“Não sou Ninguém! Quem és tu?
És um – ninguém – Também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! não vão eles – contar!
Que horror – o ser – Alguém!
Que vulgar – como a rã –
Passar o Junho todo – a anunciar o seu nome –
No charco de pasmar!” (1)
“Se eu já não estiver viva
Quando os Piscos voltarem,
Deem ao do Peitilho de Sangue
Uma migalha por minha Memória.
E se eu não vos puder agradecer
Por estar já tão adormecida,
Sabei que ainda assim o estou tentando
Com lábio de Granito!” (2)
“Hei-de sempre cantar!
Por mim passarão pássaros
A caminho de Climas mais de Sol –
Cada um – com seu anseio de Pisco –
Eu – com o meu Peito-Ruivo –
E o meu Rimar –
Mais tarde – quando ocupar o meu lugar no Verão –
Hei - de trazer muito mais cheio tom –
As Vésperas – mais doces que as Matinas – Senhor –
Só da Tarde a semente – é a Manhã – (3)
(1) “I’m nobody! Who are you?”; (2) – “If I shouldn’ t be alive”; (3) – I shall keep singing!”
in Duzentos Poemas / Emily Dickinson. Lisboa: Relógio D´Água, 2014.
