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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Os Livros

"O livro é um dos objetos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores.

 


terça-feira, 23 de julho de 2019

A leitura silenciosa (I)

 

A leitura tem em si um espelho sobre o que foram as formas de evolução social e cultural ao longo de diferentes séculos. A sua afirmação dentro da sociedade do século XX, na evolução do seu papel formador de opiniões vinda de Oitocentos não permitem esconder o papel desconfiado que muitos tiveram dela. Os elementos mais conservadores na ordem social sempre temeram o seu papel, sobretudo porque ela podia ter grandes influências naquilo que podemos designar a ordem do privado, o espaço da intimidade.
As possibilidades de a leitura se realizar autonomamente na área do privado, significa que estava fora do alcance público e mais importante, escapava aos mecanismos de controle da sociedade, as suas ferramentas de vigilância. A leitura no espaço da intimidade reformulou os mecanismos do possível na ordem social, porque ela se fazia no interior do que é uma das suas mais belas formas de se realizar, a leitura silenciosa e individual.

A partir do Iluminismo já se pode falar de uma leitura silenciosa e ela certamente ajudou a compreender a necessidade de grandes transformações, alimentando caminhos de outros possíveis. Mas foi na Idade Média que essa construção da leitura silenciosa enfrentou significativas dificuldades. É conhecido o episódio de Santo Agostinho que nas suas Confissões retrata algo que o surpreendeu na leitura do bispo Ambrósio de Milão. O que Santo Agostinho achava admirável era que o bispo não lia em voz alta, mas apenas  fazia circular os seus olhos pelo livros. 

Esta leitura silenciosa do bispo Ambrósio era de um grande significado, pois o que os seus olhos liam eram contemplados no sentido em si, fazia-lhe poupar tempo e permitia a construção de uma relação íntima com o objecto da leitura. E era sem dúvida a construção de uma intimidade com o objecto das palavras, o seu significado e uma forma de refúgio do mundo, e, ao mesmo tempo uma forma de construção pessoal.

A leitura silenciosa permitia essa construção íntima e pessoal de um sentido, mas ela também revelava as possibilidades que um leitor pode desenvolver, naquilo que hoje damos o nome de Literacias. É significativo que uma leitura de olhar, uma leitura oblíqua, uma leitura de imagens reveladas são aspectos desconhecidos a um não leitor, a alguém que tem falhas de competência na leitura. 

Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, C.L., Lx: 2005.
Imagem: Iluminura do século XIII (Bibliothèque Sainte-Geneviève, Paris, MS 2200, folio 58).

terça-feira, 9 de julho de 2019

Os perigos da leitura

 


A expansão da leitura em determinados círculos mais instruídos do século XVIII criou um conjunto de imagens que conduziram aquela para uma construção de imagens, de que a arte deu conta de um modo significativo. A leitura como prazer, já por aqui brevemente discutida oscilou entre a atribuição de um significado aos espaços de intimidade do lar e uma visão mais moralista, os pensamentos que os leitores acalentavam para eles próprios. Jean-Siméon Chardin e Pierre-Antoine Baudoin foram dois pintores, entre outros que deram corpo a essas duas visões sobre o prazer da leitura.

A leitura, no seu acto de ler foi ela própria analisada no interior da sociedade do século XVIII, como um fenómeno muito útil, pois incentivava a construção de uma vida mais virtuosa. Outros viam nessa ideia de trazer consigo um livro e a ele dedicar-lhe bastante tempo diário o sinal de um declínio inexorável dos costumes e da própria organização social. Alguns que se dedicavam ao comércio do livro chegavam a pronunciar a ideia fatal de que o livro tinha trazido tanta infelicidade à vida privada das pessoas, como a Revolução Francesa à vida pública da sociedade. 

Mesmo no interior do iluminismo chegou-se a ouvir que a leitura ao limitar os movimentos físicos e colocando muito valor na imaginação e no despertar das emoções daria um incentivo a modos de um certo vício aristocrático, como o tinham visto em séculos passados.  Foi uma campanha que se desenvolveu em finais de Setecentos no sentido de moralizar a sociedade e sobretudo de domesticar o alcance da leitura no feminino. Estas diligências não obstruíram o progresso da leitura individual na Europa e na América do Norte entre os séculos XVIII e XIX.

Apesar desses progressos, a leitura como fenómeno de grande alcance cultural e social apenas se concretizaria no século XX. E ocorreu no seio de grandes transformações sociais, como foram a industrialização, a democratização de algumas sociedades e as mudanças na educação. O século XX ao elevar a um grande significado as capacidades da literacia entre todas as classes sociais e ao prolongar a instrução no tempo favoreceu esta expansão da leitura. 

Estas transformações deram a possibilidade de acelerar o papel da leitura, como elemento transformador das sociedades e das possibilidades individuais de cada um.  E, nesse sentido, as ameaças da leitura vista em séculos anteriores tornar-se-iam o motor de uma real transformação da sociedade e trariam a todos, as imensas capacidades da leitura para mudar o pensamento e assim a acção de cada um no interior de um tempo social e cultural.

Imagem: copyright: Jean-Honoré Fragonard, A leitor, c. 1776, National Gallery of Art, Washington.
Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O prazer da leitura (II)

A leitura cria em si múltiplas imagens, as do leitor em si, mas também aquilo que as obras de arte permitem desvendar  no nosso olhar. E, neste caso os objectos que aproximam a leitura dos espaços de intimidade, onde ela decorreu em diferentes momentos do passado podem também criar um conjunto de imagens, de ideias sobre a sociedade que viu nascer essas formas de expressão. O século XVIII foi em  muitos aspectos uma forma de explorar novas atmosferas, descobrir outras linhas para habitar o quotidiano.

Pierre-Antoine Baudoin pintou no século XVIII um quadro que nos conduz novamente ao prazer da leitura, embora aqui com dimensões novas. A marquesa de Pompadour figura conhecida da aristocracia e da realeza francesa de Setecentos tinha em Pierre-Antoine Baudoin o seu pintor preferido e a abordagem que ele faz neste quadro de 1760 é diferente do conhecido feito por François Boucher, onde a leitura aparece numa pose mais ocupacional do tempo. 

Aqui, no retrato de Pierre-Antoine Baudoin, a marquesa de Pompadour está numa atitude descontraída, habitada por um abandono, como quem descansa no seu quarto e onde se notam diversos objectos de um quotidiano, o biombo e o dossel da cama. Aqui ao contrário do quadro de François Boucher tudo se define numa ideia de letargia, a apontar a um sonho, permitida pela leitura. O livro escorrega-lhe da mão e cai acompanhando os outros objectos de uma intimidade feminina, o cão e o alaúde, assim como outros livros aparecem junto a uma mesa, onde ela descai a sua mão. 

A marquesa de Pompadour tem neste quadro uma representação de alguma letargia, a invocar uma intimidade que pode partir da leitura para chegar a outros domínios. O aberura do seu corpete revela uma intimidade de instante de quem prolonga o dia no seu quarto. O quadro revela-nos, como o salientou Rousseau uma ideia de uma viagem rápida entre o livro e o seu sonho que se define no globo e nos mapas numa das mesas do quarto. Na verdade, não sabemos se a atitude de letargia é um abandono ao próprio corpo, a uma prazer sensorial ou a uma espera de uma amante distante. 

A leitura enquadrada assim é sem dúvida uma construção de uma imagem de prazer, mas este pode ser mais alguma coisa, pode indicar que aquela é uma libertação capaz de construir ambientes frívolos, desgovernados de uma razão, de uma moral. No fundo o prazer da leitura poderá ser aqui a construção da ideia que o século XVIII assistiu por diferentes autores, da corrupção dos valores morais. Apesar das possibilidades desta interpretação, o que Pierre-Antoine Baudouin nos concede é algo mais elevado.

Diderot falou deles. Dessa clientela que sob o pano de uma moralidade de costumes eram apenas "abades insignificantes, jovens advogados de mente frívola, magnatas corpulentos e outras pessoas de mau gosto". No fundo todos os que observam e criticam esta abordagem frívola de uma mulher a ler o que pretendem é chegar a esses pensamentos sensuais que a sua figura profisisonal não aconselha. A hipocrisia de um mundo burguês expressa-se aqui de uma forma brilhante. A leitura emergiu no século XVIII como uma construção de atmosferas de intimidade, de um erotismo a caminhar para as possibilidades de um novo mundo, ainda que individual.

Imagem: Copyright – Pierre-Antoine Baudouin, A leitora, c. 1760, Museu das Artes Decorativas, Paris.
Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A leitura - um espaço do sagrado

Na liberdade criativa de uma vida, espaço formulado também pelas possibilidades da leitura existem histórias que nos deliciam. Ela também nos pode confinar a um ponto de esperança quando uma catástrofe ocorre. Passou-se com Dylan Thomas, o conhecido poeta irlandês, no tempo da sua infância. É ele próprio que a conta em A Child’s Christmas in Wales.

Uma vizinha da sua casa sofre um incêndio que consome uma sala inteira da casa. Após o fogo debelado que consumiu uma sala inteira e no meio da confusão e dos objectos encharcados, a senhora Prothero exclama esta frase deliciosa aos bombeiros: “Quererão agora ler um pouco?”.

Era um consolo naquela de bonomia de um tempo e de uma forma de ser, mas ela dá-nos também essa ideia tão necessária de que a existência e o real podem ser suportados, mesmo que ligeiramente pela literatura. O próprio Flaubert viu nesta inspiração uma espécie de “orgia perpétua”e com ela nos seduziu com as aventuras de Madame Bovary.

Esta orgia perpétua não é mais que uma forma continuada de ler, de encontrar nessa expressão não só a própria liberdade, mas também o seu significado mais primordial, uma ideia de sagrado, uma forma de individualmente aceder a um culto de divindade, próprio e irrepetível noutros.

Sim, a leitura não preenche a vida e esta aprende-se vivendo, mas como disse Günter Bruyn, “aprende-se da leitura, lendo”, e este foco sobre tantas vidas de tantas possibilidades e experiências é sem dúvida um modo de com esse olhar chegar a um conhecimento que nos ilucida a nós próprios sobre a nossa própria vida. Essa orgia de leitura acaba por superar muitas vezes a nossa própria experiência, pois ela é muito variada e rica nas leituras feitas. Não só se está perto da vida dos outros lendo, como se acede a um amor, “ama-se o amor dos outros”, nas palavras iluminadas de Elke Heidenreich.

A leitura permite pois, uma construção individual, mas também pode apresentar-se como alienação do real, capaz de alguns desastres. Bluma Lennon morreu na esquina de uma rua de Buenos Aires ao ler um poema de Emily Dickinson que a fazia desligar do real, segundo a narrativa inicial de A Casa de Papel. É um ponto extremo, mas todos sabemos que ao longo dos séculos XVIII e XIX a advertência aos perigos da leitura eram uma forma de condicionar projectos de vida, de amarrar pessoas, e, sobretudo mulheres a modelos sociais e culturais.

É ainda de Elke Heidenreich essas palavras que nos devolvem o valor inestimável da leitura. “A leitura questiona não só o projecto de vida, como também as directivas de instâncias superiores, tais como Deus, o marido, o governo e a Igreja. A leitura dá asas à fantasia e esta última afasta do presente, mas para onde?” Pergunta importante, pergunta sem resposta, pois depende da individualidade, da história de cada um. Tudo na leitura é fonte e processo incontrolável.

E todos sabemos que os legitimados nas palavras burocráticas, como sacerdotes e governos desconfiam das palavras voadoras, das palavras incontroláveis, essas que amamos na respiração das coisas. E, talvez só Deus mesmo nos acompanhe nessa compreensão pela viagem das palavras, como o sentiu Virginia Woolf ao dizer-nos que o próprio Deus acolhendo todos no seu trono celestial dirá, “Olha, estes não precisam de recompensa. Nada temos para lhes dar aqui. Eles amavam a leitura.”

Imagem: Copyright – Duncan Grant, O fogão, Fitzroy Square, 1936, Espólio de Ducan Grant. (via https://theartstack.com)
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

domingo, 31 de março de 2019

Os livros...

 

Se são os livros um coração para dentro de algo a descobrir, a imaginar em nós e a reportar em franjas de real, poderíamos vê-los como algo a preservar, a prender em nós, como uma oferta de um silêncio maior, íntimo? Poderiam eles ser nessa austeridade pública, nessa linha de algo especial e único um elemento em nós, como o pode ser um beijo? Max Frisch disse-nos um dia que os livros deviam ser preservados em nós, para que assumissem uma dimensão especial, acima de qualquer vulgaridade. Vivê-los como um tesouro guardado no coração, fruto dessa obra individual que foi compor abnegadamente essa linha do corpo em instantes de imaginação.

Compostura e minimalismo no interior do nome das coisas essenciais, como a identificação de um coração que nos preenche, nos identifica numa multidão de vulgaridades. Just like a kiss. Sim, a leitura realizada como actividade de informação, de lazer, mas também com a necessária atenção àquilo que nos pode dar uma tranquilidade, uma forma imaginada e lúdica de ver o mundo, os outros.

A leitura vivida nessa fronteira de algo nobre e formativo poderá produzir no leitor sinais de autoconfiança, o que conduzirá inevitavelmente à formalização de um pensamento, sempre devedora de uma coragem de ser livre. Que leitores procuram o estímulo para o seu coração nas obras literárias para si próprios e para a sua vida? Alguns homens, mas sobretudo são elas que o fizeram, que ainda o fazem. Os grandes leitores são mulheres, pois essa é uma ideia genérica que a história social e cultural dos últimos dois séculos nos diz de forma inequívoca, assim como a Arte. 

Esta dá-nos em múltiplos criadores essa fantasia de leitoras, de diferentes idades, geografias e atmosferas nesse consolo e deslumbramento de olhar as palavras, para mais tarde aguardarmos os seus olhos levantados das imagens dos sinais gráficos. Sim, os livros são como os beijos. Frescos, matinais, austeros e únicos na construção de uma intimidade no interior de nós.

Imagem: Copyright – J. J. Henner, Mulher a ler, C. 1880-90, Museu d’ Orsay, Paris.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Leitores

A leitura aproxima-nos de universos desconhecidos, formula possibilidades às interrogações que o conhecido nos coloca. Seria assim possível ver nos leitores feitos de homens e mulheres o campo para uma aproximação no campo humano? Seriam os leitores como construtores de uma imaginação possíveis elementos de um entendimento sobre as dificuldades de cada um? Ou então, poder-se-ia perguntar que um leitor não tem género e que o objecto da leitura pode nos dois chegar ao coração, depois das palavras lidas? 

Pode o livro assegurar essa igualdade de género que são as palavras ditas e por isso pode a leitura construir o que Gertrud Lehnert chamou o possível encontro de almas? É um sonho belo em que seria bom acreditar. Virginia Woolf acreditava que o livro e a sua substância poderia apenas ter uma acção de transformação quando se concretizasse essa fusão, entre o leitor e o autor, como um encontro de espíritos. Aliás ela em Orlando misturou os géneros para nos dizer que essas duas possibilidades poderiam ser um encontro de algo maior do que cada um individualmente. E, nesse sentido seria uma história que no colectivo era uma história de amor. Mas, o que dizer de como eles e elas se mostram como Leitores?

Os leitores no seu sentido global foram quase sempre os que liam no feminino. Saberiam os homens mais das mulheres se lessem Sylvia Plath, ou Carson MacCullers, ou Virginia Wolf?
Saberiam as mulheres mais dos homens se lessem Hemingway, ou Capote, ou Faulkner, ou  Balzac? No essencial as mulheres já o fizeram numa expressão íntima da leitura. Leram mais e de modo diferente, o que ainda fazem. As mulheres, ao serem grandes leitoras já fizeram essa identificação entre homem e mulher, herói e heroína, entre leitora e autor ou autora. Parece consensual que as mulheres amam os homens que lêem, mas o contrário parece pouco credível.

A leitura conjunta entre homens e mulheres é rara. Parece ser pouco prático, parece um perigo. A história de Francesca e Paolo relembra-nos desse perigo, quando os próprios relembram o episódio de Lançarote.  Essa leitura conjunta conduziu-os ao Inferno, como o expressa Dante na sua A divina Comédia. A leitura é um processo individual, mas quem se ama gosta particularmente de ler no outro o seu amor, como se fosse um livro, uma aprendizagem e uma construção emotiva. Um leitor aprecia os seus livros, como um amante aprecia os beijos de quem ama.

Imagem: Copyright – Anselm Feurbach, Paloe Francesca, 1864, Schack-Galerie, Munique.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 11 de março de 2019

A leitura e o ler


O livro foi no século XVIII e XIX, memso quando aspirava um pouco a ser um instrumento de mudança cultural, permanecia ainda permanecia uma ferramenta condicionada pelas ideologias, pelo poder político, pela dominância social e económica. Nesses tempos que podíamos datar como o espaço do romance oitocentista, Madame Bovary é ainda um sinal dessa memória de um processo. Os livros começavam a circular pelo universo feminino, mas a iconografia do objecto ainda era muitas vezes uma lembrança das obrigações sociais e económicas. 

O livro em si era apenas uma possível forma de perder tempo. O leitor quando lê encontra ou pode encontrar a forma de uma luz capaz de olhar o mundo, de o compreender, ou de lhe dar significado. Se a encontrar pode ousar quebrar as regras formuladas e no feminino, no espaço de oitocentos essa é um pouco a história da leitura. Voltemos a esse exemplo, a de Madame Bovary. É verdade que ela lê, embora seja esses romances cheios de casos amorosos que ela usava para preencher a sua vida. Curioso que uma das personagens diga sobre Ema Bovary que passa o tempo a “ler romances ruins, livros contra a religião e com palavreado tirado de Voltaire!”

Caso Ema Bovary lesse Voltaire talvez ela tivesse tido a possibilidade de encontrar um significado para as suas aspirações, para os seus desejos individuais. E no fim, tal como as heroínas dos romances que lia, ela toma arsénico que a conduz a um fim. Ema Bovary lia, mas ela não lhe deu essa conjugação de com as palavras pensar a sua vida, de reformular a sua vida pessoal e é nesse caso uma actividade perigosa, capaz de imaginar mundos impossíveis de concretizar.

A leitura conduz experiências no mundo da ficção, mas não torna possível que tenhamos a mesma abordagem estética do que é lido, não nos devolve as palavras que devemos usar. Essas só podem ser nossas. É um campo de experiências, não é uma resposta de ideias absolutas. No fundo a leitura congrega informação, prazer, abandono a uma experiência momentânea de solidão com o leitor e um pouco também com o escritor. E, se no fim o leitor existe é porque ele encontrou algo que lhe prendeu a atenção. Daí pode nascer um acto de rebeldia, um isolamento, um esquecimento do formal quotidiano. Daí pode nascer um momento de liberdade, suspenso noutras latitudes, noutras afeições, num outro real. A leitura no feminino em oitocentos conduziu-se muitas vezes por essa fronteira, ainda que apenas no espaço  dos ambientes de intimidade.

Imagem: E. Burne-Jones, retrato de Katie Lewis, 1896, colecção particular, Bridegman Giraudon
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

As palavras ou a reescrita da voz...

Os livros são um dos objetos primordiais do que podemos chamar uma civilização. Com eles guardamos a memória e as inquietações anteriores a nós, mas também como eles descobrimos que eles nos fazem pensar melhor, afinal que podemos evoluir como pessoas, como sociedade. Apesar dos múltiplos ecráns estamos muito sós, nas palavras que queremos dizer, na voz que não se ouve. Palavras reescritas de uma respiração que se escuta mal sob um domínio, um ruído dominante dos media e de um poder formatado para os lugares comuns. 

É na leitura que nos descobrimos, que verificamos que valores nos conduzem, que formas de encontro conseguimos estabelecer com os outros. Os livros que lemos dizem muito das pessoas que conseguimos ser, dos conhecimentos que multiplicamos nas ideias que apreendemos e da perceção que temos do mundo e de nós próprios. 

Os livros são muito diversos, pois constrõem continentes de emoções, geografias de sentimentos, formas de ser, modos de pensar e de construir o mundo e são por isso um património de um profundo enriquecimento pessoal. Com eles fazemos viagens ligando o passado e o presente, numa ideia de algo a construir, a sonhar, embora nunca lá estejamos, esse futuro por viver. Eles, são por isso, os caminhantes de ideias e lugares, por onde passámos e onde eles chegarão. Com eles vivemos a possível eternidade. 

Os livros emergem com as palavras e ao nomeá-las, estamos a dar-lhes a substância de existirem, mesmo que se refiram ao que não temos, mesmo que sejam os sonhos antes dos sonhos, a respiração de ver o que se ama. Os livros e a leitura confirmam essa possibilidade maior de aceitarmos em partilha as vozes que nos chamam para o reconhecimento múltiplo da humanidade. 

domingo, 27 de janeiro de 2019

Ler...


 "Ler para quê? E escrever, para quê? Depois de ler cem mil, dez mi livros durante a vida, que se leu? Nada. (...) Ler não serve para nada, é um vício, um puro prazer, uma felicidade". (1)

Desde que entrámos na porta da História, se há algo que caracteriza a aventura humana são as palavras. Suporte desse material onde a linguagem organiza o conhecimento, a dúvida, a emoção e o sonho, os livros são a nossa memória. Conseguirá essa memória da palavra apresentar satisfatoriamente os sonhos do quotidiano?

Afinal que papel desempenham no quotidiano vivido de cada um a leitura e a escrita? Não serão aquelas signos materiais afastados das nossas necessidades pessoais? Na sociedade da imagem, que valor podem ter o livro e a leitura com a inevitável falta de tempo, onde a contemplação do horizonte parece apenas destinado aos que se situam à margem do sucesso virtual. A acrescentar a estas dificuldades, uma mais. Que livros escolher e quais deixar de lado, quais seleccionar, aqueles que nos «permitiriam melhor relacionar com o Universo», nas palavras de Gabriel Zaid. Como contornar este labirinto?

O livro nasceu como produto cultural no momento e no tempo em que a difusão de novas ideias permitia organizar outros modelos sociais. O livro trouxe-nos da História esses momentos de emancipação individual. O livro e a sua difusão estão ligados à criação dessa liberdade onde cada um pode ouvir a sua respiração e onde estão dispensados os sacerdotes do templo para que fundamentem o significado das acções humanas.

O encontro do homem com o livro é o resultado de uma acção que pretende afinal estabelecer uma «conversação» que faça da vida um caminho com significados. Afastados dessa liberdade criativa que a cultura greco-romana ou o renascimento afirmaram tão alto, vivemos num tempo absurdo em que da pior maneira verificámos que a nossa tecnologia e doutrinas económicas não souberam salvaguardar a dignidade individual. Tantos milhões de anos de História para concretizarmos uma sociedade com fundamentos de uma solidez feita de aparências.

Neste País onde o estudo do Grego, do Latim, da Filosofia, da Arqueologia são um passatempo para lunáticos, dispensável na formação da maioria, pode-se aspirar à organização do pensamento? Um País onde sai mais barato fazer exercícios para tratar do corpo do que alimentar o espírito, onde se deslocam objectos de memória sem conhecimento, onde tudo vale apenas pelo valor funcional. Sem valorização da identidade, da diferença, um caminho de ícones de plástico, onde se dispensa ser. Aspira-se aparentemente a ideias, mas sem leitura crítica, como se fosse possível presente, sem memória. O livro, a memória, a sua humanidade está em stand by, numa fogueira de vaidades pessoais.

O livro contém si o universo dos possíveis, encerra em si o leitor e apesar da sua magia deposita também nele e em nós,imensas fragilidades. Poderíamos comparar o livro à vindima da uva e ao seu produto, o generoso vinho. Quem o sabe apreciar não o dispensa, quem não o conhece vive afastado de uma beleza sem tempo. É verdade que o livro não regista a vida, a construção do quotidiano. Ele tal como a vindima é o produto, a colheita de um esforço humano, de uma inspiração da memória. É igualmente verdade que não poderemos ler todos os livros, nem sequer os que consideraríamos mais interessantes. E é sobretudo verdade que a natureza humana não está pensada para ser dominada por uma língua universal, numa aldeia global onde se determina tudo a todos e do mesmo modo.

A actual crise económica e social revela como mal preparados estão os agentes do poder político, os que organizam o domínio social e económico. Tantos já prevêem o fim do livro e nenhum soube compreender o seu próprio tempo, nem os movimentos que o organizam. Tantos afirmaram o fim da História a caminho de uma felicidade garantida pelos meios tecnológicos, pela clarividência dos princípios e afinal aqui estamos tão sós de sonhos, ainda à espera do «dia inicial e limpo» , como expressava Sophia.

Mais uma vez se comprova que a Humanidade dá-se melhor com uma Torre de Babel onde cada aldeia é um Universo, um centro de uma ideia de vida do que na vasta globalização. O homem vive na sua natureza de uma universalidade limitada. Estas fragilidades do homem, do leitor e da vida são oportunidades. Podem ser as nossas oportunidades. Elas permitem-nos compreender que a vida humana é feita de momentos.

É o livro que nos dá essa revelação, essa relatividade de que todos somos feitos. «O livro não oferece nenhuma explicação acerca do destino do homem, mas tece uma apertada rede de convivências entre a vida e ele», nas palavras de Daniel Pennac, expressam bem o motivo de o homem pela sua mortalidade aspirar aos sonhos, às emoções e é esse é o fundamento da escrita. Esperamos assim da leitura, o que Gabriel Zaid no seu pequeno, mas íntimo livro consegue estabelecer connosco, uma «conversação». E não é isso a vida, entre a alegria e o absurdo, uma tentativa de construir um diálogo? O homem e o livro aproximam-se assim, «na definição de constelações que promovam a conversação para o bem comum», ainda nas palavras de Gabriel Zaid. As Bibliotecas são neste contexto apenas um dos instrumentos para organizar, promover e difundir esse diálogo comunicativo essencial ao Homem. O livro pode dar-nos essa intimidade do diálogo, num mundo de cegos.

(1) - Gabriel Zaid, Livros de mais, Ler e publicar na era da abundância, páginas 49 e 116)
Imagem - sem referência de autoria na Web.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Os livros...

O livro é um dos objectos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo.

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (Manuel António Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores.

Da casa de papel (I)


A cidade era modestamente recente, feita dessas novidades de novos colonizadores, artefactos de comunicação à procura de novidades, como instantes de repouso nos olhos dos deuses. Atrás desse tempo comemorativo de grandes conquistas, ruas empoeiradas de mendigos traziam os velhos despojos dos que não foram reabilitados para a iconografia de novos sucessos.

O porto ainda trazia as gaivotas e os gansos de longas distâncias, onde caminhavam crianças adormecidas no rasto dessa liberdade de ave e onde novas lojas se abasteciam dos peixes entornados do mar, vivos ainda de maresia e azul. Entre essas crianças e eu próprio vestiram-se edifícios novos, lojas de novos conquistadores, como se o tempo fosse uma grosseira construção de escolhidos. Nas margens da doca ouviam-se sons de realejo, os desfasados do sucesso a pedir esmolas, mas também a colorir voos rasantes com uma tristeza soturna de quem pede pão, um sinal de uma lágrima a querer voar, como um beijo numa face.

Na parte velha da cidade, arqueológica, de pedaços de um tempo esquecido, uma Nothing Hill de outras latitudes arruma frutos tropicais e livros antigos, contos de aztecas e maias entre as novidades do mercado castelhano, avassalador de traduções, enigmas de um tempo a construir. Abandonei essa circulação estratégia de palavras, por onde em prateleiras distantes velhos livros de sabedoria ainda se consumiam em totens de outros tempos, de outros sonhos. E vi neles essa importante forma de passar o tempo com vozes que nos quer fazer compreender algo, distribuir algumas formas de delicadeza, como quem se oferece na sua própria revelação. 

Delicadeza como quem revela segredos, sempre eternos do próprio sentido humano. Emoção e mistério confirmando o livro como janela de luz sobre a vida, suporte de entendimento para ela própria em vozes nascidos no enigma do próprio tempo. No centro da cidade El Ateneo é uma referência. Arte em si e na divulgação do livro. Um templo. Não admira que Borges visse esse conto de fantástico como a energia possível do paraíso.

(A partir de uma viagem pelas ruas de Buenos Aires e com o coração em Buenos Aires).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Ler...

Ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. 

Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para mexericos e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais? Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas. (…)

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhumaverosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projectos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem do submisso. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Alem disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida. Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
 
Guiomar de Grammont: “Ler devia ser proibido”, 
in PRADO, J. & CONDINI, P. (Org.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp. 71-73.

Imagem: Gerrit Dou - Old Woman Reading, 1632.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Os livros e a leitura

Os livros chegam-nos como um ponto de partida para algo a descobrir, a compreender, a pensar, a fazer, a realizar. Os livros entregam-se a nós como pontos de chegada e desse encontro dual, múltiplo permitem que nós estabeleçamos uma viagem, que nós saibamos compreender outras possibilidades, que nós consigamos articular pontos de partida. Os livros são a construção de uma leitura e têm por isso um verbo inicial essencial, ler.

Ler é uma forma múltipla de perguntar, de encontrar algumas ideias possíveis e é como outros verbos essenciais para esta aventura chamada vida. Esta é no fundo a "prática (pro)activa de verbos corajosos" (1). Verbos esses de procura, de encontro, de perigo e de conquista, como abraçar, compreender, viver, amar, questionar. Verbos para a construção de uma linguagem, para a utilização dos nomes e fazê-los exercitar como um amor infindável no interior da leitura.

Primo Lévi disse desse encontro com o indescritível, "por um momento esqueci-me de quem sou e onde estou" e neles pareceu-lhe compreender melhor esse espaço da Divina Comédia, essa que retrata um período e que se alongou para outros formatos contemporâneos. Ler é assim prolongar o momento, é fazer adiar instantes e pode na verdade salvar uma vida humana, muitas vidas humanas, porque torna o periférico relativo e alarga o próprio mundo. 

Poderíamos dizer que "ler é um trampolim de sonhos, uma marcha ruidosa contra o tédio, a pequenez de perspectivas, a falta de imaginação e de argumentos, a rotina e os excessos de realidade." (1) Ou ainda que a leitura interefere na ideia de aceitar o real de um modo cómodo, não reflexivo e que produz um choque capaz de incentivar a curiosidade, o espanto, o deslumbramento, numa palavra, a imaginação.

A leitura é assim uma actividade de construção, mas também de inquietação, de assombro, na expressão de Pessoa, de desassossego, pois remete para dúvidas, questionamentos, alimenta feridas e conduz esse processo de duvidar do inaceitável, do incompreensível, do não digno. Como sugeriu Elke Heidenreich, "quem lê reflecte, e quem reflecte forma uma opinião e quem forma opinião pode dissidir" (2), e esta é a forma mais próxima para a rebelião das pessoas e das ideias. 

A leitura e a sua disciplina, a Literatura são assim caminho para um conhecimento, entre instantes, minutos de paz e momentos de desassossego. Ferramenta e objecto de contínuas formas de sedução ela pode transformar a vida, os minutos de cada um, numa atitude de contágio pelas ideias. Atitude formulada na paisagem de uma frase, na atmosfera de um parágrafo e que conduz a uma forma de vida, que é a de ter uma contínua luz acesa no horizonte.

(1) - Do editorial, Somos Libros 3, Bertrand Livreiros, Dezembro de 2018.
(2) - Mulheres que lêem são perigosas / Stefan Bollman . Lisboa: Quetzal, 2007.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O tempo das bibliotecas

As Bibliotecas conduzem um circuito de silêncio preparado desde largos confins do tempo, como uma cerimónia para novos espectadores. Fazem-no um pouco como as velhas glórias do passado, como uma pirâmide em Gizé, ou a Torre de Mangia, em Siena a olhar persitentemente para nós, para tantos nós a desfilar no horizonte. 

As Bibliotecas forram-se de esperança e ingenuidade na sugestão de possibilidades. Essa imaginação de latitudes que nos deu O Tigre da Malásia, Siddharta ou Alice no país das maravilhas. Essa fuga para um outro mundo que era O apelo da selva de Jack Lonon a mergulhar nos contrafortes do natural, ou só a sabedoria de Thoreau a contar macieiras nas margens do Walden. 

As Bibliotecas, todas elas avançam como um exército de ideias, sempre em silêncio, sempre na inocência de quem apenas quer abrir uma possibilidade. As Bibliotecas juntam as nossas memórias e quando perdemos os seus artefactos, os livros é a nossa própria história que passou a um átomo esquecido no Universo, são as nossas emoções que se volatilizaram no tempo. Os livros são nelas as ferramentas da construção de uma emoção, a frágil margem do tempo.

Imagem: Copyright - Public Library of Lima