"Que coisa gera a dor gratuita, senão a revolta?
Que os malvados recebam uma punição nesta terra, e talvez também depois, pode estar certo. Aliás, a ideia até dá alívio à maioria das pessoas, mas os inocentes, aqueles que não têm culpa?
Um gatinho? Uma criança? Como se pode aceitar tal loucura?
Para muitos basta isso para recusarem para sempre qualquer conceito que rejeite a anarquia do destino, para outros, pelo contrário, a dor é um desafio para seguir por diante. Tudo aquilo que acontece nos interroga, e a interrogação é a única via que nos permite subtrair posições ao nada. O mal não nos devora, a dor devasta-nos, mas não nos aniquila.
A partir do momento em que tive o dom da vida, e portanto da consciência, não tenho problemas em discutir com os outros. Mesmo não sabendo o que é, mesmo não sabendo como encontrá-la, quero ir ao encontro da Verdade que envolve e sustém todas as coisas.
Não é o mundo dos homens que nos fala dela, mas sim o mundo de onde os homens estão ausentes – o murmúrio dum bosque de coníferas roçado pelo vento, o olhar luminoso dum vitelo acabado de nascer, a fragilidade magnífica de uma borboleta, o voo dum peneireiro suspenso lá no alto contra as nuvens do céu.
A voz do meu coração não poderia falar-me tão profundamente se não me tivesse dado o dom do deslumbramento.
Deslumbramento pela natureza, deslumbramento pela harmonia que, apesar de tudo, eu via – e vejo – à minha volta. Foi certamente este sentido de percepção do bem e do belo que me salvou nos momentos mais obscuros da minha vida.~
E o que é o deslumbramento senão uma sensação de maravilha súbita e incrível? Aquilo que acreditávamos não ser, de repente mostra-nos que é, as fibras mais profundas da nossa pessoa distinguem, como um esplendor, a existência duma outra realidade.
Por uma fracção de segundo, o jugo do tempo é quebrado, e essa fratura gera um escorço na eternidade.
Ah, então é dali que vimos?
É ali que somos esperados?
Um instante em que a Luz nos cega.
O selo desta Luz é a beleza que se nos oferece constantemente, sem razão. De modo gratuito."
Susanna Tamaro. (2016). O coração também pensa. Lisboa: Editorial Presença.

