– Que quereis ser?
– Médicos, engenheiros – respondiam, ufanos de não trazerem más surpresas a quem os protegia e lhes davam coisas. “Porque amas a Deus?”, perguntara um dia Horácio a Marco, o filho adoptivo do seu tio Óscar. E ele dissera-lhe como modo astucioso: ”Porque ele dá coisas”. A medida da indignidade humana ficara para sempre expressa nesta resposta do pequeno Marco. Obter o máximo, saber pedir, de joelhos, de memória, de mãos postas, fora durante milénios toda a educação sentimental do homem. Nascia-se sôfrego, morria-se serviçal. Um dia no céu, um emprego na terra, patrões poderosos, era tudo quanto se ambicionava. João Ary dizia “Elogia sempre alguém; é de graça e acaba sempre por render alguma coisa.” Foi depois de ouvir pela centésima vez um conselho destes, que Horácio saiu para a sua comarca, sem ter desfrutado de todas as férias. Estava farto. “Mas de quê, de quê?”, interrogava-se no seu quarto. E o coração batia-lhe como se, de repente, um alarme de felicidade o desertasse. A criada, a Melada, com os seus chinelos rapilhados, nos grandes pés recém-lavados, trazia-lhe chá e torradas."
Agustina Bessa-Luís. (2015). “As grandes mudanças”. Elogio do Inacabado. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 138-139. (Inéditos dos anos 60).

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