"O século XVIII, sendo fundamentalmente o século da codificação e organização foi também, paradoxalmente, o século das liberdades – individuais, políticas e sexuais. Foi ainda o tempo das mais importantes revoluções de sempre: a Revolução Americana (1775 – 1781) que levou à independência dos Estados Unidos da América, e a Revolução Francesa (1787 – 1799), com o seu slogan de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O grito da liberdade generalizou-se – até o Don Giovani (1787) de Mozart canta “Viva la libertá!”. Curiosamente, a diferença entre a Europa e a América manifestou-se logo à nascença desta última. Ao contrário do que aconteceu com a Revolução Francesa (ou a Russa, 130 anos mais tarde), a Americana não conheceu o Terror ou as Grandes Purgas. Por isso, apesar do apelido, os Du Points foram mais americanos que franceses!
Inspirada no texto da constituição de certos estados americanos (como a Virgínia), a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada pela Assembleia Constituinte da França e aceite pelo Rei Louis XVI em 1789. Aí se consagrava a separação dos poderes (legislativo, executivo e judicial), que tinha sido primeiramente enunciada por Montesquieu no seu famoso Do Espírito das Leis (1748). Os outros pilares ideológicos da Declaração eram a doutrina dos direitos naturais desenvolvida pelo filósofo inglês John Locke e os conceitos de vontade colectiva e soberania da nação que vinham de Rousseau. É nessa declaração que se define Liberdade como “o direito de fazer tudo o que não prejudique os outros”.
Na mesma altura, o panfletista humanitário, Thomas Paine, inglês de nascimento, mas cidadão do mundo, publicou o seminal Direitos do Homem (em duas partes, 1791, 1792), em resposta às Reflexões sobre a Revolução em França (1790) de Edmund Burke, o teorizador do Sublime e do Belo, e sujeito claramente hostil à Revolução Francesa.
O Homem Sensível e Homem Político nasceram, de facto, no século XVIII. Simultaneamente emergiu a figura do cidadão e do indivíduo. Somos todos iguais em direitos, mas cada um de nós é um ser único e especial, um indivíduo ( a que se juntam as suas circunstâncias). A importância do indivíduo em relação à classe teve reflexos em artes tão diversas como a música e a literatura. Por exemplo, no desenvolvimento do concerto para solista (piano, violino, flauta, etc.) e orquestra, onde se assiste à afirmação gradual do indivíduo perante a massa sinfónica. O solista passa a ter direito a uma cadenza, isto é, a poder improvisar, sozinho, ao piano (ou com o violino, a flauta, etc.); a orquestra, entretanto emudece para ouvir a voz individual do intérprete. A conscencialização do indivíduo também deu origem ao personagem de ficção, isto é, possibilitou a criação do romance moderno, até aí confinado ao género epistolar ou, o teatro, construído com figuras-tipo, máscaras ou marionetas."
Jorge Calado. (2015). Haja Luz; uma história da química através de tudo. Lisboa. Instituto Sup. Técnico Press.

