Entre laranjeiras e roseiras, entre a manhã, a tarde e a noite, e um fundo de esmerados cultivos, deu-se um grande combate, um combate que mais parece um exercício de esgrima e não de morte. Cada dia da nossa vida é assim, uma batalha em três andamentos: o acordar, na sua luz branca – das interrogações; caminha-se para a tarde, na sua luz quente-os cães ladram, as vozes alteram-se, passa o carteiro; e depois o fim do dia, o fim do combate – rodam-se os anéis encravados nos dedos inchados, fecham-se as portadas à lua de prata, às vezes um relâmpago ao longe, e adormece-se, talvez. E tudo é nada.
A poesia das paisagens, é a sua história que a alimenta. Há, no entanto, tempos de pousio, uma espécie de morte, de cansaço da natureza. Uma espécie de vingança daqueles que já não as percorrem, e as apagam, até um dia, em que a nova geração as redesenhe e ocupe. Será outra coisa. Ou a mesma, porque a natureza não tem imaginação, nem os homens. (…)
Eram seus encontros, os pássaros saltitantes de galho em galho; as galinhas assustadiças nos quinteiros isolados; o som dos cantares longínquos, e interrompidos, das moças nos tanques-lavadouros; o sino do Mosteiro ou da Igreja do Salvador de Real; o cruzar-se com este e aquele, que paravam a contar os desaires dos negócios e da vida. Agustina aprendeu a ouvir e a falar com todas estas criaturas que faziam parte da Natureza, e que contavam os dias pela sua justa medida de tempo. Sábio ensinamento, esse, que ela levou no seu coração, que é a nossa máquina perfeita, de medir o tempo.
Os veios de água que desciam das minas até ao caminho formavam pequenas pias de agrieiras.
As descrições de lugares e de paisagens, depois, nos seus romances, podem ser destacadas como poemas intemporais, com uma raiz longínqua nos poetas da Antiguidade.
D. Amelinha entrava na feira discretamente e dirigia-se aos feirantes do ouro. Aí, meio encoberta por uma manta suspensa do toldo, sentava-se num banquinho e apreciava, escolhia, negociava, os brincos com turquesas, os cordões de cinco voltas, os anéis de desenho antiquíssimo, onde se vincavam símbolos dos quais se perdera já o significado. Mas lá estavam.
Hoje, imagino esse cenário, num filme de Kurosawa! As mesmas figuras, esfumadas na paisagem; os mesmos gestos repetidos, baloiçados, na rotina diária; o mesmo movimento secular, entre o nascimento e a morte. Tudo era um sonho. Como se à volta da vessada se perfilassem os espíritos do milheiral, encarnados em bonecos de corda, os contadores da história daquela mulher franzina, de olhos amendoados e semicerrados, e de tantos saberes e incumbências.
E a pequena Agustina captava esse sonho, entrava nele, e aprendia as artes.
Ah!… A Sibila é um sonho contado.”
“Às vezes sentava-me no degrau da cozinha, e pensava que não podia haver pacto com os outros, mas sim a renúncia da nossa presença; o auge da despedida” (Agustina, “poema pessoal” (1967), Ensaios e Artigos, 2017).
As Sibilas – Diálogos em Sfumato / Mónica Baldaque. Lisboa. Relógio D` Água, 2022.

