“Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável.”
3.
“Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever, a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro.”
9.
“A arte será sempre a fricção entre o mundo interior e o mundo exterior. A capacidade de transformar esse conflito numa forma possível é o trabalho dos artistas e dos poetas. Mas esse trabalho tem de ser feito segundo os valores mais antigos e eternos: “bravura, nobreza e entrega”. Que ninguém se iluda, os covardes não têm acesso à Beleza.”
13.
“O Mundo dentro de uma gota de água. Uma casa, um jardim, uma montanha ao longe, tudo no interior de uma gota de água. Uma floresta dentro de uma catedral reconstruida até ao infinito. Escondo-me de mim próprio, procuro a beleza e a sabedoria.”
18.
“A arte foi sempre religiosa. No fundo, não era necessário conhecer a verdade, era preciso amar e acreditar: a fé era o conhecimento. Sem esse espaço de silêncio e sem essa sacralização das palavras e dos gestos torna-se mais difícil acontecer a sublime mentira da arte. E assim será sempre, desde o princípio do mundo até ao fim do mundo.”
25.
“A cor é memória, não pode ser utilizada de forma emotiva ou emocional. O negro baço é a cor do luto por não podermos ser melhores, por não merecermos ser melhores do que somos. O negro baço, neutro, vazio absorve a luz (em vez de a reflectir). Como Ad Reinhardt aprendeu com Hokusai, existem diversos tipos de negro: negro velho, negro novo, negro luminoso, negro baço, negro à luz do sol, negro na sombra… Todas as pinturas negras procuram a intemporalidade estática da forma e todas procuram absorver-nos no insondável mistério das sombras que adivinhamos querer envolver-nos, fechar-nos os olhos. Por vezes é uma experiência religiosa de esvaziamento e recomeço.”
40.
“A arte tem de ser uma declaração de amor. Tem de possuir, de cada vez que a visitamos, a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a revelação, a emoção, a expectativa, a comunhão e a transformação, infinitamente.”
42.
“Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia… é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagradável e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos, a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observamos, maravilhados, a transparência da chuva velando as suas pétalas metálicas.”
Rui Chafes. (2014). Entre o céu e a terra. Lisboa: Documenta.

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