domingo, 28 de maio de 2017

Estante de leitura – O estado do bosque

"(John Wolf) – Esta manhã acordei vazio… dentro de mim não restava nada: nem alegria, nem dor, nem desejos, nem cólera, nem ódio, nem amor. Nada. Eu já não tinha nada. Uma árvore gigante tombou dentro de mim, e não se ouviu nenhum estrondo, nenhum alarme. A demolição da última catedral… Nem uma palavra. E, no entanto, eu grito, eu continuo a gritar por uma insignificância.

Procuro não pensar… se o bosque e a viagem existem, se existe este lugar, se eu existo, se os me procuram existem.
O que eu sei é que de muito longe chega um sopro. Pode ser uma tormenta ou uma gota de água a crescer no fundo do bosque. (…)
Nada nosso que estás no Nada
Seja Nada o teu Nome
Venha a nós o Nada do Teu Reino
Seja claro o Nada da Tua Vontade
Assim na Terra como no Céu.
O Nada que nos alimenta nos dá hoje
Perdoa-nos sempre que formos Nada
Como tentaremos perdoar a cada uma das Tuas criaturas
Não nos deixe incorrer em tentação
E livra-nos de não sermos o Teu Nada.

Espanta-me sentir que o verde-azulado da paisagem é mais belo do que alguma vez o foi. Rosas espalhadas pela neve. Chega até mim o seu perfume. As pétalas são como brasas no gelo. Não sei explicar, mas tudo ganha uma beleza que antes não tinha. Silenciosos espaços abertos. Fico a olhar o caminho até ao bosque, o acampamento, o modo como a subida penetra no círculo dos altos carvalhos e das bétulas até à colina que domina o vale. Consigo distinguir a profundidade. Uma tranquilidade reflete-se, na distância, como se o mundo fizesse uma pausa. O meu carreiro sobe por entre arbustos em flor. Finalmente vejo o rosto de Deus. (…)

No escuro mais a fundo, no matagal espesso algo está mais vivo, algo está mais próximo. Imagino o bosque como viagem que não é movimento… não, não é movimento… é entrega do movimento… concentração. Até aqui fascinou-te a rapidez do esquilo… Se tu soubesses a rapidez da árvore que o abriga. Até aqui pensaste na velocidade da raposa… Medita agora na vertigem de terra, gravetos e folhas, na sucção que a poeira faz do teu peso, da tua altura, do teu fedor de raposa… Nunca existiram viajantes, só existiu a viagem. Nunca demos um passo, a terra é que girou, a vida mudou de sítio, alterou-se o céu que nos cobre. Nós somos fixos, aprende. Não existem navegadores: existe o mar. O mar que busca… Busca a viagem em nós. (…)"

José Tolentino Mendonça. (2013). O estado do bosque. Lisboa: Assírio & Alvim.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Estante de leitura – LisboaLeipzig1

"Nós todos, portugueses e europeus do Centro da Europa, somos, ao mesmo tempo, os descendentes de um mesmo problema, e os herdeiros de um modo radicalmente diferente de o resolver.

Esse problema, suscitado pelo renascimento, a Reforma e as Descobertas, é de uma grande simplicidade de definir.
Será ou não possível vivermos na proximidade uns dos outros, constituir uma sociedade em que nenhuma pessoa, contra o respeito que deve a si mesma, seja reduzida à impotência, nem à cega opressão de alguém sobre ninguém?
Quinhentos anos passados (nada, ou pouco segundo o tempo) e a resposta concreta permanece um enigma. Uns e outros tentámos caminhos diferentes para a encontrar, e tanto nós, como vós, regressámos de passos vazios. Estamos, pois, todos no mesmo ponto obscuro, ricos de experiência mas sem nada sabermos de definitivo.
Eis, em poucas palavras, a fonte de energia dos meus textos. Por que razão me será impossível deixar de escrever, e por que razão eu vim.
E há ainda outro estímulo.
Sempre achei algo de muito estranho o facto de eu escrever em português, mas foi nessa língua que eu nasci, e só nas palavras dessa língua irrompem os meus textos. É estranho porque, no interior dessa língua, não havia uma cultura para os receber.
Certamente havia, e há ainda, um passado por acabar, soterrado, que os chamava para que um ciclo, por fim, atinja o seu termo.
Faço votos para que a minha língua alcance o alto mar, o largo. Ela fala de um povo que é singularmente outro, sem ainda saber em quê, e por quê.
Faço votos ardentes para que esse sentimento profundo, me por exprimir, se possa manifestar finalmente.
Por este motivo me pareceu que eu renegaria tudo isso – esse povo, essa história, essa área geográfica, esse sentimento, essa língua – se não tivesse aceite estar aqui presente.
É também por este motivo que posso agora voltar a entrar no meu silêncio. Silêncio para que nasci."

Paris, Sorbonne, 24 de Outubro de 1988, Les Belles Etrangères.

domingo, 14 de maio de 2017

Estante de leitura – Maçãs silvestres & cores de Outono Publicado em 14 maio 2017

"No entanto, a nossa maçã silvestre talvez só seja selvagem como eu, que não pertenço à raça autóctone, mas abandonei a ascendência cultivada e vim perder-me nos bosques. (…) Todo o arbusto de macieira silvestre, de certo modo como todas as crianças selvagens, estimula as nossas expectativas. Talvez seja um príncipe disfarçado. Que lição para o homem! Assim os seres humanos, remetidos ao mais alto nível, são o fruto celestial que sugerem e aspiram a produzir, servindo de alimento ao destino; e apenas o génio mais persistente e mais forte se defende e se impõe, lança finalmente no ar um tenro rebento, e deixa cair o seu fruto perfeito sobre a terra ingrata. De igual modo, os poetas, os filósofos e os estadistas brotam nas pastagens do país e sobrevivem às hostes de homens sem originalidade.

" É sempre assim a busca do conhecimento. Os frutos celestiais, as maçãs de ouro das Hespérides, estão sempre guardadas por um dragão de cem cabeças que nunca dorme, de modo que colhê-las é uma tarefa hercúlea. Esta é uma maneira, e a mais extraordinária, de a macieira silvestre se propagar; mas habitualmente ela brota, a grandes intervalos, em bosques e pântanos, bem como na berma das estradas, quando o solo lhe é propício, e cresce com relativa rapidez. Aquelas que crescem nos bosques densos são muito altas e esguias. É com frequência que colho destas árvores um fruto perfeitamente suave e como que cultivado. Como afirma Palladius: “E o solo está juncado de frutos de uma macieira espontânea. ”Há muito que se acreditava que, embora estas árvores selvagens não produzam por si mesmas frutos valiosos, elas são a melhor ascendência para transmitir à posteridade as qualidades mais apreciadas de outras. Contudo, não ando em busca de ascendência, mas do próprio fruto selvagem, cujo aroma intenso não sofreu nenhuma suavização."

...


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Estante de leitura – Fantasmagorias

"Como é bela uma rua de Inverno! Ao mesmo tempo explícita e obscura. Aqui, é possível traçar vagamente avenidas direitas e simétricas feitas de portas e janelas; aqui, debaixo dos candeeiros, flutuam ilhas de luz coada, por onde passam, rapidamente iluminados, homens e mulheres que, apesar de toda a sua miséria e desmazelo, transportam qualquer coisa de irreal, um ar de triunfo, como se tivessem fugido da vida, iludida por quem a despojou, erra sem eles. Mas, mesmo assim, ainda estamos apenas a deslizar suavemente pela superfície das coisas. (…)

Como é bela uma rua de Londres, com as suas ilhas de luz, e os longos arvoredos de escuridão, e num dos lados, talvez, um espaço relvado salpicado de árvores, onde a noite se enrosca naturalmente para dormir, e quando se atravessa o gradeamento de ferro se ouvem aqueles pequenos estalidos e a agitação das folhas e dos gravetos, o que pressupõe o silêncio das campos em redor, o piar de uma coruja, e ao longe o ruído de um comboio a passar no vale.
Mas estamos em Londres, lembremo-nos; bem acima das árvores nuas há molduras de luz oblongas, de um amarelo-alaranjado-janelas; existem pontos de luz a brilhar; imóveis, como estrelas baixas – candeeiros; este espaço vazio que contém o campo e o seu sossego, é apenas um bairro de Londres, constituído por escritórios e casas,(…).os acenos das chamas nas lareiras, e as incidências de luz projetadas pelos candeeiros sobre a privacidade de uma qualquer sala, as suas poltronas, os papéis, a porcelana, a mesa de embutidos, a figura de uma mulher a contar atentamente o número exato de colheres de chá que… Olha para a porta, como se estivesse a ouvir tocar, lá em baixo, e alguém a perguntar: “Ela está em casa?
Nunca aconteceu, talvez, alguém sentir-se apaixonadamente distraído por um simples lápis. Mas há circunstâncias nas quais o desejo de possuir um se pode tornar absolutamente avassalador; momentos em que, sob pretexto de possuir um objeto, estamos a inventar uma desculpa para calcorrear metade de Londres entre a hora do chá e a hora do jantar. (…)
protegidos por este argumento nos pudéssemos entregar, em segurança, ao mar dos prazeres com que a vida citadina nos alicia durante o Inverno – deambular pelas ruas de Londres. Convém que a hora seja ao cair da tarde, e a estação o Inverno, pois no Inverno o brilho esfuziante do ar e a sociabilidade das ruas são compensadoras. Não nos sentimentos atormentados, como no Verão, pelo desejo de sombra, de isolamento e do ar suave dos campos de feno. E também porque o cair da tarde nos permite sentir a irresponsabilidade que a escuridão e a luz dos candeeiros concedem. Já não somos exatamente os mesmos.
Assim que pomos um pé fora de casa, entre as quatro e as seis horas de uma bela tarde, largamos o eu pelo qual os amigos nos conhecem, e tornamo-nos parte daquele vasto exército republicano de vagabundos anónimos cuja companhia é tão agradável, depois de termos estado no retiro daquele quarto só nosso. Porque neste permanecemos rodeados de objetos que expressam, de modo eterno, a singularidade dos nossos temperamentos e reforçam as memórias da nossa experiência.

Virgina Woolf. (2016). Fantasmagorias. Lisboa: Feitoria dos Livros, pág. 29 e 31