Neste polar, parece que o céu opaco se dissolve, a camada de nuvens rasga-se, lanosa, a Ursa Maior aparece. O coração de Simon migra agora, está em fuga sobre as órbitas, sobre os carris, sobre as estradas, transportado numa caixa cuja parede plástica, ligeiramente granulosa, brilha sob os raios de luz eléctrica, escoltado com uma atenção inaudita, como outrora se escoltavam os corações dos príncipes, como se escoltavam as suas entranhas e os seus esqueletos, inumados na basílica, na catedral, na abadia, de modo a garantir um direito à sua linhagem, orações pela sua salvação, um futuro para a sua memória – distinguia-se o barulho dos tamancos desde o fundo dos caminhos, sobre a terra batida das aldeias e o empedrado das cidades, a sua batida lenta e soberana, em seguida vislumbrava-se as chamas dos archotes que criavam sombras líquidas nas folhagens, nas fachadas das casas, nos rostos alucinados, concentravam-se nas soleiras das portas, toalha ao pescoço, descobriam-se as cabeças e benziam-se em silêncio para ver passar esse cortejo extraordinário, a carroça preta puxada por 6 cavalos de luto, arreados com mortalhas e mantas preciosas, a escolta de doze cavaleiros com tochas, os longos casacos negros e os crepes pendentes, e às vezes ainda pajens e valetes a pé brandindo círios de cera branca, às vezes também companhias de guardas, e o cavaleiro em lágrimas que conduzia o conjunto acompanhava o coração para o seu túmulo, progredindo até ao fundo das criptas, até à capela de um mosteiro ou de um castelo natal, até um ninho escavado em mármores negros e adornado de colunas retorcidas, um santuário coberto por uma coroa radiante, medalhada por escudos e brasões preciosos, as divisas latinas desfraldadas sobre estandartes de pedra, e muitas vezes tentava-se uma espreitadela para o interior do carro através da fenda das cortinas, para o banco onde estava o oficial da transacção, aquele que iria em pessoa entregar o coração aos que doravante o teriam a seu cargo e rezariam por ele, o mais das vezes um confessor, um amigo, um irmão, mas a obscuridade nunca permitia ver esse homem, nem o relicário pousado sobre uma almofada de tafetá negro, e ainda menos o coração no seu interior, o membrum principalissimum, o rei do corpo, porque colocado no centro do peito como o soberano no seu reino, como o sol no cosmos, esse coração aninhado numa gaze brocada a ouro, esse coração que era chorado.
O coração de Simon migrava para um outro lugar do país, os rins, o fígado e os pulmões chegavam a outras províncias, fugiam para outros corpos. O que subsistira, nesta explosão, da unidade do seu filho? Como ligar a sua memória singular a este corpo difractado? O que seria feito da sua presença, do seu reflexo na terra, do seu fantasma? Estas interrogações circulam ao redor dela como arcos ardentes e então o rosto de Simon forma-se diante dos seus olhos, intacto e único. É irredutível, é ele. Sente uma calma profunda. A noite anda lá fora como um deserto de gesso.
O corpo de Simon Limbres é doravante um despojo. Aquilo que a vida deixa atrás de si quando se retira, aquilo que a morte depõe no campo de batalha. É um corpo ultrajado. estrutura, carcaça, pele. A do rapaz adquire lentamente a cor de marfim, parece endurecer, nimbada por esse clarão cru que cai do cialítico, parece tornar-se uma carapaça seca, um plastrão, uma armadura, e as cicatrizes que atravessam o abdómen fazem pensar num golpe mortal – a lança no flanco de Cristo, a espada de guerreiro, a lâmina do cavaleiro. Terá sido esse gesto de coser que levou ao canto do bardo, ao narrador da Grécia Antiga, terá sido a figura de Simon, a sua beleza de jovem saído das ondas marinhas, os cabelos ainda cheios de sal e encaracolados como os desses companheiros de Ulisses que o perturbam, terá sido a sua cicatriz em cruz, fosse o que fosse, Thomas começou a cantar. Um canto ténue, um canto sincronizado, um canto que depõe.
“Terá Claire escutado o canto de Thomas Rémige nos seus sonhos anestésicos, esse canto de bela morte? Terá ela escutado a sua voz na noite às quatro da manhã enquanto recebia o coração de Simon Limbres."
Cuidar dos vivos. Maylis de Kerangal ; Lisboa : Teodolito, 2017.

