sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Estante de leitura – As Sibilas – Diálogos em Sfumato

 Um livro nasce dum desejo profundo de relacionamento com aqueles que nos são caros.” Agustina Bessa-Luís, “Os Incuráveis: Revelação e Criação”, conferência, 15.03.1984.

Entre laranjeiras e roseiras, entre a manhã, a tarde e a noite, e um fundo de esmerados cultivos, deu-se um grande combate, um combate que mais parece um exercício de esgrima e não de morte. Cada dia da nossa vida é assim, uma batalha em três andamentos: o acordar, na sua luz branca – das interrogações; caminha-se para a tarde, na sua luz quente-os cães ladram, as vozes alteram-se, passa o carteiro; e depois o fim do dia, o fim do combate – rodam-se os anéis encravados nos dedos inchados, fecham-se as portadas à lua de prata, às vezes um relâmpago ao longe, e adormece-se, talvez. E tudo é nada.
A poesia das paisagens, é a sua história que a alimenta. Há, no entanto, tempos de pousio, uma espécie de morte, de cansaço da natureza. Uma espécie de vingança daqueles que já não as percorrem, e as apagam, até um dia, em que a nova geração as redesenhe e ocupe. Será outra coisa. Ou a mesma, porque a natureza não tem imaginação, nem os homens. (…)
Eram seus encontros, os pássaros saltitantes de galho em galho; as galinhas assustadiças nos quinteiros isolados; o som dos cantares longínquos, e interrompidos, das moças nos tanques-lavadouros; o sino do Mosteiro ou da Igreja do Salvador de Real; o cruzar-se com este e aquele, que paravam a contar os desaires dos negócios e da vida. Agustina aprendeu a ouvir e a falar com todas estas criaturas que faziam parte da Natureza, e que contavam os dias pela sua justa medida de tempo. Sábio ensinamento, esse, que ela levou no seu coração, que é a nossa máquina perfeita, de medir o tempo.
Os veios de água que desciam das minas até ao caminho formavam pequenas pias de agrieiras.
As descrições de lugares e de paisagens, depois, nos seus romances, podem ser destacadas como poemas intemporais, com uma raiz longínqua nos poetas da Antiguidade.
D. Amelinha entrava na feira discretamente e dirigia-se aos feirantes do ouro. Aí, meio encoberta por uma manta suspensa do toldo, sentava-se num banquinho e apreciava, escolhia, negociava, os brincos com turquesas, os cordões de cinco voltas, os anéis de desenho antiquíssimo, onde se vincavam símbolos dos quais se perdera já o significado. Mas lá estavam.
Hoje, imagino esse cenário, num filme de Kurosawa! As mesmas figuras, esfumadas na paisagem; os mesmos gestos repetidos, baloiçados, na rotina diária; o mesmo movimento secular, entre o nascimento e a morte. Tudo era um sonho. Como se à volta da vessada se perfilassem os espíritos do milheiral, encarnados em bonecos de corda, os contadores da história daquela mulher franzina, de olhos amendoados e semicerrados, e de tantos saberes e incumbências.
E a pequena Agustina captava esse sonho, entrava nele, e aprendia as artes.
Ah!… A Sibila é um sonho contado.”

“Às vezes sentava-me no degrau da cozinha, e pensava que não podia haver pacto com os outros, mas sim a renúncia da nossa presença; o auge da despedida” (Agustina, “poema pessoal” (1967), Ensaios e Artigos, 2017).

As Sibilas – Diálogos em Sfumato / Mónica Baldaque. Lisboa. Relógio D` Água, 2022.

sábado, 17 de setembro de 2022

Estante de leitura – Clarissa

“Sentado no banco do jardim, Amaro lê os seus poetas.

As folhas da árvore que lhe dá sombra, desenham arabescos móveis nas páginas do livro.

O jardim é uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, com uma folha de papel de seda levada. pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa se despetala lentamente e as pétalas rolam para o chão. Há pelos canteiros, verdes de todos os matizes. As glicínias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insetos minúsculos de asas coloridas.

Amaro fecha o livro e olha o jardim. Porque será que lhe vem à memória a imagem de Clarissa? Clarissa é parte integrante deste jardim florido e luminosos, Clarissa é como a relva veludosa, como as glicínias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia, menina e moça – olhos abertos para o mistério da vida, alma que amanhece.

Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele – insensato – pensava que a vida estava só nos livros…

Agora é tarde. tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete.

A hora rútila de Clarissa passará também. Amanhã ela se fará mulher de todo. Professora, irá para a sua cidade natal, onde decerto casará com o filho dum fazendeiro rico. Serão muito felizes, terão muitos pimpolhos gordos. Clarissa ganhará fatas carnes, ficará como a tia, será uma esplêndida dona de casa, que há-de saber fazer gostosos doces, e queijos e bolinhos…

Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Põe-se a caminhar dum lado para o outro, mãos às costas, o pensamento solto…

Clarissa! Agora ela é poesia, ingenuidade, ternura, incompreensão, encantamento… Para ela a vida está cheia de surpresas e de atrações irresistíveis. Mas amanhã que virá? Amanhã? A dissolução, a deformidade do corpo e do espírito. Hoje – a menina verde, fresca, risonha. Amanhã – a mulher gorda, senhora respeitável que sabe em que mês devemos plantar couves, que não acredita “nessas bobagens dos poetas”, e que nem sequer há - de saber ensinar aos filhos a mentira bonita dos contos de fadas. Dir-lhes-á com uma voz árida:

– As fadas não existem, nem as varinhas de condão.

Os poetas só dizem mentiras. Vocês devem mas é aprender as quatro estações, a curar bicheira e a dar banho de carrapaticida no gado. Isso é que vocês devem aprender, para juntar dinheiro, povoar a fazenda, comprar mais campo e ganhar prestígio político….

Amaro procura apagar o pensamento mau.

Agora compreende mais que nunca que só na arte a beleza é imortal. Canta-lhe na cabeça o verso de Keats:

A thing of beauty is a joy for ever.

Na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça.

Senta-se de novo, mais sereno.

Mas o momento luminoso de Clarissa ainda não passou. Ela vive aqui na pensão, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente….

E ele a poderá contemplar da sombra… Inspirado em Clarissa, há-de compor ainda muitas músicas frescas e alegres. A canção do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moça. Uma “suite” de cor e movimento que há-de se chamar: “Clarissa amanhece”.

Há-de compô-la em segredo, muito em segredo. Ninguém ficará sabendo.

E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim….”

A thing of beauty is a joy for ever.

Clarissa / Erico Veríssimo. São Paulo: Companhias das Letras, 2005.