terça-feira, 10 de novembro de 2020

Estante de leitura – Contra mim

"Para mim, que ainda adorava ser miúdo, longe de curado da infância, embora fosse peculiarmente carente, um espantado, pacóvio e medricas, a distância que via até à felicidade era o mundo inteiro de todas as coisas. Sabia-me sempre a assistir, e a felicidade, pensava eu, não podia ser dos quietos. Tinha de pertencer aos mandões, aos que se punham a mudar coisas do lugar, a ajeitar peças, a dizer tudo muito alto para serem bem entendidos ou assustadores aos demais. E eu sossegava as plantas. 

Quero dizer, tinha uma compaixão sofrida pelas coisas indefesas, as que apenas procuravam a beleza de crescerem, em silêncio, sem pedirem nada, talvez em profunda meditação e mais nada. Tinha pena das plantas nos temporais. alagavam-se as terras e descobriam-se as raízes. Secavam. Talvez afogassem de tanta água. Não tinham voz, não podiam protestar nem assumir uma paixão. Eu não falava com elas mas pedia a Deus que lhes dissesse o que pensava, para que soubessem que as queria e defenderia. As plantas ficavam quietas. Tinha muito pena por isso. queria que tivessem pernas e se pusessem em passeio ou fuga, em abrigo. Pensava nas árvores com duas pernas. A correrem pelas estradas e a mudarem de lugar, a repensarem as praças e as matas para seu melhor conforto. A fugirem do fogo. A berrarem contra as pessoas estúpidas que lhes faziam mal.

  Um menino que pensava no desamparo das ervas e das flores silvestres, das silvas e das árvores, era um espírito que se preparava especialmente para sofrer, por mais que a meninice pudesse sugerir momentos de alienação e deleite. E eu era o rapaz preparado para sofrer. Compadecia-me pelas belezas todas e esperava poder crescer bonito, para deixar de sofrer e para casar. Para ser feliz. Esperar era a aventura. A idade haveria de me trazer tudo. A idade e as suas explicações guardadas, adiadas, doseadas, administradas paulatinamente para a sobrevivência e terapia da vontade e maravilha de viver.
  Ando, a vida inteira, sobretudo à caça de satisfação para uma angústia constante que se prende a tudo, a ter e não ter, sentir que nunca está completo. que nunca tempo algum é suficiente. Falta-me tempo, quero mais, e quero gente e quero corresponder, pertencer genuinamente a cada lugar e melhorar os lugares e melhorar tudo, tanta coisa que nem entendo, não chego a conhecer, não sou sequer inteligente o bastante para as aventuras todas. E digo angústia porque fica no ar um lado mais existencial e filosófico do que a constatação sempre tão violenta da tristeza, alguma tristeza, e a vida faz-se de andar entre alguma tristeza e procurar saída."

Contra mim / Valter Hugo Mãe. Porto: Porto Editora, 2020.

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