segunda-feira, 29 de abril de 2019

Estante de leitura – Escrito no mar

"
Eu buscava uma ilha sobre o vento e a espuma
a que só era de ser a sempre ausente
ilha nenhuma.

Agora tenho-a à minha frente
ilha de bruma.

Buscava um lugar santo um canto um cântico
um triângulo mágico uma palavra um fim.
E vejo um grande pico sobre o Atlântico
e uma ilha a nascer dentro de mim.

Manuel Alegre, “Ilha de Bruma", in 
Escrito no mar: livro dos Açores /
poemas Manuel Alegre ; fot. Jorge Barros. Lisboa : Sextante, 2008. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Leitura e sociedade...

Leitura e sociabilidade podem-nos dizer que por aquela se construíram a construção de uma personalidade. A educação do indivíduo, forma de elaboração de uma individualidade capaz de assegurar uma comunidade participada fez-se em determinados tempos por essa dupla construção, a de uma personalidade e de uma liberdade. A arte tentou dar-lhe um sinal na leitura do feminino com a reprodução de corpos desnudados no melhor dos sentidos.

Justamente alguém capaz de se oferecer à leitura, integralmente, absorvendo as palavras, conduzindo-se por imagens a reconstruir em si, alimentando um coração, uma vida. E encontrar no autor essa criação que o leitor assume em múltiplas perspectivas para si criando essa fusão no espírito das ideias e nas faculdades do próprio leitor. Leitura feita como um amor a preservar para algo maior em que se fundamenta a vida e que importa continuar a construir, em abnegação e em virtude. Deste jogo do espírito feito pelos livros nasce, ou pode nascer uma coragem dada por uma confiança do que se apreendeu. 

E, mais do que a vida é nos livros que se persiste a aprender e a encontrar possíveis. Há quadros na arte que nos dão essa procura e esse encontro, como se o mundo dependesse na sua verdade e inteligibilidade desse momento de leitura. O quadro é de Harald Metzkes e o que é extraordinário nele é a forma como o corpo de uma mulher se debruça sobre a leitura. Ela está sentada a uma janela, de onde se observa um fundo de paisagem natural sem identificação de pessoas. Ela está junto à janela numa atitude de apreensão do que lê. O dia parece estar a clarear, mas a leitura parece conduzir toda a sua acção. 

O quadro revela-nos essa postura de dar às palavras a possibilidade de um conhecimento e de uma fuga, mas também concede algo de revolucionário. Justamente a crença de que nas palavras pode estar a esperança para algo novo, diferente no real, e, nesse sentido é o próprio desafio ao destino que ela revela. Mudará alg0? 

Isso não é importante, pois a leitura neste caso é a ferramenta para a construção de uma força interior. Nada mais decisivo para a formação de cada um e para a respiração da sua vida. E saber que é nessa esperança, nessa perigosa esperança que a vida se pode construir uma liberdade, essa fragrância que muitos ainda não têm.

Imagem: Copyright – Harald Metzkes, Mulher a ler à janela, 2001, Galeria Leo Coppi, Berlim.
Fonte: Elke Heidenreich, “Do perigo de as mulheres lerem demasiado”, in Stefan B0llmann, Uma história da leitura desde o século XIII ao século XXI, Círculo de Leitores, Lx: 2005.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Estante de leitura – Devoção

"A inspiração é um mistério recorrente e invisível, a musa que ataca quando menos se espera. As flechas voam e é impossível saber que fomos atingidos e que um conjunto de catalisadores, sem relação entre si, se juntaram de forma aleatória para criar um sistema próprio que nos deixa com as vibrações de uma doença incurável e de uma imaginação febril ao mesmo tempo profana e divina. 

O que pode fazer-se com os impulsos que daí advêm, essas terminações nervosas que cintilam como um mapa iluminado de constelações roubadas? As estrelas vibram. A musa pretende que lhe seja dada vida. Mas a mente também é musa. Musa que pretende controlar os seus gloriosos oponentes, reajustar as primeiras fontes de inspiração. Um curso de água cristalino subitamente seco. Uma coisa bela que foi corrompida e deixa de motivar alegria. 
Por que razão o espírito criativo se vira para dentro de si mesmo? Por que razão quem cria há de puxar todos os cordéis que dizem respeito à coisa criada? A caneta ergue-se, dominada por esta segunda musa implacável. Sem discórdia, ela assinala o que tem de assinalar e a harmonia que daí advém passará despercebida, e também sem discórdia prosseguirá a sua função de transformar Abel em não mais do que um pastor esquecido."

Devoção / Patti Smith ; trad. Helder Moura Pinheiro ; rev. de texto Carlos Jesus. – Lisboa : Quetzal, 2019. 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Estante de leitura – Aquário

Não sei, disse eu. E era verdade. Não fazia ideia. Apenas um qualquer pânico infantil, e agora penso que foi porque só tinha a minha mãe. Não tinha mais ninguém no mundo, e ela era tudo, e de algum modo aquela forma - sombra, aquela duplicação no tanque dos corais, tinha-me feito sentir como era fácil perdê-la. Estava sempre a ter pesadelos em que ela ficava debaixo de um guindaste no porto e num daqueles contentores enormes a voar pelos ares por cima dela. Sabemos que os peixes estão sempre em guarda, escondidos na entrada de uma gruta ou entre as algas ou agarrados aos corais, esforçando-se por parecer invisíveis. O fim deles podia surgir de qualquer lado, a qualquer momento, uma boca maior vinda do escuro e desaparecendo tudo num instante. Mas não é o mesmo conosco? Um acidente de carro  a qualquer momento, um ataque de coração, uma doença, um daqueles contentores soltando-se e caindo do céu, a minha mãe por baixo sem sequer levantar os olhos, sem ver nem sentir nada, o fim e mais nada. 

O velho pôs-me uma mão no ombro. Estás bem, disse ele. Estás em segurança.
Lembro-me de ele ter dito isso. Disse que estava em segurança. Dizia sempre precisamente a palavra certa. E então dei-lhe um abraço, os braços à volta do pescoço dele. Precisava de alguma coisa a que me agarrar. Cabelo seco como erva, ossos nos meus ombros, nada macio, tão couraçado como um cavalo - marinho e igualmente feio, mas agarrei-me a ele como a uma ramo de coral só meu. (…) 
Não tínhamos família. Absolutamente ninguém. Todos na escola tinham uma família. Não tinham pais, muitos deles, mas tinham tias e tios e avós e primos. E quase todos os peixes eram mais  do que só um par. Se bem que, pensando nisso, muitos dos peixes que via no aquário andavam de facto aos pares ou sozinhos, mas como podia isso ser? Não podia ser assim no oceano.

O planeta inteiro um oceano. Gostava de pensar nestas coisas. Quando à noite me ia deitar, imaginava-me nas profundezas, milhares de metros de fundo, o peso de toda aquela água, mas comigo a deslizar quase ao rés do solo, como uma manta, voando sem nenhum som nem peso por cima de planícies infindáveis que se precipitavam em desfiladeiros profundos de um negro ainda mais escuro e depois subindo em espiras e novos planaltos, e podia estar em qualquer parte do mundo, no México ou em Guam, ou sob o Ártico ou muito longe em África, tudo no elemento único, tudo em casa, sombras a toda a minha volta também a deslizarem, grandes asas que não se ouviam nem viam mas se sentiam e conheciam. 
O velho voltou as costas ao tanque e passou para o outro lado do corredor onde as trutas vogavam numa espécie de corrente invisível, todas viradas para o mesmo lado, nadando para sítio nenhum.
Não é fácil ficar entusiasmado com peixes de água doce, disse ele. São como nós, nada de exótico. Uns quantos paus e pedras, frios, juntinhos em grupo, a tremer. Isto que estamos a ver é a boa gente de Seattle.
Quem me me dera que as pessoas fossem assim, disse eu.

Aquário / David Vann ; trad. José Lima. Lisboa : Relógio d’Água, 2015. 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Escrever...

começas a sorrir
todo agitado
por dentro
enquanto as palavras saltam
dos teus dedos
para as teclas
e é como um
sonho de circo:
tu és o palhaço, o domador de leões
és o tigre
és tu próprio
enquanto
as palavras saltam
através de arcos em chamas,
e fazem triplos mortais
de trapézio em
trapézio, e
abraçam o
Homem-Elefante
enquanto
os poemas continuam a surgir,
um a um
escorregando para
o chão,
e tudo vai na esgalha e bem;
as horas passam
e logo
acabaste,
vai até ao quarto,
atira-te para cima da cama
e dorme o sono dos justos
aqui na terra
por fim, a vida perfeita.

a poesia é o que acontece
quando nada mais
pode.

Charles Bukowski, “Writing”, in New Poems Book Three, 2004, London, Virgin Books.
Imagem: Copyright - HarperCollins Publishers