domingo, 23 de abril de 2017

Estante de leitura – Cartas a um jovem poeta

 "(…) Nada pode tocar menos uma obra de arte do que as expressões críticas: isso só dá lugar a equívocos mais ou menos felizes. As coisas não são todas tão apreensíveis e dizíveis como muitas vezes se gostaria de nos fazer crer; a maior parte dos eventos são indizíveis, perfazem-se num espaço que nunca foi tocado por uma palavra, e mais indizíveis do que tudo são as obras de arte, existências secretas cuja vida perdura enquanto a nossa passa. (…)

Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever: examine se ele tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada; pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever? Escave em si mesmo em busca de uma resposta profunda. E se esta soar afirmativamente, se o senhor tiver de enfrentar esta questão séria com um forte e simples  “Si, Tenho”, então construa a sua vida em função dessa necessidade;  a sua vida terá de ser um sinal e um testemunho desse impulso até nas horas mais indiferentes e insignificantes. Então aproxime-se da Natureza. Então tente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê e vive e ama e perde. (…)
Salve-se dos temas gerais para todos os que lhe oferece a vida de todos os dias; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros, a fé em qualquer forma de beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, tranquila, humilde, e utilize para se exprimir as coisas que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos e os objetos das suas recordações. Se o seu dia-a-dia lhe parece pobre, não o lamente; lamente-se a si, diga para consigo que não é suficientemente poeta para convocar as suas riquezas; pois para o criador não existe escassez nem lugar pobre ou indiferente. E mesmo que estivesse numa prisão cujas paredes não deixassem chegar nenhum dos ruídos do mundo aos seus sentidos – então não teria ainda e sempre a sua infância, essa riqueza preciosa e principesca, essa câmara dos tesouros da lembrança? 

Concentre nele a sua atenção. Tente despertar as sensações afundadas desse passado longínquo; a sua personalidade ganhará firmeza, a sua solidão há-de alargar-se e  tornar-se uma morada crepuscular e o ruído dos outros passará ao longe. E se desse voltar-se para dentro, desse mergulho no seu mundo próprio, surgirem versos, então não lhe ocorrerá perguntar a alguém se eles são bons. Também não fará a tentativa de interessar as revistas nesses trabalhos, pois verá neles a sua dileta e natural propriedade, um pedaço e uma voz da sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasce de uma necessidade. Nesta sua maneira de irromper está o seu veredito: não há mais nenhum."

Rainer Maria Rilke. (2014). Cartas a um jovem poeta. Lisboa: Antígona.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Estante de leitura – As mães da Síria

"
Anjo triste

Anjo puro
Anjo que dormes nos umbrais
Anjo das manhãs
Anjo que não dormes
Anjo que não desces de uma nuvem
Anjo da terra no céu
Anjo da água aspergida
Anjo possível e real ao mesmo tempo
Anjo que bebe a água que não tem
A fórmula química da água
Anjo terreno na sua condição eterna
Anjo que não és só eterno
Anjo que viste os copistas de deus
Escreverem esta tragédia
Anjo que assististe ai fiat
Anjo que te alarmaste quando a
Luz não se acendeu nas escadarias terrestres
Anjo com uma materna face que perdeu o esplendor
Anjo concebido nos desertos sem matéria
Traz a tua vida
Santa solidão é a tua vida
Anjo ser espiritual que enternece
Anjo como um manto tecido nos teares eternos
Anjo que tens um sorriso incorpóreo
Que desafia a física nuclear
Nenhuma partícula se perde
Anjo que te separas da matéria
Por uma homeostasia
Anjo que só vês escuridão
Sem um único ponto luminoso que sobressaia
Sem tréguas o teu coração volta-se para o céu
E rezas uma prece infinita
Sem que possas ser visto
A tua dor não conhece os limites
Anjo que não bebes água por nenhum copo
Anjo que prodigalizas o ser em completo recolhimento
Tão alheado do corpo que outrora te conteve
Pudesses tu salvar as meninas da Síria"

(1) – Isabel Aguiar. (2017). “IV”, in As mães da Síria. Lisboa: Licorne.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Estante de leitura – Grande Sertão: Veredas

"Por um bicame de serra, beirando umas terras de bons matos, lá onde o agrião dá flor, vinha um carro de bois puxado por duas juntas sem levantar poeira. Sentada no varau, e com chapéu de palha de buruti, de vermelho na copa, de largura na aba vinha em Nhorinhá. Linda, linda, feita uma noiva nua. Toda pratas e ouros. Ia para as festas se putear, o que era a sua profissão. E para mim olhou com os olhos da vida, mas eu olhando ao redor, eu não recebi esse viso das coisas. Não tive os pontos no búzio de perder ou de ganhar. Pena foi, pena foi, pena foi, porque ela não era uma sirigaita simples. Ela era ela, até no recenso do sovaco. E o fio longo, mexidos curvos de um riacho serrano desabusava. Ao lado dela eu fui só jacaré. (…)

Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons… De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida de só religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido. (…)
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam. E estávamos conversando, perto do rego – bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. Desse lusfús, ia escurecendo. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras, e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma brisbisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. E o chiim dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. (…)
Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…” – ciente me respondeu
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor (…)
De Araçuaí, eu trouxe uma pedra de topázio. (…) Isto, sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados? De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Nem para se definir calado, em si, um assunto contrário absurdo não concede seguimento. Voltei para os frios da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto (…)
Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida. Tinha notado minha ideia de fugir, tinha-me rastreado, me encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha uma velhice, muita velhice, querendo- me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: – Que você em sua vida toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!… – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele."

João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas

domingo, 9 de abril de 2017

Estante de leitura - Kyoto

«Chieko descobriu as violetas que floresciam no velho tronco do carvalho.

“Floriram também este ano.” Com estas palavras foi ao encontro da doce Primavera.
Em relação ao pequeno jardim da cidade, aquele carvalho era bastante grande, mais robusto ainda que as ancas de Chieko. A sua casca, velha, rugosa, salpicada de musgo, não se podia porém comparar ao corpo jovem e fresco dela.

Arqueada para a direita até a nível das ancas de Chieko, a árvore começava a dobrar-se precisamente à altura da cabeça da rapariga: era a partir daqui que nasciam os densos ramos, que iam abranger quase todo o jardim. Os mais compridos pendiam um pouco. Logo abaixo do ponto em que se curvava amplamente sobre a direita entreviam-se duas pequenas cavidades: destas despontavam, distantes uma da outra, duas violetas. As duas plantas floriam todas as Primaveras. Chieko recordava-se de as ter visto sempre ali, naquela árvore.
Entre a violeta de cima e a de baixo havia uma distância de trinta centímetros. Agora, em plena florescência, Chieko olhava-as. A de cima encontrar-se-ia alguma vez com a de baixo? Conhecer-se-iam? Mas, por outro lado, que queria dizer encontrar-se ou conhecer-se para as violetas?

Todas as Primaveras nasciam três, cinco flores, não mais. Mas, de qualquer modo, na árvore, naquelas pequenas concavidades, todas as Primaveras brotavam os botões e depois as flores. Chieko contemplava-as, umas vezes da varanda, outras quando se encontrava junto da árvore; sentia-se impressionada pela vida das pequenas plantas; de vez em quando era invadida pela solidão em que elas cresciam.
“Nascer num sítio daqueles e continuar sempre ali a viver…” Os clientes que se demoravam na loja exprimiam a sua admiração pelo carvalho, contudo quase nenhum deles dava pelas violetas. Velho, nodoso, coberto até cima de musgo, e por isso tanto mais digno e atraente, o carvalho, comparando-as com ele, as violetas que hospedava eram a imagem da humildade. (…)
Vestindo um quimono vistoso, Chieko saiu de casa.

O Santuário de Heian-Jingu, famoso pelo Jidai Matsuri, foi construído somente em 1895, para honrar o imperador Kanmu, que elevara Kyoto a capital. Não é, pois, muito antigo.
Até 1939 venerou-se também aqui o imperador Komei, o último a reinar antes de a capital ser transferida para Tóquio. Actualmente, muitos casais cão consorciar-se naquele templo.
A característica mais bela do jardim sagrado é uma particular variedade de cerejeiras rubras, com os ramos pendentes. Não existe outra flor que melhor possa simbolizar a Primavera de Kyoto. Assim que entrou no parque, Chieko sentiu até ao fundo do seu coração o esplendor de tanta florescência. Contemplou longamente as cerejeiras e agradeceu-lhes por ter descoberto através delas, mais uma vez, a Primavera de Kyoto.

No termo do caminho, um pouco mais abaixo da sala de chá, havia o pequeno lago. Perto das margens despontavam as folhas verdes dos lírios; mais ao largo flutuavam os nenúfares. Ali não havia cerejeiras. Rodearam o lago e meteram por uma vereda cheia de sombras. Sentia-se o perfume das folhinhas novas e da terra húmida. O caminho não era extenso. De súbito apareceu um outro lago muito maior que o anterior. A cor avermelhada das cerejeiras da margem reflectia-se na água, deslumbrando. Grupos de turistas estrangeiros fotografavam.
Mas entre as árvores do lado de cá da margem, tudo estava florido de modestos e brancos ashibi. Chieko, lembrou-se da cidade da Nara. Havia ali pinheiros, não muito altos mas graciosos. Se não fossem as cerejeiras, aqueles atrairiam mais os olhares. Contudo, não havia dúvida de que a sua cor verde-escura, juntamente com o verde do lago, fazia ressaltar as flores de cerejeira. Shinichi atravessou o lago saltando de uma pedra para outra, o que constituía o chamado sawatari. Eram pedras redondas, semelhantes a secções de colunas dos gigantescos portais dos parques sagrados.»

Yasunari Kawabata. (2012). Kyoto. Lisboa. Edições D. Quixote.

sábado, 1 de abril de 2017

Estante de leitura – Grécia Revisitada

"Na Biblioteca Ambrosiana de Milão, existe um manuscrito grego da época bizantina com a cota “Ambr. I 98 inf”. É o exemplas da Ilíada, em grego, que pertenceu a Petrarca. Ter nas mãos livros que foram produzidos manualmente, antes da invenção da imprensa, é sempre emocionante. Quando se sabe que o livro em causa pertenceu, no século XIV, a um dos maiores nomes da história de literatura universal, a emoção é redobrada.

Mas nesta emoção imiscui-se uma certa tristeza. Petrarca nunca leu o livro que considerava o mais precioso da sua biblioteca. E a razão é fácil de apontar: Petrarca não sabia grego. Embora se tenha esforçado já tardiamente para a prender a língua de Homero e Platão, nunca chegou a saber o suficiente para ler a Ilíada no original. 
Já se observou muitas vezes que a Ilíada, sendo um poema de guerra, tem os seus momentos mais altos nos episódios que fogem por completo à temática bélica. É o caso da despedida de Heitor da mulher e do filho, no canto VI. Heitor está já armado. Quando vê o pai, Atíanax foge aos gritos para s braços da ama, cheio de medo do capacete com o seu penacho de crinas de cavalo. Pai e mãe desatam a rir. Heitor tira o capacete da cabeça, beija e abraça o filho; depois põe-no nos braços da mãe, que recebe Astíanax entre risos e lágrimas. Nesse momento, diz o poeta, Heitor condói-se com pena da mulher e consola-a com as palavras “ninguém me lançará na morte contra a verdade do Destino”. Nada de mais simples; nada de mais sublime. 
O poeta da Ilíada é um mestre na arte do contraste. De outro modo, tornar-se-ia insuportável a insistência no negrume da morte, nas feridas infligidas por armas de bronze, cujo gore o poeta descreve sem pestanejar, na mutilação de cadáveres. Tipicamente, o contraste como recurso poético materializa-se na oposição paz/guerra. A paz na Ilíada é uma reminiscência do passado, um recordar de tempos idos, em que o ritmo do quotidiano, era feito de ínfimos pormenores de grande beleza. Quanto a mim, a manifestação mais genial desta técnica ocorre no Canto XXII, pouco antes de Aquiles matar Heitor.
Heitor espera Aquiles junto às muralhas de Tróia. Apesar da sua coragem, quando vê Aquiles, o pânico apodera-se de Heitor, que se lança na corrida. Aquiles persegue-o e correm para longe da muraha, para a estrada, até chegarem às nascentes do rio Escamandro. No momento de maior tensão deste poema épico de dezasseis mil versos, o poeta diz-nos que aí, junto às nascentes, ficavam os lavadouros de pedra, onde vinham lavar a roupa “As mulheres e belas filhas dos Troianos; / mas isso acontecera antes, em tempos de paz…” (vv. 155-156).
Heitor morre vestido com as armas de Aquiles, que arrancara a Pátrocolo. Aquiles, por sua vez, veste armas novas, divinas, que a deusa Tétis, sua mãe, pedira a Hefesto. O escudo segurado por Quiles é uma maravilha da metalurgia e da poética. Na descrição pormenorizada que dele faz o poeta no Canto XVIII, apercebemo-nos de que é todo um universo de experiência humana que está gravado no escudo. Vemos a terra, o céu e o mar; o sol, a lua e todos os astros do firmamento. Duas cidades se destacam pelas situações contrastantes em que se encontram. Numa, celebra-se uma boda com música e dança. A outra está em guerra, cercada: até as mulheres, as crianças e os velhos têm de defender as suas muralhas. Os homens saem para uma emboscada e chegam a um local idílico, aonde vão ter dois pastores com os seus rebanhos, tocando flauta. Apesar de indefesos, os pastores são mortos pelos soldados. Na expressão “deleitando-se ao som da flauta”, que o poeta aplica aos pastores, e na descrição dos soldados escondidos “revestidos de fulvo bronze” encerra-se todo um mundo de contraste, toda a desumanidade da guerra, toda a precariedade da paz. (…)
Um dos aspectos curiosos da Ilíada é a consciência revelada do próprio valor da poesia, ainda que em moldes mais velados comparativamente à Odisseia. Da primeira vez que nos é apresentada a personagem de Helena, no Canto III da Ilíada, vemo-la a tecer uma grande tapeçaria, representando as batalhas que os Gregos e Troianos travaram por sua causa (vv. 125-128). É a mais antiga mise en abîme da história da literatura, em que a macro-estrutura de uma obra literária é reflectida e sintetizada, em ponto pequeno, algures no meio do próprio texto. E mais adiante, no Canto VI, Helena diz a Heitor que sobre todos eles fez Zeus abater um destino doloroso, “para que no futuro / sejamos tema de canto para os homens ainda por nascer” (vv. 357-358).
Se Helena revela esta insólita clarividência relativamente ao seu estatuto de personagem poética, Aquiles, o protagonista da Ilíada, chega mesmo a revestir a capa de um cantor épico. Quando, no Canto IX, Agamémnon envia à tenda de Aquiles uma embaixada com palavras de desagravo, os embaixadores encontram o herói a dedilhar a sua lira: “com ela deleitava o seu coração, cantando os feitos gloriosos dos homens; / e só Pátrocolo estava sentado à sua frente, ouvindo em silêncio” (vv. 189-190).
Entre as especificidades próprias da epopeia homérica, há uma que levanta o mais bizarro dos problemas: a língua. E aqui voltamos às dificuldades sentidas por Petrarca ao tentar ler o texto na língua original. O primeiro aspecto insólito é o facto de os primeiros poemas da literatura europeia terem sido compostos numa língua que nunca ninguém falou. O grego da Ilíada e da Odisseia é uma língua artificial, que mistura elementos de dialetos diferentes (jónico, eólico, árcado-cíprico, ático, etc.). A esta estranheza vem juntar-se a própria métrica: a cadência da epopeia homérica contraria o ritmo natural da língua grega. Deste extraordinário desafio poético, imposto pela tradição épica desde os seus primórdios, só podemos extrair uma ilação lógica: o facto de denunciar a vontade de atirar o discurso poético para uma zona linguística própria, o mais longe possível da fonética, da morfologia, do léxico e da cadência da língua no quotidiano. Neste aspecto, embora a Ilíada seja o primeiro livro da literatura europeia, nunca a mais moderna poesia experimentalista foi tão radical.

Frederico Lourenço. ( 2004). Grécia Revisitada. Lisboa: Livros Cotovia.