Não há uma razão pela qual devamos escutar ou responder à chamada dos deuses: os apelos exigem apenas ser ouvidos e obedecidos. Nós, na nossa cultura, estamos a ser chamados a cultivarmo-nos enquanto seres sensíveis àquilo que somos chamados a fazer. O apelo está aí, e aqueles que são suficientemente à cultura e à sua rica herança irão escutá-lo. Mas, a nossa concentração em nós mesmos enquanto seres isolados e autónomos teve o efeito de banir os deuses – ou seja, de encobrir, ou bloquear, a nossa sensibilidade, mas, como os pecadores de Dante, fechámo-nos, dizendo a nós mesmos que deveríamos ser autosuficientes.
Enquanto sujeitos autónomos, fechámo-nos ao apelo dos deuses e é neste sentido que os banimos. Martin Buber fala do eclipse de Deus, Beckett sobre a nossa espera do seu regresso. Outros falam da ausência de Deus, da sua fuga ou morte. Acontece que os deuses não se retiraram nem nos abandonaram: fomos nós quem os expulsou. Eles aguardam, entristecidos, que ouçamos o seu apelo. Não perguntes por que razão os deuses te abandonaram, mas sim por que razão abandonaste os deuses.
O mundo dos gregos de Homero, intenso e pleno de sentido, brilhava com uma evidente força sagrada. O nosso mundo tecnológico parece, por comparação, empobrecido e insípido. Não podemos regressar ao mundo de Homero, nem deveríamos esperar fazê-lo. Mas podemos tornar-nos receptivos a um panteão de deuses moderno – ao modo como brilham Gehrig e Federer, ao modo como Marylin Monroe ou Albert Einstein mudaram a maneira como vemos o mundo em que vivemos. E podemos igualmente atrair o regresso dos deuses antigos, as grandes obras que já foram veneradas e podem agora ser vividas uma vez mais no seu valor sagrado. Fazer isto requer mais do que a simples canonização dessas obras em listas de leitura obrigatória e em programas escolares. Requer o desenvolvimento de competências para responder aso múltiplos sentidos do sagrado que permanecem, ignorados, nas margens do nosso mundo desencantado.
Essas noções do sagrado são mais ricas e variadas do que tudo quanto Homero conheceu. Os deuses gregos tinham semelhanças de família, tinham algo em comum: rumorejavam como uma onda e arrastavam as pessoas durante algum tempo, perdendo poder de seguida e libertando a sua presa. Este sentido do sagrado enquanto physis ainda está ao nossa alcance nas margens da cultura de hoje, mas não é o único género de sagrado aberto para nós.
Além da physis, temos igualmente uma concepção poiética do sagrado completamente ausente na época de Homero, um sentido de ser capaz de cultivar o mundo, de desenvolver as competências necessárias para o fazer sobressair no seu melhor pleno de luz. Este sentimento poiético do sagrado tem muitas formas. Quer se trate da convicção de Jesus de que o mundo é mais bem revelado por meio da luz do se Sentimento de amor ágape, ou da convicção de Dante de que podemos aprender conosco mesmos a capacidade de sermos receptivos ao amor que move o Sol e as outras estrelas; quer se trate da convicção de Ésquilo de que podemos fazer sobressair a cultura mediante a descoberta de um lugar adequado para todas as suas forças nascentes, ou ainda da convicção de Stuart de que podemos habitar um mundo natural de valor sagrado, todas estas descrições poiéticas do sagrado são delicadas e criadoras de uma maneira inteiramente estranha ao mundo de Homero.
E além de todas estas descrições do sagrado, temos ainda uma concepção tecnológica do mundo, uma compreensão das coisas eficiente e plena de recursos que nos permite produzir e controlar o que nos rodeia. O mundo, por vezes, também é assim – não sagrado e destituído de valor intrínseco, pronto a ser moldado em função dos nossos desejos e da nossa vontade. (…) Só agora libertados das antigas tentações do monoteísmo, podemos encontrar no mundo contemporâneo um lugar para cada uma destas formas de ser. (….) Este mundo contemporâneo será um lugar maravilhoso de coisas sagradas e plenas de luz."
Um mundo iluminado: uma leitura dos clássicos ocidentais em busca de um sentido para uma era secular. Hubert Dreyfus, Sean Dorrance kelly ; Alfragide : Lua de Papel, 2011.


