Os pensamentos que fazem doer têm neles os fracassos. Mas pior do que terem intentos malogrados é terem a dúvida do que poderia ter sido. A existência hipotética que mora nos ses. É a incerteza a lâmina mais cortante do pensamento. Fere, corta. Dói.
Pisei mais chão. Pisei mais chão com os passos cheios de gente pesados e lentos. Dói-me um pouco mais.
Não alcancei o telhado cor dia de chuva.
Voltei à falsa paz de um cigarro à janela de casa. O céu tinha descido em negro em toda a cidade. E em todas as minhas cidades. Não havia uma única luz que perturbasse o silêncio desse início de noite. Não existia um único telhado. Não existiam mais telhados. Não existia um único eu.
Queimei os pensamentos, daqueles que costumam doer, no resto do cigarro. Apaguei-me no frio fundo do cinzeiro.»
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Estante de leitura – Criação (VII) – 2.º
«Já na rua, sem brisas, sem
sentidos, sem que a minha mão esteja segura dentro de outra mão que me proteja,
parto em perseguição do telhado cor de dia de chuva. Fui eu e todos
aqueles em que me multipliquei. Demorei passos com muitos zeros. Pesados e
lentos. Os pensamentos, aqueles que costumam doer, doíam ainda mais. Os
pensamentos têm memória, mas os pensamentos não gostam de se lembrar. A rua
onde a rua que começa na porta da minha casa de hoje vai dar e a rua onde a rua
onde a rua que começa na porta da minha casa de hoje vai dar e todas as ruas
que vão dar a outras ruas estão na memória do meu pensamento. São lugares já
pisados por nós. E isso faz-lhe doer. E isso faz-me doer.
Os pensamentos que doem nascem de um conhecimento indubitável de que algo existiu. Existência pretérita. Presença não continuada. Os pensamentos que costumam doer são a consciência de que o que existiu foi maior que nós. Foi maior que nós enquanto existiu. E é maior que nós mesmo depois de já não existir em nós. Dói porque é externa a nós. Porque o longe nos magoa. Não é nosso, não cuidamos e aguça-se. Fere o pensar nele. E faz doer.
Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – m-ban
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário