quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Estante de leitura – Cuidar dos vivos

"O coração? Marianne volta a perguntar. Sim, o coração repete Thomas. O coração de Simon. Marianne está aturdida. O coração de Simon – ilhotas de células sanguíneas confluem num pequeno saco para formar a rede vascular inicial do 17º dia, a bomba arranca ao 21º dia, o sangue escoa-se pelos canais em formação, inundando tecidos, veias, tubos e artérias, constituem-se as 4 cavidades, o conjunto bem articulado ao quinquagésimo dia, ainda que inacabado. O coração de Simon – um abdómen em bola que se ergue docemente no fundo de um  berço; o pássaro dos terrores noturnos  enlouquecido num peito de criança; o tambor stacrato parado no destino de Anakin Skywalker; o fogo debaixo da pele quando a 1ª onda se eleva – toca-me nestes peitorais dissera-lhe ele numa noite, músculos contraídos, caretas de macaco, tinha 14 anos e no olhar o clarão novo do rapaz que toma consciência do seu corpo, toca-me nestes peitorais, mamã -; a perturbação diastólica quando os seus olhos captam Juliette na paragem de autocarro na avenida Maritime, uma t-shirt comprida às riscas, doc Martens e impermeável vermelho, pasta de desenhos debaixo do braço; a falta de ar ao ver o papel pardo na noite de Natal, a prancha de surf desembrulhada no meio do barracão gelado, o embrulho rasgado com aquela mistura de meticulosidade e arrebatamento, como quem abre o envelope de uma mensagem de amor. O coração, portanto.  (…)

Neste polar, parece que o céu opaco se dissolve, a camada de nuvens rasga-se, lanosa, a Ursa Maior aparece. O coração de Simon migra agora, está em fuga sobre as órbitas, sobre os carris, sobre as estradas, transportado numa caixa cuja parede plástica, ligeiramente granulosa, brilha sob os raios de luz eléctrica, escoltado com uma atenção inaudita, como outrora se escoltavam os corações dos príncipes, como se escoltavam as suas entranhas e os seus esqueletos, inumados na basílica, na catedral, na abadia, de modo a garantir um direito à sua linhagem, orações pela sua salvação, um futuro para a sua memória – distinguia-se o barulho dos tamancos desde o fundo dos caminhos, sobre a terra batida das aldeias e o empedrado das cidades, a sua batida lenta e soberana, em seguida vislumbrava-se as chamas dos archotes que criavam sombras líquidas nas folhagens, nas fachadas das casas, nos rostos alucinados, concentravam-se nas soleiras das portas, toalha ao pescoço, descobriam-se as cabeças e benziam-se em silêncio para ver passar esse cortejo extraordinário, a carroça preta puxada por 6 cavalos de luto, arreados com mortalhas e mantas preciosas, a escolta de doze cavaleiros com tochas, os longos casacos negros e os crepes pendentes, e às vezes ainda pajens e valetes a pé brandindo círios de cera branca, às vezes também companhias de guardas, e o cavaleiro em lágrimas que conduzia o conjunto acompanhava o coração para o seu túmulo, progredindo até ao fundo das criptas, até à capela de um mosteiro ou de um castelo natal, até um ninho escavado em mármores negros e adornado de colunas retorcidas, um santuário coberto por uma coroa radiante, medalhada por escudos e brasões preciosos, as divisas latinas desfraldadas sobre estandartes de pedra, e muitas vezes tentava-se uma espreitadela para o interior do carro através da fenda das cortinas, para o banco onde estava o oficial da transacção, aquele que iria em pessoa entregar o coração aos que doravante o teriam a seu cargo e rezariam por ele, o mais das vezes um confessor, um amigo, um irmão, mas a obscuridade nunca permitia ver esse homem, nem o relicário pousado sobre uma almofada de tafetá negro, e ainda menos o coração no seu interior, o membrum principalissimum, o rei do corpo, porque colocado no centro do peito como o soberano no seu reino, como o sol no cosmos, esse coração aninhado numa gaze brocada a ouro, esse coração que era chorado.
O coração de Simon migrava para um outro lugar do país, os rins, o fígado e os pulmões chegavam a outras províncias, fugiam para outros corpos. O que subsistira, nesta explosão, da unidade do seu filho? Como ligar a sua memória singular a este corpo difractado? O que seria feito da sua presença, do seu reflexo na terra, do seu fantasma? Estas interrogações circulam ao redor dela como arcos ardentes e então o rosto de Simon forma-se diante dos seus olhos, intacto e único. É irredutível, é ele. Sente uma calma profunda. A noite anda lá fora como um deserto de gesso.
O corpo de Simon Limbres é doravante um despojo. Aquilo que a vida deixa atrás de si quando se retira, aquilo que a morte depõe  no campo de batalha. É um corpo ultrajado. estrutura, carcaça, pele. A do rapaz adquire lentamente a cor de marfim, parece endurecer, nimbada por esse clarão cru que cai do cialítico, parece tornar-se uma carapaça seca, um plastrão, uma armadura, e as cicatrizes que atravessam o abdómen fazem pensar num golpe mortal – a lança no flanco de Cristo, a espada de guerreiro, a lâmina do cavaleiro. Terá sido esse gesto de coser que levou ao canto do bardo, ao narrador da Grécia Antiga, terá sido a figura de Simon, a sua beleza de jovem saído das ondas marinhas, os cabelos ainda cheios de sal e encaracolados como os desses companheiros de Ulisses que o perturbam, terá sido a sua cicatriz em cruz, fosse o que fosse, Thomas começou a cantar. Um canto ténue, um canto sincronizado, um canto que depõe.
“Terá Claire escutado o canto de Thomas Rémige nos seus sonhos anestésicos, esse canto de bela morte? Terá ela escutado a sua voz na noite às quatro da manhã enquanto recebia o coração de Simon Limbres."

Cuidar dos vivos. Maylis de Kerangal ; Lisboa : Teodolito, 2017. 

domingo, 20 de agosto de 2017

Estante de leitura – What’s in a name

"Os mares de Homero deixaram
de trazer, esbeltas, as suas naves

em nome dos sem-nome, continua
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua. por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
ao fundo do deserto, diz-se gotas de
sangue e grãos de areia, a esfinge
no deserto, continua. no verdadeiro
nome do espesso líquido que se diz
vital, em toneladas certas, continua.

os divinos moinhos moendo devagar
fina farinha, inúteis mares de pó"

Ana Luísa Amaral, “Mediterrâneo”, in What´s in a name. Porto: Assírio & Alvim.