Primeiro uma vida, depois outras que a suportem e justifiquem. Vidas ao lado e vidas antigas, vidas que hão-de-vir e outras que nunca cheguem a ser. Todas fazem falta, todas servem. Os animais e as plantas são máquinas de criar complexidade num universo onde é mais fácil destruí-la. De um lado as estrelas a queimar matéria, do outro células a fazer células. Um dia, por acidente ou excesso de zelo, os animais fizeram o homem e muito mudou. A humanidade é uma gigantesca indústria do complexo, capaz de fazer línguas, leis e até livros.
Somos o contrário das estrelas e vamo-nos admirando com respeito e temor. Só por distração e fastio nos vamos impedindo de criar universos a cada instante. A vida que somos forçados a viver é só a que nos dão, e é só uma, dentro temos milhões de alternativas À distância curta de pensar nisso. Bastaria para tanto fazer um futuro e alguns passados, o presente vai no resto. Jorge tratou de inventar o que lhe foi necessário e muito mais. Entre os muros do jardim e as paredes da sala dos livros, viajou mais do que tantas andorinhas, foi muitos homens com todo os defeitos e todos os destinos. Não lutou contra o tempo porque o tempo correu para o sossegar. Afinal o tempo sossega-nos sempre. É dever dos homens envergonhar Deus, mostrar-lhe que há mais histórias do que a que se pratica, derrotar-lhe a inventiva e o estilo. Fazer muito com o pouco que nos deu e pedir-lhe que faça mais com tudo o resto.

Sem comentários:
Enviar um comentário