"Não há um só homem que não seja um descobridor. Começa por descobrir o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores cores do arco-íris e as vinte e tal letras do alfabeto; passa pelos rostos, os mapas, os animais e os astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da sua própria ignorância. (…) o achado dos sons, de idiomas, de crepúsculos, de cidades, de jardins e de pessoas, sempre diferentes e únicas. Estas páginas desejariam ser monumentos dessa longa aventura que continua.
(…)
O que é um atlas para nós, Borges?
Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos feitos da alma do mundo.
Antes de uma viagem, com os olhos fechados, com as mãos unidas, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as polpas dos nossos dedos adivinhassem o impossível, a aspereza das montanhas, a limpidez do mar, a mágica proteção das ilhas. A realidade era um palimpsesto da literatura, da arte e das recordações da nossa infância, tão semelhante na sua solidão.
Roma será para mim a sua voz recitando as elegias de Goethe, e Veneza será para si o que eu lhe transmiti num fim de tarde, em São Marcos, ao escutar um concerto. Paris será você em miúdo, teimoso, fechado num hotel a comer chocolates enquanto lia Hugo, a sua maneira de descobrir Paris; para mim, as nossas lágrimas quando vi no cimo da escadaria do Louvre a Vitória de Samotrácia, essa estátua sobre o qual o meu pai me ensinou a beleza. A beleza era a harmonia materializada, era ter conseguido o impossível, deter a brisa do mar no movimento das dobras da túnica para a eternidade. O deserto foi a batalha de Ondurmán e Lawrence e a música do silêncio, até àquela noite em que, junto às pirâmides, você me ofereceu um império de palavras, “modificou o deserto” e me revelou que a Lua era o meu espelho. (…)
O tempo era côncavo e protetor para nós, entrávamos nele como Ódin e Beppo, os nossos gatos, nos cestos e nos armários, com a mesma inocência e a mesma ávida curiosidade para descobrir mistérios."
Jorge Luís Borges. (2017). Atlas. Lisboa: Quetzal, páginas 7, 8, 113 e 114.

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