quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Estante de leitura – Um mundo iluminado

"Sem a forma extática do sagrado o nosso mundo seria um lugar mais pobre. Afinal de contas, as multidões podem erguer-se em uníssono para mudar, de formas positivas, o estado de espírito de uma cultura; sem o fenómeno da physis, as mudanças tão radicais de paradigma nunca teriam lugar. Precisamos, portanto, de descobrir uma maneira de nos apropriarmos sabiamente do fenómeno da physis, de realçar os melhores aspectos desta forma de sagrado. Não podemos contentar-nos com a abordagem, segura mas preguiçosa, de pura e simples rejeição da physis. É necessária uma nova coragem para seguir esta via. No lugar da coragem kantiana de resistir à loucura das multidões, precisamos colocar a coragem de nos embrenharmos nisso a fim de o experimentarmos. (…) a physis, a poiesis e a tecnologia revelam-nos, respectivamente, um sagrado extático e selvagem que nos ergue como uma onda; um estilo delicado e atencioso que revela os melhores e mais sagrados aspectos das coisas; e uma forma de vida autónoma e autosuficiente que se ri de tudo quanto tenha valor sagado. (…)

Não há uma razão pela qual devamos escutar ou responder à chamada dos deuses: os apelos exigem apenas ser ouvidos e obedecidos. Nós, na nossa cultura, estamos a ser chamados a cultivarmo-nos enquanto seres sensíveis àquilo que somos chamados a fazer. O apelo está aí, e aqueles que são suficientemente à cultura e à sua rica herança irão escutá-lo. Mas, a nossa concentração em nós mesmos enquanto seres isolados e autónomos teve o efeito de banir os deuses – ou seja, de encobrir, ou bloquear, a nossa sensibilidade, mas, como os pecadores de Dante, fechámo-nos, dizendo a nós mesmos que deveríamos ser autosuficientes.

Enquanto sujeitos autónomos, fechámo-nos ao apelo dos deuses e é neste sentido que os banimos. Martin Buber fala do eclipse de Deus, Beckett sobre a nossa espera do seu regresso. Outros falam da ausência de Deus, da sua fuga ou morte. Acontece que os deuses não se retiraram nem nos abandonaram: fomos nós quem os expulsou. Eles aguardam, entristecidos, que ouçamos o seu apelo. Não perguntes por que razão os deuses te abandonaram, mas sim por que razão abandonaste os deuses.
O mundo dos gregos de Homero, intenso e pleno de sentido, brilhava com uma evidente força sagrada. O nosso mundo tecnológico parece, por comparação, empobrecido e insípido. Não podemos regressar ao mundo de Homero, nem deveríamos esperar fazê-lo. Mas podemos tornar-nos receptivos a um panteão de deuses moderno – ao modo como brilham Gehrig e Federer, ao modo como Marylin Monroe ou Albert Einstein mudaram a maneira como vemos o mundo em que vivemos. E podemos igualmente atrair o regresso dos deuses antigos, as grandes obras que já foram veneradas e podem agora ser vividas uma vez mais no seu valor sagrado. Fazer isto requer mais do que a simples canonização dessas obras em listas de leitura obrigatória e em programas escolares. Requer o desenvolvimento de competências para responder aso múltiplos sentidos do sagrado que permanecem, ignorados, nas margens do nosso mundo desencantado.

Essas noções do sagrado são mais ricas e variadas do que tudo quanto Homero conheceu. Os deuses gregos tinham semelhanças de família, tinham algo em comum: rumorejavam como uma onda e arrastavam as pessoas durante algum tempo, perdendo poder de seguida e libertando a sua presa. Este sentido do sagrado enquanto physis ainda está ao nossa alcance nas margens da cultura de hoje, mas não é o único género de sagrado aberto para nós.
Além da physis, temos igualmente uma concepção poiética do sagrado completamente ausente na época de Homero, um sentido de ser capaz de cultivar o mundo, de desenvolver as competências necessárias para o fazer sobressair no seu melhor pleno de luz. Este sentimento poiético do sagrado tem muitas formas. Quer se trate da convicção de Jesus de que o mundo é mais bem revelado por meio da luz do se Sentimento de amor ágape, ou da convicção de Dante de que podemos aprender conosco mesmos a capacidade de sermos receptivos ao amor que move o Sol e as outras estrelas; quer se trate da convicção de Ésquilo de que podemos fazer sobressair a cultura mediante a descoberta de um lugar adequado para todas as suas forças nascentes, ou ainda da convicção de Stuart de que podemos habitar um mundo natural de valor sagrado, todas estas descrições poiéticas do sagrado são delicadas e criadoras de uma maneira inteiramente estranha ao mundo de Homero. 
E além de todas estas descrições do sagrado, temos ainda uma concepção tecnológica do mundo, uma compreensão das coisas eficiente e plena de recursos que nos permite produzir e controlar o que nos rodeia. O mundo, por vezes, também é assim – não sagrado e destituído de valor intrínseco, pronto a ser moldado em função dos nossos desejos e da nossa vontade. (…) Só agora libertados das antigas tentações do monoteísmo, podemos encontrar no mundo contemporâneo um lugar para cada uma destas formas de ser. (….) Este mundo contemporâneo será um lugar maravilhoso de coisas sagradas e plenas de luz."

Um mundo iluminado: uma leitura dos clássicos ocidentais em busca de um sentido para uma era secular. Hubert Dreyfus, Sean Dorrance kelly ; Alfragide : Lua de Papel, 2011. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Estante de leitura – Entre o céu e a terra

 "1.

Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável.

3.
Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever, a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro.

9.
A arte será sempre a fricção entre o mundo interior e o mundo exterior. A capacidade de transformar esse conflito numa forma possível é o trabalho dos artistas e dos poetas. Mas esse trabalho tem de ser feito segundo os valores mais antigos e eternos: “bravura, nobreza e entrega”. Que ninguém se iluda, os covardes não têm acesso à Beleza.

13.
O Mundo dentro de uma gota de água. Uma casa, um jardim, uma montanha ao longe, tudo no interior de uma gota de água. Uma floresta dentro de uma catedral reconstruida até ao infinito. Escondo-me de mim próprio, procuro a beleza e a sabedoria.

18.
A arte foi sempre religiosa. No fundo, não era necessário conhecer a verdade, era preciso amar e acreditar: a fé era o conhecimento. Sem esse espaço de silêncio e sem essa sacralização das palavras e dos gestos torna-se mais difícil acontecer a sublime mentira da arte. E assim será sempre, desde o princípio do mundo até ao fim do mundo.

25.
A cor é memória, não pode ser utilizada de forma emotiva ou emocional. O negro baço é a cor do luto por não podermos ser melhores, por não merecermos ser melhores do que somos. O negro baço, neutro, vazio absorve a luz (em vez de a reflectir). Como Ad Reinhardt aprendeu com Hokusai, existem diversos tipos de negro: negro velho, negro novo, negro luminoso, negro baço, negro à luz do sol, negro na sombra… Todas as pinturas negras procuram a intemporalidade estática da forma e todas procuram absorver-nos no insondável mistério das sombras que adivinhamos querer envolver-nos, fechar-nos os olhos. Por vezes é uma experiência religiosa de esvaziamento e recomeço.”

40.
A arte tem de ser uma declaração de amor. Tem de possuir, de cada vez que a visitamos, a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a revelação, a emoção, a expectativa, a comunhão e a transformação, infinitamente.”

42.
Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia… é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagradável e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos, a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observamos, maravilhados, a transparência da chuva velando as suas pétalas metálicas.

Rui Chafes. (2014). Entre o céu e a terra. Lisboa: Documenta.

Estante de leitura – Entre o céu e a terra

 1.

Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável.

3.
Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever, a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro.

9.
A arte será sempre a fricção entre o mundo interior e o mundo exterior. A capacidade de transformar esse conflito numa forma possível é o trabalho dos artistas e dos poetas. Mas esse trabalho tem de ser feito segundo os valores mais antigos e eternos: “bravura, nobreza e entrega”. Que ninguém se iluda, os covardes não têm acesso à Beleza.

13.
O Mundo dentro de uma gota de água. Uma casa, um jardim, uma montanha ao longe, tudo no interior de uma gota de água. Uma floresta dentro de uma catedral reconstruida até ao infinito. Escondo-me de mim próprio, procuro a beleza e a sabedoria.

18.
A arte foi sempre religiosa. No fundo, não era necessário conhecer a verdade, era preciso amar e acreditar: a fé era o conhecimento. Sem esse espaço de silêncio e sem essa sacralização das palavras e dos gestos torna-se mais difícil acontecer a sublime mentira da arte. E assim será sempre, desde o princípio do mundo até ao fim do mundo.

25.
A cor é memória, não pode ser utilizada de forma emotiva ou emocional. O negro baço é a cor do luto por não podermos ser melhores, por não merecermos ser melhores do que somos. O negro baço, neutro, vazio absorve a luz (em vez de a refletir). Como Ad Reinhardt aprendeu com Hokusai, existem diversos tipos de negro: negro velho, negro novo, negro luminoso, negro baço, negro à luz do sol, negro na sombra… Todas as pinturas negras procuram a intemporalidade estática da forma e todas procuram absorver-nos no insondável mistério das sombras que adivinhamos querer envolver-nos, fechar-nos os olhos. Por vezes é uma experiência religiosa de esvaziamento e recomeço.”

40.
A arte tem de ser uma declaração de amor. Tem de possuir, de cada vez que a visitamos, a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a revelação, a emoção, a expectativa, a comunhão e a transformação, infinitamente.”

42.
Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia… é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagradável e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos, a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observamos, maravilhados, a transparência da chuva velando as suas pétalas metálicas.

Rui Chafes. (2014). Entre o céu e a terra. Lisboa: Documenta.