sábado, 25 de fevereiro de 2017

Estante de leitura – Haja Luz!

"O século XVIII, sendo fundamentalmente o século da codificação e organização foi também, paradoxalmente, o século das liberdades – individuais, políticas e sexuais. Foi ainda o tempo das mais importantes revoluções de sempre: a Revolução Americana (1775 – 1781) que levou à independência dos Estados Unidos da América, e a Revolução Francesa (1787 – 1799), com o seu slogan de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O grito da liberdade generalizou-se – até o Don Giovani (1787) de Mozart canta “Viva la libertá!”. Curiosamente, a diferença entre a Europa e a América manifestou-se logo à nascença desta última. Ao contrário do que aconteceu com a Revolução Francesa (ou a Russa, 130 anos mais tarde), a Americana não conheceu o Terror ou as Grandes Purgas. Por isso, apesar do apelido, os Du Points foram mais americanos que franceses!

Inspirada no texto da constituição de certos estados americanos (como a Virgínia), a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada pela Assembleia Constituinte da França e aceite pelo Rei Louis XVI em 1789. Aí se consagrava a separação dos poderes (legislativo, executivo e judicial), que tinha sido primeiramente enunciada por Montesquieu no seu famoso Do Espírito das Leis (1748). Os outros pilares ideológicos da Declaração eram a doutrina dos direitos naturais desenvolvida pelo filósofo inglês John Locke e  os conceitos de vontade colectiva e soberania da nação que vinham de Rousseau. É nessa declaração que se define Liberdade como “o direito de fazer tudo o que não prejudique os outros”. 

Na mesma altura, o panfletista humanitário, Thomas Paine, inglês de nascimento, mas cidadão do mundo, publicou o seminal Direitos do Homem (em duas partes, 1791, 1792), em resposta às Reflexões sobre a Revolução em França (1790) de Edmund Burke, o teorizador do Sublime e do Belo, e sujeito claramente hostil à Revolução Francesa.

O Homem Sensível e  Homem Político nasceram, de facto, no século XVIII. Simultaneamente emergiu a figura do cidadão e do indivíduo. Somos todos iguais em direitos, mas cada um de nós é um ser único e especial, um indivíduo ( a que se juntam as suas circunstâncias). A importância do indivíduo em relação à classe teve reflexos em artes tão diversas como a música e a literatura. Por exemplo, no desenvolvimento do concerto para solista (piano, violino, flauta, etc.) e orquestra, onde se assiste à afirmação gradual do indivíduo perante a massa sinfónica. O solista passa a ter direito a uma cadenza, isto é, a poder improvisar, sozinho, ao piano (ou com o violino, a flauta, etc.); a orquestra, entretanto emudece para ouvir a voz individual do intérprete. A conscencialização do indivíduo também deu origem ao personagem de ficção, isto é, possibilitou a criação do romance moderno, até aí confinado ao género epistolar ou, o teatro, construído com figuras-tipo, máscaras ou marionetas."

Jorge Calado. (2015). Haja Luz; uma história da química através de tudo. Lisboa. Instituto Sup. Técnico Press. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Estante de leitura – Presa comum

"Faço soar as grades deste Inverno

com um candeeiro fraco ao meu lado.
Não estarás hoje à janela,
à procura de chuva
na frequência do oceano,
esperando melhores anos,
com esse rebuliço doméstico que
me atrapalha as asas de corvo.

Se por aqui dispensares ainda
as tuas horas extraordinárias,
peço-te que não sorvas o
entulho todo, que deixes
ao menos esta mão estendida,
debicando cega no anfiteatro
da nossa tarde Agosto."

Frederico Pedreira. (2015). “51”. Presa comum. Lisboa: Relógio d’ Água.