quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Estante de leitura – África minha

 "Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. 
O equador passa a cento e sessenta quilómetros a norte desta região, e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-nos perto do Sol, mas as madrugadas e os fins de tarde eram límpidos e tranquilos e as noites frias. 

A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável. A terra não era farta nem luxuriante; era África destilada por dois mil metros de altitude, a essência forte e depurada de um continente.  As cores eram secas e queimadas como as da cerâmica. As árvores tinham uma folhagem leve e delicada, com uma estrutura diferente das da Europa; não crescia em arcos nem em cúpulas, mas em camadas horizontais, fazendo com que as árvores solitárias e altas se assemelhassem a palmeiras ou conferindo-lhes um ar heroico e romântico de galeras de velas desfraldadas, e à orla da floresta uma estranha aparência, como se toda ela vibrasse ligeiramente. Sobre a erva das vastas planícies havia velhas árvores dispersas, retorcidas e espinhosas, e a erva era aromática como o tomilho e a murta; em certos lugares o odor era tão intenso que fazia arder as narinas. Todas as flores que se encontravam nas planícies ou nas trepadeiras e lianas da floresta eram minúsculas como as flores dos prados, e só no início da longa estação das chuvas florescia uma profusão de grandes lírios perfumados. Os panoramas eram imensamente vastos e tudo o que se avistava evocava grandeza, liberdade e uma incomparável nobreza. 
A principal característica da paisagem, e da vida que nela se vivia, era o ar. Ao recordar uma temporada passada nos planaltos africanos fica-se com a impressão de ter vivido, durante algum tempo, suspenso. O céu raramente tinha uma tonalidade mais forte do que o azul-pálido ou lilás, com uma profusão de nuvens imensas, imponderáveis, em constante mutação, acasteladas ou parecendo vogar, mas era sempre de um azul vigoroso que, a uma curta distância, tingia as cordilheiras e os bosques de um azul-escuro intenso. A meio do dia, o ar era uma coisa viva sobre a terra, como uma chama a arder; cintilava, ondeava e brilhava como água corrente, espelhava e duplicava todos os objetos, criando grandes miragens. Nos cumes lá do alto, respirava-se com facilidade e inalava-se uma confiança vital e leveza no coração. Quando se acordava de manhã, pensava-se: “Aqui estou eu, onde devia estar.”

África minha ; e sombras no capim / Karen Blixen ; trad. Ana Falcão Bastos, Cláudia Brito ; rev. Silvina de Sousa. – 1ª ed. – Lisboa : Clube do Autor, 2011. – 433, [2] p. : il.

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