"Nos últimos tempos, quando sinto os lábios da Clarisse a tocarem os meus, comprovo que não têm história, já não convocam o primeiro beijo que demos. Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem às vacinas que tínhamos de dar à cadela, às conversas com o diretor da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no teto, às reuniões de condóminos. Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama. O tempo lá fora batia na janela, era um calor gordo que parecia querer partir os vidros com um murro espesso e entrar. Sentei-me na retrete com a cabeça entre as pernas e pensei na vida, nesse imenso tédio em que me havia afundado. Debatia-me com falta de ar, uma espécie de choque anafilático, provocado pela repetição monótona de horas, minutos e segundos. (…) Tenho a certeza que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas, faz lembrar a mulher de Lot, quando ela e o marido saem de Sodoma, estando a ser destruída devido à iniquidade dos seus habitantes, e lhe dizem para não olhar para trás. Come a carne, Beatriz, ainda tens tudo no prato, disse, enfim, aquilo de olhar para trás era o pecado, a mulher de Lot não deveria ter qualquer desejo de regressar a uma vida absolutamente sedentária, desejar a rotina e execrar a mudança, uma vida nova, mas sei que isto nos acontece, queremos o conforto da banalidade, daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de um pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria e ter a certeza absoluta de que os chapéus não são serão jamais pousados em cima da cama.
Quanto tempo leva a atravessar um coração de um lado ao outro? Muito, adormecemos com a cabeça apoiada no balcão do bar, ou com a cabeça inclinada para trás e a boca aberta e a novela a dar na televisão, percorremos as mesmas ruas sem notar como elas mudam, sentamo-nos nos jardins a jogar dominó, é uma dormência permanente, esquecemo-nos do caminho porque ele é tão mal iluminado. Mas é esse, que não tem iluminação pública, que entra floresta adentro, é esse que atravessa o coração. Lembro-me do tempo em que os meus dedos eram flores antigas, que despontavam apenas tocavam a tua pele. Mas agora, Clarisse, para onde foram esses meses de Primavera que faziam a nossa vida florir? Levanto o coração, como se faz a um tapete, para ver se não há nada debaixo dele. A Clarisse mexeu-se, como se tivesse ouvido os meus pensamentos, encostou as mãos à minha cabeça e eu senti-lhe o coração a bater nas pontas dos dedos. Como isso me faz confusão, não conseguia dormir, mas não queria afastá-la, por já estarmos tão distantes. Houve um tempo em que cosi as minhas artérias ao teu corpo e todo o sangue que bombeava era na tua direcção. Lembro-me de caminharmos de mãos dadas pelas ruas de Rabat, num dia de Agosto, o calor a esmagar os dias com pé, como quem faz vinho. As nossas sombras alongavam-se pelo souq, e parámos para comer kefta, o nosso hálito cheio de cominhos e cebola e sementes de coentros, e eu passei as mãos pelo teu cabelo e tu suspiraste, atirando-me um sorriso feito com os os olhos fechados.
– Sou uma flor, daquelas que nascem nos cemitérios. Há uma veia que atravessa os séculos e que nos transforma em mitos. Guardo essa espécie de doença como uma gravidez, a esperança de que o amor me desenterre, me salve da morte, que abra a terra e do seu ventre tire uma nova vida, plena. Talvez ninguém se lembre de que somos todos mais antigos do que achamos. A nossa vida não começa no hospital ou nas mãos de uma parteira, mas sim na História, nos outros, nas vidas que nos precederam. Nascemos no mesmo dia em que o Universo nasceu, na mesma explosão. Eu, evidentemente, não sou excepção. O meu cartão de cidadão não tem o nome Inês de Castro, mas eu sou a Inês de Castro. Serei levantada do chão, porão uma coroa na minha cabeça. A vida eterna depende do amor dos outros, são eles que escavam a terra com as suas unhas e nos salvam do lugar frio e amorfo a que todos fomos condenados. Os nossos acidentes são diferentes, mas a essência, o osso do que somos é o mesmo. O tempo não nos separa, somos no presente uma face do passado, um novo ângulo do que já aconteceu. (…) Talvez haja uma corda pendurada em todos os pescoços, talvez caminhemos sobre vidros partidos, talvez a nossa alma seja uma lâmpada fundida, talvez o futuro seja uma flor deitada num caixão, talvez as nossas ambições sejam programas de televisão coloridos, talvez nos doam as esperanças, talvez nos deitemos todas as noites como o entrecosto nas montras do talho, talvez nos falte a saliva nas palavras, talvez nos caiam os dentes podres para dentro da voz, talvez nos rasguem os ossos como papel, talvez a chuva só exista dentro do nosso corpo, talvez… E, porém, iluminamos o mundo. Existe um caos, uma escuridão, mas o mundo, o mundo só existe quando apontamos uma chama na sua direção e o incendiamos."
Afonso Cruz. (2015). Flores. Lisboa: Companhia das Letras, páginas 25, 72, 86, 87 e 210.
