quinta-feira, 30 de julho de 2026

Os Livros

"O livro é um dos objetos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores.

 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Estante de leitura - acolher

 "
() O dia está quente, luminoso. com manchas de sombra e uma luz esverdeada súbita ao longo da estrada. (…) Aqui e ali, o azul está esborratado com nuvens, mas, no geral, é uma mistura estonteante de céu e árvores atravessados por cabos de eletricidade em cima dos quais, de vez em quando, se veem pequenos bandos acastanhados de pássaros evanescentes.
E os dias vão passando. Estou sempre à espera de que algo aconteça, que a descontração que sinto chegue ao fim: acordar numa cama molhada, fazer alguma asneira, uma gafe grande, partir algo, mas cada dia que passa é igual ao anterior. Acordamos com o nascer do sol e, ao pequeno – almoço, comemos ovos preparados de uma maneira ou de outra, acompanhados com torrada e marmelada. (…)
Uma Lua enorme brilha sobre o pátio, delineando o nosso trajeto até ao caminho de acesso e depois ao longo da estrada.

O Kinsella dá-me a mão. Assim que ele o faz, ocorre-me que o meu pai nunca me segurou a mão, e uma parte de mim deseja que o Kinsella ma largue, para que eu não tenha de sentir isto. É um sentimento complicado, mas, à medida que continuamos, começo a sentir-me mais à vontade e aceito a diferença entre a minha vida em casa e aqui. Ele dá passos mais pequenos, para que possamos caminhar lado a lado. Penso na mulher na casa pequena, na maneira como caminhava e falava, e concluo que as pessoas são todas muito diferentes. (…)
«Às vezes acontecem coisas estranhas – continua ele. – Esta noite também te aconteceu uma coisa estranha, mas a Edna não fez por mal. É demasiado boazinha, ela. Está sempre à procura do que há de melhor nas outras pessoas, e, às vezes, a sua maneira de o encontrar é confiando nelas, esperançosa de que não a desiludirão, só que às vezes desiludem.» (…) “

Tudo nessa noite me parece estranho: visitar um mar que sempre ali esteve, vê-lo e senti-lo e temê-lo na meia-luz, e ouvir este homem dizer coisas sobre cavalos no mar, sobre a mulher dele confiar em pessoas para saber em quem não confiar, coisas que não compreendo muito bem, coisas que talvez nem sejam para os meus ouvidos.
Continuamos a andar até alcançarmos uma zona onde os penhascos e as rochas se estendem até à água. Agora que não podemos continuar em frente, temos de voltar para trás. Talvez o caminho de regresso me ajude a compreender o passeio até aqui. Aqui e ali , cintilam conchas lisas e brancas deixadas pelas ondas. Baixo-me para as colher. Sinto-as suaves e limpas e frágeis nas minhas mãos. Damos meia-volta e continuamos ao longo da praia, parecendo percorrer uma distância maior do que aquela que atravessámos até alcançarmos o sítio onde já não havia passagem, e então a Lua desaparece atrás de uma nuvem meio escura, e deixamos de ver o caminho. Nessa altura, o Kinsella deixa escapar um suspiro, para e acende a lanterna. (…)

Quando a Lua torna a parecer, ele desliga a lanterna e, sob a luz do luar, encontramos facilmente o caminho que fizemos desde as dunas. Quando chegamos ao cimo, ele não me deixa calçar os sapatos, e em vez disso calça - mos ele. Em seguida, calça-se e aperta os atacadores. Depois ficamos ali parados, a contemplar a água.
– Estás a ver, agora há três luzes, quando antes só havia duas.
– Olho para o mar. Ao fundo, as duas luzes continuam a piscar como antes, mas agora com outra luz, essa fixa, brilhando no meio delas.
– Consegues vê-la? – pergunta-me.
– Sim – respondo. Está ali.
E é então que ele põe os braços à minha volta e me puxa para um abraço, como se eu lhe pertencesse. (…)
Agora que sei que tenho de voltar para casa, quase me apetece ir, só para despachar a coisa. (…).
A mulher dá-me uma mala de couro castanha.
– Podes ficar com esta coisa velha- diz-me . – Nunca vamos a lado nenhum, e nunca lhe dou uso.
Dobramos todas as minhas peças de roupa e guardamo-las dentro da mala, juntamente com os livros que comprámos na Webb’s em Gorey: Heidi, O que Katy fez a seguir, A Rainha da Neve. No início, vi-me aflita com algumas das palavras maiores, mas o Kinsella apontava-me cada uma delas com a unha, com grande paciência, até eu adivinhar, ou quase a adivinhar, e depois comecei a fazê-lo sozinha, até já não precisar de adivinhar, e li tudo até ao fim. Foi como aprender a andar de bicicleta; senti-me a arrancar, senti a liberdade de ir a sítios onde não poderia ter ido antes, e foi muito fácil.

Keegan, Claire. (2023). Acolher. Lisboa: Relógio D ´Agua.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Estante de leitura - Os meus dias na Livraria Morisaki

 “Quando mais tarde, chegou o meu tio, encontrou-me ainda inflamada. Como estava habituada ao meu acolhimento morno, ficou pasmado.

– Este livro é belíssimo – disse eu, mostrando-lhe Até à Morte de uma Rapariguinha.
O seu rosto iluminou-se, parecia uma criança que acabara de receber um presente de aniversário maravilhoso.
– É verdade! Que bom que também aches – exclamou, todo entusiasmado.
– Sim, é mesmo um belo livro. Como posso dizer… Prendeu-me.
Irritava-me não conseguir explicar melhor. A expressão “prendeu-me” não transmitia, nem de perto, nem de longe, a ideia do alvoroço interior que aquele livro provocara em mim.
– É fantástico ouvir-te dizer isso. E, ainda por cima, foste ler um autor fora de moda como Murō Saisei, parabéns.
O tio estava tão feliz que também me contagiou.
Então, começámos a falar do livro e assim ficámos durante algum tempo. Eu estava contente por ter finalmente algo em comum com alguém. Mesmo que fosse o meu tio, aliás, estava emocionada precisamente porque se tratava de uma pessoa como ele.
As situações inesperadas abrem-nos portas que nem sequer imaginávamos. Era mesmo assim que me sentia.
E, de facto, a partir daquele momento, comecei a ler um livro atrás de outro. Era como se a sede de leitura, há muito adormecida dentro de mim, tivesse explodido de repente.
Tentava saborear os livros que lia, um de cada vez, devagar. Tinha todo o tempo do mundo, e, quanto aos livros, não corria o risco de ficar sem exemplares.
Nagai Kafū, Jun’ichirō Tanizaki, Dazai Osamu, Haruo Satō, Akutagawa Ryūnosuke , Uno Kōji… Nomesde que já ouvira falar, mas dos quais nunca lera nada, ou que me eram completamente novos, não importava: se me despertavam a curiosidade, pegava neles e lia-os avidamente. E quantos mais lia, mais queria ler.
Era a primeira vez que viva uma experiência tão maravilhosa. Quase parecia que desperdiçara anos de vida.
Deixei de dormir horas e horas, já não sentia essa necessidade. Ao invés de me refugiar no sono, quando o meu tio me substituía, ia a correr ler num café ou no meu quarto.
Aqueles livros velhos escondiam histórias, para mim, inimagináveis. E não me refiro apenas àquilo que contavam. Em cada um encontrei vestígios do passado.
Por exemplo, em Paisagem de Uma Alma, de Kajii Motojirō, li:

“O que significa observar? Significa transferir para um objeto parte da sua alma, se não a sua totalidade.

Alguém a ler esta frase, devia ter-se emocionado e sublinhara-a a caneta. Eu, que também me emocionara, senti uma afinidade com aquele desconhecido e fiquei feliz.
Aconteceu-me também encontrar flores secas usadas para marcar a página onde se parara. Quando acontecia, cheirava-as e fantasiava sobre quem, quando e em que estado de espírito as deixara entre aquelas páginas amarelecidas.
Eram encontros que ultrapassavam as barreiras temporais, apenas possíveis através dos livros velhos. E assim comecei a afeiçoar-me à livraria Morisaki, que estava repleta de livros velhos. Poder passar horas naquele pequeno mundo sereno parecia-me um privilégio.

Yagisawa, Satoshi. (2023). Os meus dias na livraria Morisaki. Barcarena: Editorial Presença

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Estante de leitura - Rebeldes magníficos

 Entre 1794 e 1799 um brilhante grupo de pensadores (Caroline Böhmer-Schlegel-Schelling, Joahann Gottlieb Fichte, Johann Wolfgang von Goethe, Georg Friedrich Hegel, Alexander von Humboldt, Novalis, Friedrich Schelling, Friedrich Schiller, Friedrich Schlegel, Wilhelm von Humboldt) juntou-se na cidade de Jena, na Alemanha e nela construiu uma revolução, a partir da invenção do eu, do livre-arbítrio e de uma nova ideia de relação do humano com o natural. O eu e o livre-arbítrio que estiveram na base do seu pensamento e que colocou de um modo determinante a escolha sobre liberdade e moralidade.

Continuamos a ter de fazer essa escolha. Encontrar na vida de cada um o seu significado mais autêntico, forma de compreender os outros e estar num mundo social e cultural foi a sua grande oferta para outros tempos. Com o grupo de Jena podemos voar no pensamento do que pode ser esse eu interior, pois eles deram-nos asas para essa possibilidade. Como o usaremos é uma questão que igualmente nos deixaram, nessa visão destacada por Novalis que liberdade e amor são uma e a mesma coisa”. Uma ideia para refundar outra forma de pensarmos a vida e o mundo.

Um livro deslumbrante sobre um grupo fascinante que mudou o modo como podemos ver o mundo.

“O Iluminismo iluminara de facto, mas esta nova abordagem racional também criara um certo distanciamento em relação à natureza e excluíra os papéis do sentimento e da beleza. A natureza tornara-se algo que era investigado a partir de uma pretensa perspetiva objetiva. Por exemplo, a luz já não era apreciada pelo seu jogo caleidoscópio de cores iridescentes, dizia Novalis, mas pela sua refração e “obediência matemática”; daí a sua elevação à própria palavra “Iluminismo”.

Era por isso que os alunos de Schelling gostavam tanto do seu jovem professor. Ele reunia o que a revolução científica separara: a natureza e a humanidade. Por mais que os cientistas observassem, calculasse e experimentassem, havia algo emocional, algo visceral e talvez inexplicável em redor da ligação da humanidade com a natureza.

Seja como for que a sintamos, a natureza pode acalmar, curar ou encher-nos apenas de alegria. Schelling deu-nos a explicação filosófica. E ao fazê-lo, a sua filosofia de unicidade tornou-se o batimento cardíaco do Romantismo.”

Wulf, Andrea. (2023). Rebeldes Magníficos – Os primeiros Românticos e a Invenção do Eu. Lisboa: Temas e Debates.

sábado, 13 de julho de 2024

Estante de leitura – o olho e o espírito

 “A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Para si estabelece modelos internos das coisas e, operando sobre estes índices ou variáveis, as transformações permitidas pela sua definição só se confrontam de quando em quando com o mundo atual. Ela é, sempre foi, esse pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, essa opção de tratar qualquer ser como “objeto em geral», ou seja, ao mesmo tempo como se não fosse nada e se encontrasse, no entanto predestinado para os nossos artifícios

É necessário que o pensamento da ciência – pensamento de sobrevoo, pensamento do objeto em geral – se coloque de novo num aí prévio, in locus, sobre o solo do mundo sensível e do mundo trabalhado. Tal como existe na nossa vida, para o nosso corpo, não esse corpo possível em relação ao qual é permitido defender que se trata de uma máquina de informações, mas este corpo atual que eu chamo meu, a sentinela que se mantém silenciosamente sob as minhas palavras e os meus atos. É necessário que, com o meu corpo, despertem os corpos associados, os «outros», que não são meus congéneres, como diz a zoologia, mas que me assombram, que eu assombro, com os quais comungo um ser único atual, presente, como nunca nenhum animal assombrou os da sua espécie, do seu território, ou do seu meio. Nesta historicidade primordial, o pensamento apressado e improvisador da ciência aprenderá a aprofundar-se nas coisas enquanto tais e em si mesmo, tornar-se-á de novo filosofia…
Ora a arte e especialmente a pintura bebem nessa camada de sentido bruto da qual o ativismo nada quer saber. Elas são mesmo as únicas a fazê-lo em toda a inocência. (…) Ao escritor, ao filósofo, pede-se conselho ou opinião, não se admite que tenham o mundo em suspenso, exige-se que tomem posição, não podem declinar as responsabilidades do homem falante. O pintor é o único a ter o direito do olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação. Dir-se-ia que perante ele as palavras de ordem do conhecimento e da ação perdem a sua virtude. (…) Ele [o pintor] aí está, forte ou fraco na vida, mas incontestavelmente soberano na sua ruminação do mundo, sem outra «técnica» senão a criada pelos seus olhos e pelas suas mãos à força de ver, à força de pintar, obstinado a tirar deste mundo, onde soam os escândalos e as glórias da história, telas que nada acrescentarão às cóleras e às esperanças dos homens e ninguém se queixa. Que ciência secreta é esta que ele possui ou procura? Esta dimensão segundo a qual Van Gogh quer ir «mais longe»? Este fundamental da pintura, e talvez de toda a cultura.”

O olho e o espírito / Merleu-Ponty. Pontinha: Vega; Imagem: “Senecio” / Paul Klee, 1922.



segunda-feira, 6 de novembro de 2023


"Iremos juntos pela praia
Embalados no dia
Colhendo algas rochas e corais
Que na praia deixou a maré cheia

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e de conhecimento (1)

Sophia foi, é alguém que é uma fonte de inspiração para nos fazer entrar num mundo, um reino muito especial. O reino de palavras, de ideias tecidas na procura de uma claridade, de uma luz que antecedam as sombras do mundo. As palavras como ferramenta para conhecer a claridade da azul-respiração das coisas, entre o vento e o mar, na construção de um cosmos que emerge do caos e nos dá o essencial da essência humana.

Sophia é uma das grandes figuras da literatura portuguesa dos últimos cem anos. Sophia de Mello Breyner Andresen, que fez da sua vida um encantamento por esse amor antigo e futuro de todas as ideias, concedeu-nos as palavras da pura claridade, o dia inicial criado do caos para nos harmonizar com o real. Sophia é um nome, uma paisagem, uma forma de olhar que tem inspirado sucessivas gerações a descobrir no real, uma forma de divindade por onde a sua palavra respira assombrada pela sua essência de simplicidade. Deu-nos uma respiração de coral e nela vemos a tão difícil, mas tão necessária, dimensão da autenticidade nos gestos e nas palavras.

 As palavras são, em Sophia, não uma descrição planeada ou imaginada do real, mas sim a descrição do olhar, o concreto onde sobressai a nossa dimensão humana. Com a sua arte poética e narrativa, temos uma escrita muito preocupada com os limites da existência humana, de onde emerge em simplicidade um encontro com a Natureza e em especial com o mar. Encontros de natureza diversa, de onde emergem os gregos e a sua aventura pelo conhecimento da inteligibilidade do mundo, os seus mitos. Por esse mar de casas brancas, onde o sonho, a descoberta de novos horizontes, o puro descobrimento, na ideia grega (altheia) de dar ao real um significado divino.

Sophia deu-nos uma obra literária marcada pela poesia, pelos contos, onde fez nascer um imaginário de conhecimento das imagens que nos levam ao real, à procura de uma essência do humano.

Da sua obra, destacam-se a poesia, como forma primeira de uma expressão da palavra, na respiração do mundo, e os contos, em que muito do seu imaginário foi levado a crianças mais jovens. Na poesia, publicou diversos títulos, como, No tempo dividido, Coral, Navegações, Ilhas, O nome das coisas, onde o deslumbramento pela palavra, a extrema sensibilidade e clareza tentam encontrar campos e horizontes de felicidade, numa procura de uma dimensão humana que se pretende afirmar acima de qualquer tempo.  

A luz que ela nos deu é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não numa dimensão política, da usura de títulos, mas a de uma nobreza feita da que procura dialogar consigo própria, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido de possibilidades que o real nos concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, de quem se espanta pelo assombro do mundo, pela sua beleza e injustiça, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos pode fazer herdeiros da maior inteireza possível. 

Sophia, viveu ela própria o sonho, aspirou por ele, lutou por ele, sonhou com esse dia novo, com essa construção substantiva do tempo, das ideias nobres, simples, da reconquista apenas por si, pelo movimento, pela graça, retirando as máscaras e desbravando no caos, a pureza inicial do homem. Sonhou com esse movimento de levitação, o sonho que uma “revolução” permitiria. Não a de ideias passadas, de caminhos de glória, mas a escrita no coração, a partir da página em branco, onde cada respiração e olhar vê o dia e o mar em absoluto maravilhamento.

 Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que nós também sentíssemos a questão inicial, o sopro vivo da palavra comprometida. Infelizmente, nós não a compreendemos e temos muitos exemplos desta destruição pelo valor da palavra, onde a construção de uma comunidade se vê isolada da sua substância mais vital. Resta-nos com ela absorver o seu maior legado. O coração e as palavras que são sempre novas todos os dias, pois elas procuram construir um equilíbrio. 

Um equilíbrio que se sobreponha aos labirintos e ao caos, desvendando as sombras que no real nos afastam da essência. Palavras, como instrumentos para podermos abordar os dias, reconquistando um real a esse caos, tantas vezes usado e criado por desleixo e falta de vontade humana. Sophia abriu as palavras e com elas a realidade a nós, abrindo o Pórtico que ilumina cada homem que recebe esse bem sagrado que é a vida. As suas palavras são uma permanente iluminação, por onde se busca a mais perfeita claridade. Sophia criou um reino, uma linguagem que se exprime na sua Poesia, como uma forma de tornar possível, de fazer nascer um real onde se fragmentam os nossos passos de sol.

 (1) - Andresen, S. de M. B. ( ....) No tempo dividido. Alfragide: Caminho. 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Estante de leitura - Emily Dickinson


“Não sou Ninguém! Quem és tu?
És um – ninguém – Também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! não vão eles – contar!

Que horror – o ser – Alguém!
Que vulgar – como a rã –
Passar o Junho todo – a anunciar o seu nome –
No charco de pasmar!” (1)

“Se eu já não estiver viva
Quando os Piscos voltarem,
Deem ao do Peitilho de Sangue
Uma migalha por minha Memória.

E se eu não vos puder agradecer
Por estar já tão adormecida,
Sabei que ainda assim o estou tentando
Com lábio de Granito!” (2)

“Hei-de sempre cantar!
Por mim passarão pássaros
A caminho de Climas mais de Sol –
Cada um – com seu anseio de Pisco –
Eu – com o meu Peito-Ruivo –
E o meu Rimar –

Mais tarde – quando ocupar o meu lugar no Verão –
Hei - de trazer muito mais cheio tom –
As Vésperas – mais doces que as Matinas – Senhor –
Só da Tarde a semente – é a Manhã – (3)

(1) “I’m nobody! Who are you?”; (2) – “If I shouldn’ t be alive”; (3) – I shall keep singing!”

in Duzentos Poemas / Emily Dickinson. Lisboa: Relógio D´Água, 2014.