quarta-feira, 29 de julho de 2015

Estante de leitura – A Casa Amarela

"Vincent ardia de entusiasmo com as coisas e as pessoas que via. Sabia que havia quem achasse que ele pintava demasiado depressa, mas defendia esse hábito. Eram as emoções que o impeliam, por isso havia alturas em que as pinceladas lhe fluíam como as palavras quando estava a fervilhar de ideias. (…) 

Vincent fazia agora uma nova tentativa de pintar o tema que continuava a ter na cabeça para a plantação de um mundo novo: o Semeador. O seu significado decorria de uma parábola de Cristo. O semeador lança a sua semente à terra. A ideia de possibilidade de transformação, tanto artística como pessoal, continuava no centro do pensamento e dos esforços de Vincent. Tinha escrito à sua irmã no ano anterior: ”Em cada ser humano que é saudável e natural há uma força que germina, tal como num grão de trigo. E por isso a vida natural é germinação. Aquilo que a força germinante é para o grão, é o amor para nós”. A metáfora da germinação tinha um enorme significado para Vincent, talvez em parte por causa das transformações extraordinárias, e ainda em curso, da sua própria vida, de comerciante de arte em pregador e depois em pintor. Também ele tinha esperança na transformação da vida humana em algo que escapasse ao sofrimento amargo que tantas vezes parecia estar reservado aos mortais e seguramente a Vincent Van Gogh. A arte era uma forma de imaginar um mundo futuro. O Semeador era um símbolo da ressurreição. (…) 

Vincent ocupou muitas vezes a mente de Paul Gauguin. (…) Perto do fim da vida escreveu um manuscrito intitulado Diverses choses. Nele se incluíam meditações sobre a cor, a religião e, no fim, o conto em que se fundia o circo, o bordel e outras histórias de Arles. Na página de rosto escreveu uma descrição do seu manuscrito: “Notas esparsas, sem sequência, como sonhos, e como a própria vida inteiramente feita de fragmentos.” Por baixo, escreveu que várias pessoas tinham colaborado no “amor das coisas belas vislumbradas na casa do futuro”. Estava certamente a pensar na Casa Amarela e no seu antigo companheiro de Arles, Vincent Van Gogh. "

sábado, 11 de julho de 2015

Estante de leitura – Elogio do Inacabado

"Desde o momento em que Gui passou o pé calçado à italiana, no átrio da sua nova casa, passou para a terra, tornou-se poeira e mais nada. E dela brotaram filhos suplicando mais entendimento, e pouco a pouco cresceram e desenvolveram a rotina de que eram portadores. Horácio dizia-lhes:

– Que quereis ser?
– Médicos, engenheiros – respondiam, ufanos de não trazerem más surpresas a quem os protegia e lhes davam coisas. “Porque amas a Deus?”, perguntara um dia Horácio a Marco, o filho adoptivo do seu tio Óscar. E ele dissera-lhe como modo astucioso: ”Porque ele dá coisas”. A medida da indignidade humana ficara para sempre expressa nesta resposta do pequeno Marco. Obter o máximo, saber pedir, de joelhos, de memória, de mãos postas, fora durante milénios toda a educação sentimental do homem. Nascia-se sôfrego, morria-se serviçal. Um dia no céu, um emprego na terra, patrões poderosos, era tudo quanto se ambicionava. João Ary dizia “Elogia sempre alguém; é de graça e acaba sempre por render alguma coisa.” Foi depois de ouvir pela centésima vez um conselho destes, que Horácio saiu para a sua comarca, sem ter desfrutado de todas as férias. Estava farto. “Mas de quê, de quê?”, interrogava-se no seu quarto. E o coração batia-lhe como se, de repente, um alarme de felicidade o desertasse. A criada, a Melada, com os seus chinelos rapilhados, nos grandes pés recém-lavados, trazia-lhe chá e torradas."

Agustina Bessa-Luís. (2015). “As grandes mudanças”. Elogio do Inacabado. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 138-139. (Inéditos dos anos 60).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Estante de leitura – Jóquei

"Não sou de choro fácil a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico. Ou quando acho uma carta que fale sobre a descoberta de um novo modelo para a estrutura do ácido desoxirribonucleico, uma carta que termine com “muito amor, papai”. Francis Crick achou o desenho do ADN e escreveu a seu filho só para dizer que “nossa estrutura é muito bonita”. Estrutura, foi o que ele falou. Antes de despedir-se ainda disse: ” Quando você chegar em casa vou-te mostrar o modelo”. 

Isso não esqueça os dois pacotes de leite, já agora passe a comprar pão, guarde o resto do dinheiro para seus caramelos, e quando você chegar eu te mostro o mecanismo copiador básico a partir do qual a vida vem da vida. Não sou de choro fácil mas um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos me comove. Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir, e olha que eu moro bem no meio da montanha. De vez em quando vejo passar os aviões, mas isso nunca acontece de madrugada – a noite se guarda toda para o infinito silêncio. 

Algumas vezes, durante o apuramento das estrelas, penso nos santos que protegem os pilotos. Amelia Earhart disse que não casaria a não ser que fosse assinada uma tabela de condições e essas condições implicavam a possível fuga a qualquer momento.” I cannot gurantee to endure at all times the confinements of even an attractive cage”. Vai passarinho. Soube de uma canção cujo refrão dizia I would die for you, fiquei pensando que mais de metade das canções do mundo dizem isso mas eu nunca entendi isso. Negócio de amor e morte, credo. Lá na escola eles ensinavam que amor são sete vidas multiplicadas, então acho que amor é o contrário do fim. Sei lá, o mundo está mudando tanto. Não sou de choro fácil a não ser quando penso em determinados milagres que ainda não aconteceram. Meu time ganhou por três a dois. O maior banco norte-americano errou, e errou em muitos milhões. Ninguém chegou a falar do aniversário do Superman, e isso também conta como erro. 

Faltam seis dias para a Primavera, está tendo uma contagem comunitária na aldeia mais próxima daqui. Acho que está chegando a hora do sossego, e que muita alegria vai pintar por aí. Acho que uma palavra é muito mais bonita do que uma carabina, mas não sei se vem ao caso. Nenhuma palavra quer ferir outras palavras: nem desoxirribonucleico, nem montanha, nem canção. Todos esses conceitos têm os seus sinónimos simplificados, veja só, ácido desoxirribonucleico e ADN são exatamente a mesma coisa, e o resto das palavras você acha. É tudo uma questão de amor e prisma, por favor não abra os canhões. Quando Amelia Earhart morreu continuava casada com Putnam – suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho." 

Matilde Campilho. “Notícias escrevinhadas na beira da estrada”. Jóquei. Tinta da China. 2015, p. 21-22.