sábado, 28 de abril de 2018

Estante de Leitura – Criação (VI)

"Viajo no tempo nos lugares por onde já passei com ela. Repetindo-os. Todas as vezes que passo nesses lugares, é sempre o mesmo dia. É sempre o mesmo lugar com as mesmas pessoas, com os mesmos cheiros, com a mesma chuva, o mesmo sol, a mesma noite. E ela é diferente. E eu sou diferente. Porque eu sou eu hoje e porque ela é ela hoje. Só o lugar é o mesmo, igual ao lugar do tempo primeiro de quando estivemos lá. 
Nós continuamos em todos os lugares onde já estivemos. Nas ruas dou os mesmos passos, coordenados com os passos dela. Às vezes, num passo atrás para conseguir ver todos os passos dela e percorrê-los, na certeza de lhe chegar. Os nossos passos continuam nas calçadas, nos caminhos. Havemos de ter muita idade e passar pelos mesmos sítios de ontem. E os sítios serão os velhos sítios ainda que novos. E nós seremos novas pessoas ainda que velhas. 
    Os mesmos passos, os mesmos gestos, de todos e dos mesmos eus. Os mesmos punhais cravados em todos os peitos, na esperança de sentir um bater de coração nas mãos. O mesmo morder de todas as bocas na procura de sangue vivo. O mesmo rasgar a pele para encontrar um corpo. O meu, o dela, o nosso… o mesmo. 
   Aprendo a fazer o mínimo barulho possível. Aprendo a suster o ar nos pulmões e manter o peito cheio, imóvel. Fecho os olhos e espero ouvi-la chegar. 
   Oiço-a chegar no vibrar desafinado dos sons extrínsecos. 
  Oiço-a chegar no toque preciso dos passos na calçada. Oiço-a chegar no ranger sinistro das portas que se abrem. 
  Oiço-a chegar na luz ténue da manhã. Oiço-a nas silhuetas de cor. 
  Oiço-a chegar num riso, num abraço, numa vontade tão grande de a ouvir chegar. 
  Oiço-a chegar quando chego, quando parto, quando fico, quando espero… oiço-a chegar sempre que desisto… e sempre desisto de desistir de a ouvir chegar.
  Aprendo a fazer o mínimo de barulho para que não me oiça a ouvi-la chegar. Consigo suster o ar nos pulmões, suspender os sinais de vida e viver apenas o momento de a ouvir chegar. Consigo manter o peito cheio dela. Imóvel, perpétuo, o instante no meu peito ao ouvi-la chegar.
 Já não sei ser um só. Ela chega e sou já muitos num ser multiplicado. Repetido."

Armanda Azevedo, “Dia 6 – Repetir”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – Rafael, A escola de Atenas, renascimento italiano.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Estante de leitura – Criação (V)

"O chão é feito de folhas. O chão é feito de folhas de papel. Ela vive dentro de um caderno. E as folhas do caderno, que são chão e paredes de casa, estão pintadas de letras. E as letras têm a cor da tinta dos olhos dela. E a cor da tinta das letras que pintam o chão e as paredes do caderno que é a casa, é escura quando os dias são claros. E a cor da tinta das letras que pintam o chão e as paredes do caderno que é a casa, é clara quando os dias são escuros. Ela sabe ser mais feliz dentro do caderno. Debaixo do telhado de sua casa, mora ela e a felicidade que ela sabe acontecer.

     Ela deixa-me a casa nas mãos. Consigo saber que ela está em casa, quando passo os dedos pelas folhas finas de papel sulcadas pelo aparo da caneta. Por ter a sua casa nas mãos, não sei dizer quando ela deixa de estar aqui, deste lado de fora. Permanece dentro das paredes de papel, mas deixa de aparecer dentro das paredes de pedra. Deixa de aparecer dentro das paredes de éter. Deixa de aparecer dentro das paredes de pele. Não consigo ver quando sai. Eu apenas estou lá, dentro das paredes de pele, dentro das paredes de pedra, dentro das paredes de éter, a espreitá-la por dentro das paredes de papel, por dentro das minhas mãos.
      Ela é sempre o lado bonito de todas as coisas. O lado que brilha.
O lado sem fumos, límpido. Mesmo quando não sorri. Ela tem livros abertos na sua cabeça. Livros como sóis dentro da cabeça. Sabe sobre tantas coisas. Conta-me segredos. Ela sabe todas as coisas sobre mim também. Adivinha-me.
     A mim falta-me tamanho para a poder conhecer e adivinhar. A mim sobra-me realidade para não ter medo. E o medo é névoa. Não existem auroras na minha cabeça. Auroras fortes. Deviam nascer sóis na minha cabeça. Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes.
Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes que limpassem a névoa. E assim, sem névoas, eu teria conseguido ser só ela. Assim, sem névoas, teríamos sido só uno dentro e fora das paredes de papel.
     Mas fico-me apenas pela veneração. Sem chegar a um entendimento pleno da sua realidade, sem perceber a magnitude do que acontece. Não a vejo sair. Não a vejo chegar. Não a vejo ficar em mim. Pertenço-lhe sem me pertencer.
     Sou ela num eu multiplicado."

Armanda Azevedo, “Dia 5 – Multiplicar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem – ©: m-ban

terça-feira, 3 de abril de 2018

Estante de leitura – Silêncio (II)

 


"P
RÓ – MEMÓRIA. Uma criança folheia um álbum de fotografias tiradas longe. Uma a uma, fixando-as com a atenção da primeira vez, reconhece o mundo da sua vivência escassa, da sua curta vida. Reconhece o mundo, ainda antes que ele se povoe de inúmeras coisas, porque o ser tem horror ao vazio que é o império da alam nua, tábua primordial onde se imprimem todas as sensações. Esta terra póstuma que as fotografias representam é, para a criança, uma terra de antes, uma paisagem em construção, um mundo que tem, aos seus olhos, a força brutal de uma revelação. Vamos, como crianças, por este sonho trazido de longe, acreditando que esta é a radiografia da nossa exaustão, o retrato em negativo da abundância. Escassez.

Silêncio: João Francisco Vilhena e Pedro Oliveira. Lisboa: Penguin Random House, 2017. 
Imagem: © – INCF (Parque nacional Peneda-Gerês)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Estante de leitura – Criação (IV)

"Interminavelmente. Viciosamente em círculos. Continuadamente.
Em novo, no mesmo, no real e no imaginário. Continuo.
Mesmo que sangre. Mesmo que a tinta derrame na queda. Há muito para querer ainda. A mão tem que continuar a escrever.
Tenho que ser mais do que aquilo que vejo. Mais do que aquilo que me acontece. Mais do que aquilo que não alcanço.
Tenho que ser mais longe.
A mão continua a escrever.
Escrever é continuar-me. É deixar-me sobre a folha de papel. Fluir-me em tinta. Esculpir-me em palavra-pedra. Escrever é conversar com o futuro. Eternizar-me. Ludibriar o fim. Deixar-me para sempre.
Finjo a realidade letra a letra. Transverso em palavras as reminiscências do olhar. Torno-as belas na minha conceção de belo.
Mascaro-as de mim. Uno-me a elas e continuamo-nos.
O mundo que vejo é literalmente literário. Um minuto numa estrofe. Num poema, um dia inteiro. Atos são apenas palavras de atos dramáticos.
O transcrito não é o reflexo fiel da verdade das coisas, mas a descrição íntegra do sentimento real e verdadeiro que tive ao vivê-las. Assim, existo o bastante naquilo que escolho escrever. Do que me escolho perpetuar. E quando me recordo ou me releio, repito-me. Revivo unicamente o lado interno e inteiro, puro do que (me) aconteceu. Regresso, sempre que quero, ao sentir que me encheu o peito de palavras.
Supero-me e continuo. Caminho a caminho em cada palavra. O meu caminho. No meu poemário. Nos meus espelhos.
Palavra a palavra na minha verdade, cada vez mais alto. Balão de ar quente a romper telhados, a tocar a estratosfera. A exceder-me, a ultrapassar-me. A deixar-me só. A encontrar o silêncio nas páginas cheias de palavras. A estar na posse da eleição de viver apenas o que quero viver.
Mesmo que as palavras, às vezes, não me saibam escrever.
Sinto falta de tinta de sangue.

Armanda Azevedo, “Dia 4 – Continuar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban 

Estante de leitura – Criação (IV)

"Interminavelmente. Viciosamente em círculos. Continuadamente.
Em novo, no mesmo, no real e no imaginário. Continuo. 
Mesmo que sangre. Mesmo que a tinta derrame na queda. Há muito para querer ainda. A mão tem que continuar a escrever. 
Tenho que ser mais do que aquilo que vejo. Mais do que aquilo que me acontece. Mais do que aquilo que não alcanço. 
Tenho que ser mais longe. 
A mão continua a escrever.
Escrever é continuar-me. É deixar-me sobre a folha de papel. Fluir-me em tinta. Esculpir-me em palavra-pedra. Escrever é conversar com o futuro. Eternizar-me. Ludibriar o fim. Deixar-me para sempre.
Finjo a realidade letra a letra. Transverso em palavras as reminiscências do olhar. Torno-as belas na minha conceção de belo.
"Mascaro-as de mim. Uno-me a elas e continuamo-nos.
O mundo que vejo é literalmente literário. Um minuto numa estrofe. Num poema, um dia inteiro. Atos são apenas palavras de atos dramáticos.
O transcrito não é o reflexo fiel da verdade das coisas, mas a descrição íntegra do sentimento real e verdadeiro que tive ao vivê-las. Assim, existo o bastante naquilo que escolho escrever. Do que me escolho perpetuar. E quando me recordo ou me releio, repito-me. Revivo unicamente o lado interno e inteiro, puro do que (me) aconteceu. Regresso, sempre que quero, ao sentir que me encheu o peito de palavras. 
Supero-me e continuo. Caminho a caminho em cada palavra. O meu caminho. No meu poemário. Nos meus espelhos. 
Palavra a palavra na minha verdade, cada vez mais alto. Balão de ar quente a romper telhados, a tocar a estratosfera. A exceder-me, a ultrapassar-me. A deixar-me só. A encontrar o silêncio nas páginas cheias de palavras. A estar na posse da eleição de viver apenas o que quero viver. 
Mesmo que as palavras, às vezes, não me saibam escrever. 
Sinto falta de tinta de sangue."

Armanda Azevedo, “Dia 4 – Continuar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban