamos ali parados, a contemplar a água.
– Estás a ver, agora há três luzes, quando antes só havia duas.
– Olho para o mar. Ao fundo, as duas luzes continuam a piscar como antes, mas agora com outra luz, essa fixa, brilhando no meio delas.
– Consegues vê-la? – pergunta-me.
– Sim – respondo. Está ali.
E é então que ele põe os braços à minha volta e me puxa para um abraço, como se eu lhe pertencesse. (…)
Agora que sei que tenho de voltar para casa, quase me apetece ir, só para despachar a coisa. (…).
A mulher dá-me uma mala de couro castanha.
– Podes ficar com esta coisa velha- diz-me . – Nunca vamos a lado nenhum, e nunca lhe dou uso.
Dobramos todas as minhas peças de roupa e guardamo-las dentro da mala, juntamente com os livros que comprámos na Webb’s em Gorey: Heidi, O que Katy fez a seguir, A Rainha da Neve. No início, vi-me aflita com algumas das palavras maiores, mas o Kinsella apontava-me cada uma delas com a unha, com grande paciência, até eu adivinhar, ou quase a adivinhar, e depois comecei a fazê-lo sozinha, até já não precisar de adivinhar, e li tudo até ao fim. Foi como aprender a andar de bicicleta; senti-me a arrancar, senti a liberdade de ir a sítios onde não poderia ter ido antes, e foi muito fácil.

Keegan, Claire. (2023). Acolher. Lisboa: Relógio D ´Agua.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Estante de leitura - Os meus dias na Livraria Morisaki

 “Quando mais tarde, chegou o meu tio, encontrou-me ainda inflamada. Como estava habituada ao meu acolhimento morno, ficou pasmado.

– Este livro é belíssimo – disse eu, mostrando-lhe Até à Morte de uma Rapariguinha.
O seu rosto iluminou-se, parecia uma criança que acabara de receber um presente de aniversário maravilhoso.
– É verdade! Que bom que também aches – exclamou, todo entusiasmado.
– Sim, é mesmo um belo livro. Como posso dizer… Prendeu-me.
Irritava-me não conseguir explicar melhor. A expressão “prendeu-me” não transmitia, nem de perto, nem de longe, a ideia do alvoroço interior que aquele livro provocara em mim.
– É fantástico ouvir-te dizer isso. E, ainda por cima, foste ler um autor fora de moda como Murō Saisei, parabéns.
O tio estava tão feliz que também me contagiou.
Então, começámos a falar do livro e assim ficámos durante algum tempo. Eu estava contente por ter finalmente algo em comum com alguém. Mesmo que fosse o meu tio, aliás, estava emocionada precisamente porque se tratava de uma pessoa como ele.
As situações inesperadas abrem-nos portas que nem sequer imaginávamos. Era mesmo assim que me sentia.
E, de facto, a partir daquele momento, comecei a ler um livro atrás de outro. Era como se a sede de leitura, há muito adormecida dentro de mim, tivesse explodido de repente.
Tentava saborear os livros que lia, um de cada vez, devagar. Tinha todo o tempo do mundo, e, quanto aos livros, não corria o risco de ficar sem exemplares.
Nagai Kafū, Jun’ichirō Tanizaki, Dazai Osamu, Haruo Satō, Akutagawa Ryūnosuke , Uno Kōji… Nomesde que já ouvira falar, mas dos quais nunca lera nada, ou que me eram completamente novos, não importava: se me despertavam a curiosidade, pegava neles e lia-os avidamente. E quantos mais lia, mais queria ler.
Era a primeira vez que viva uma experiência tão maravilhosa. Quase parecia que desperdiçara anos de vida.
Deixei de dormir horas e horas, já não sentia essa necessidade. Ao invés de me refugiar no sono, quando o meu tio me substituía, ia a correr ler num café ou no meu quarto.
Aqueles livros velhos escondiam histórias, para mim, inimagináveis. E não me refiro apenas àquilo que contavam. Em cada um encontrei vestígios do passado.
Por exemplo, em Paisagem de Uma Alma, de Kajii Motojirō, li:

“O que significa observar? Significa transferir para um objeto parte da sua alma, se não a sua totalidade.

Alguém a ler esta frase, devia ter-se emocionado e sublinhara-a a caneta. Eu, que também me emocionara, senti uma afinidade com aquele desconhecido e fiquei feliz.
Aconteceu-me também encontrar flores secas usadas para marcar a página onde se parara. Quando acontecia, cheirava-as e fantasiava sobre quem, quando e em que estado de espírito as deixara entre aquelas páginas amarelecidas.
Eram encontros que ultrapassavam as barreiras temporais, apenas possíveis através dos livros velhos. E assim comecei a afeiçoar-me à livraria Morisaki, que estava repleta de livros velhos. Poder passar horas naquele pequeno mundo sereno parecia-me um privilégio.

Yagisawa, Satoshi. (2023). Os meus dias na livraria Morisaki. Barcarena: Editorial Presença