Tenho que ser mais longe.
A mão continua a escrever.
Escrever é continuar-me. É deixar-me sobre o papel. Fluir-me em tinta. Esculpir-me em palavra-pedra. Escrever é conversar com o futuro. Eternizar-me. Ludibriar o fim. Deixar-me para sempre.
Finjo a realidade letra a letra. Transverto em palavras as reminiscências do olhar. Torno-as belas na minha conceção de belo. Mascaro-as de mim. Uno-me a elas e continuamo-nos.
O mundo que vejo é literalmente literário. Um minuto numa estrofe. Num poema, num dia inteiro. Aptos são apenas palavras de atos dramáticos.
O transcrito não é o reflexo fiel da verdade das coisas, mas a descrição íntegra do sentimento real e verdadeiro que tive ao vivê-las. Assim, existo o bastante naquilo que escolho escrever. Do que me escolho perpetuar. E quando me recordo ou me releio, repito-me. Revivo unicamente o lado interno e inteiro, puro do que (me) aconteceu. Regresso, sempre que quero, ao sentir que me encheu o peito de palavras.
Supero-me e continuo. Caminho a caminho em cada palavra. O meu caminho. No meu poemário. Nos meus espelhos.
Palavra a palavra na ninha verdade, cada vez mais alto. Balão de ar quente a romper telhados, a tocar a estratosfera. A exceder-me, a ultrapassar-me. A deixar-me só. A encontrar o silêncio nas páginas cheias de palavras. A estar na posse da eleição de viver apenas o que quero viver.
Mesmo que as palavras, às vezes, não me saibam escrever.
Sinto falta de tinta de sangue."
Armanda Azevedo, “Dia 4 – Continuar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban






