Queimava com o resto de um cigarro alguns pensamentos, daqueles que costumam doer e olhava o que existe do lado de fora da minha janela. Lá, rasgando a linha por cima de todas as coisas que meus olhos alcançavam, chamava-me especial atenção um telhado.
Todos os telhados são telhados vermelhos, iguais aos desenhos que pintávamos, com lápis de cera. Pintávamos telhados vermelhos em folhas brancas assentes nas mesas gastas da escola primária. A folha ganhava o relevo da madeira velha, a madeira velha ganhava alguma cor vermelha do lápis de cera, a cera deixava nos dedos o cheiro igual ao da missa de domingo de manhã.
Este telhado era um telhado cor de dia de chuva. Não havia nele o calor da recordação dos nossos desenhos de meninos.
Este telhado apontava austeramente para o céu. Este telhado tinha janelas a toda a volta. Este telhado, certamente, era habitado por um qualquer ser que eu teria sido capaz de inventar com todos os pormenores e em toda a sua existência, aos meus primeiros anos de idade, quando ainda pintava telhados vermelhos na mesa gasta da escola primária.
Os meus dedos hoje cheiram a cigarros fumados continuadamente.
Hoje eu já não sei qual o cheiro das missas ao domingo de manhã. Já não sei se há daquela brisa que nessas manhãs me tocava o rosto e me fazia sorrir, enquanto fazia todo o caminho com a minha mão apertada dentro da mão da minha mãe. Também já não sei se existem ruas iguais às ruas por onde caminhávamos. Nessas ruas, que começavam na porta de minha casa e iam para todos os lugares, cabia toda a minha curiosidade. E como eram longe todos os lugares e como proporcionavam aventuras sempre novas! Mesmo que o caminho demorasse apenas dois minutos.
Desci as escadas e saí para a rua a partir da porta da minha casa de hoje. A rua que começa na porta da minha casa de hoje apenas vai dar a uma outra rua. As ruas hoje continuam grandes, não por terem capacidade de guardar a curiosidade de uma criança, mas simplesmente porque me cansam. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é medido em tempo. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é medido em passos. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é preenchido por aventuras. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é preenchido por pensamentos… daqueles que costumam doer."
Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem: © – m-ban

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