quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Estante de leitura – … A Natureza e outros ensaios
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Estante de leitura – A queda
"Sinto-me confundido por recebê-lo de cama. Não é nada, um pouco de febre, que eu trato com gin. Estou habituado a estes acessos. Paludismo, creio, que contraí no tempo em que era papa. Não, não gracejo, senão em parte. Sei o que está a pensar: é muito difícil distinguir o verdadeiro do falso no que conto. Confesso que tem razão. Eu próprio… Olhe, uma pessoa das minhas relações dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada que esconder a serem obrigados a mentir; os que preferem mentir a não ter nada que esconder; e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. Deixo à sua escolha o compartimento que mais me convém. Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas ao mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou?
Vê-se mais claro por vezes naquele que mente do que no que fala a verdade. A verdade, como a luz, cega. A mentira, pelo contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto. Enfim, entenda como quiser, eu fui nomeado papa num campo de concentração. Sente-se, por favor. Está a olhar a sala. Despedida, é verdade, mas limpa. Um Vermeer, sem móveis nem panelas. E também sem livros, eu deixei de ler há muito tempo. Antigamente, a minha casa estava cheia de livros lidos pela metade. É tão repugnante quanto essas pessoas que apenas beliscam um foie gras e mandam deitar fora o restante. Aliás, agora só gosto de confissões, e os autores de confissões escrevem sobretudo para não se confessar, para nada dizer do que sabem. Quando pretendem passar à confissão, é o momento de desconfiarmos, vão maquilhar o cadáver. Nada de desculpas, nunca, para ninguém, eis meu princípio, de começo. Nego a boa intenção, o erro digno de estima, o passo em falso, a circunstância atenuante. Comigo não se abençoa, não se distribui absolvição. Faz-se a adição, simplesmente, e depois: “Dá tanto.
O senhor é um perverso, um sátiro, um mitômano, um pederasta, um artista etc.” Assim mesmo. Com esta secura. Em filosofia como em política, eu sou, pois, a favor de qualquer teoria que recuse a inocência ao homem, e a favor de toda prática que o trate como culpado. Tem em mim, meu caro, um partidário esclarecido da servidão. Sem ela, para falar verdade, não há solução definitiva. Depressa compreendi isso. Antigamente, eu só tinha liberdade na boca. No café-da-manhã, eu passava-a em minhas torradas, mastigava-a durante todo o dia, levava para toda a parte um hálito deliciosamente refrescado, a liberdade. Descarregava esta palavra-mestra sobre quem quer que me contradissesse, eu tinha-a colocado ao serviço dos meus desejos e do meu poder. Murmurava-a na cama, ao ouvido adormecido das minhas companheiras, e era com sua ajuda que eu me descartava delas. E destilava…
Oh!,
excito-me e perco o sentido da medida. No fim de contas, aconteceu-me fazer da
liberdade um uso mais desinteressado e até, avalie minha ingenuidade, defendê-la
duas ou três vezes, sem chegar, lá isso é verdade, a morrer por ela, mas
correndo alguns riscos. Tem de me perdoar estas imprudências; eu não sabia o
que estava a fazer. Não sabia que a liberdade não é uma recompensa, nem uma
condecoração que se festeje com champanhe. Nem aliás, um presente, uma caixa de
bombons para lamber os beiços. Oh, não, é uma estupada, pelo contrário, e uma
corrida de fundo, bem solitária, bem extenuante. Nada de champanhe, nada de
amigos que ergam a sua taça, olhando-nos com ternura. Sozinhos numa sala
sombria, sozinhos no banco dos réus, perante os juízes, e sozinhos a decidir
perante nós mesmos ou perante o juízo dos outros. Ao cabo de toda liberdade, há
uma sentença; eis por que a liberdade é pesada demais, sobretudo quando se sofre
de febre, ou nos sentimos mal, ou não amamos ninguém."
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Estante de leitura – Vagas e lumes
sem dia,
a casa sem lar,
a cama sem leito.
Hoje acordei sem mim.
Sai à rua,
para me deixar possuir
Crianças passaram por mim,
aos bandos de espantar,
com folias e desmandos,
nessa fabricação de milagres
que é o absoluto brincar.
Dentro de mim
o universo se dissolveu
e um respirar de céu
em meu peito se inundou.
Seria a Vida,
seria o Tempo sem nostalgia,
ou seria, apenas, a poesia?
Sei que havia um fluir de rio
lavando antiquíssimas dores.
E do cristal de tristeza
que antes me negava o ar,
desse nó de vazio,
voltou a nascer o mar."
“Inundador de Infância”, (págs. 122-123)
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Estante de leitura – O Spleen de Paris
– Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
– Dos teus amigos?
– É uma expressão de que não sei o sentido.
– Da tua pátria?
– Não sei onde está situada.
– Da Beleza?
– Ama-lá-ia se a conhecesse, e a sua imortalidade.
– Do oiro?
– Odeio-o tanto como vós a Deus.
– Então que amas tu, singular estrangeiro?
– Amo as nuvens… as nuvens que passam… lá longe… as maravilhosas nuvens!
(Charles Baudelaire, “O estrangeiro”, Pequenos poemas em prosa, pág. 03).
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Estante de leitura – Miguel Torga
Sinopse: Conjunto de poemas que procuram retratar a obra de Miguel Torga, a sua paisagem humana na sua essência mais sublime, feita de raridade e frontalidade. Poesia sobre uma identidade, um território, a respiração do vento no alto das fragas. Poesia de grande dimensão humana, onde a solidariedade, a frontalidade e a consciência de valores imutáveis estão presentes. Poesia de um reino encantado, o reino do maravilhoso. Poesia de um espaço telúrico, quase eterno onde a montanha faz despontar a beleza e a procura da liberdade. Poesia feita da natureza maciça desse universo, a pedra em estado selvagem e puro, uma fonte de vida e de valores universais.
Sísifo
"Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, "Sísifo" - Diário XIII, in Antologia Poética.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Estante de leitura – Fragmentos
E onde tentamos conviver com a desordem das ações da natureza…
Mundo, flores, céus, natureza…
Onde viver?
O que enfrentar?
Como conseguir?
Apenas tentar?
Viver, sem medo."
(Em mais um aniversário da sua morte, o encontro com as suas palavras). Outros fragmentos em língua inglesa. Aqui.
sábado, 1 de agosto de 2015
Estante de leitura – As ilhas desconhecidas
(Um dos mais belos livros de viagens, onde a palavra resgata a luz, a cor, a impressão viva do real.)
(1) Raul Brandão, Ilhas Desconhecidas. Quetzal, páginas. 12, 15 e 19)





