“Toda a felicidade é inocência. Ainda que vos escandalize, é preciso repetir essa palavra que parece sempre miserável, pois nada prova melhor a nossa miséria do que a importância da felicidade. Durante algumas semanas, vivi de olhos fechados. Não abandonara a música; sentia pelo contrário uma grande facilidade em mover-me nela; conheceis essa leveza que experimentamos no fundo dos sonhos. Parecia que os minutos matinais me libertavam do meu corpo para o resto do dia. As minhas impressões de então, por muito diversas que fossem, são uma só na minha memória: dir-se-ia que a minha sensibilidade, porque não se cingia apenas a mim, se dilatava pelas coisas. A emoção da manhã prolongava-se nas frases musicais da tarde; – certo cambiante das estações, certo perfume, alguma antiga melodia de que então me enamorei passaram a ser para mim eternas tentadoras, porque me falam de um outro.
Aquilo que porventura torna a volúpia numa coisa tão terrível é ela ensinar-nos que temos um corpo. Até então, ele servia-nos a penas para viver. agora, sentimos que esse corpo tem a sua existência particular, os seus sonhos, a sua vontade, e que, até à nossa morte, teremos de o ter em conta, ceder, transigir ou lutar. Sentimos (julgamos sentir) que a nossa alma é tão-só o seu melhor sonho. Aconteceu-me, sozinho, frente a um espelho que desdobrava a minha angústia, perguntar-me o que teria de comum com o meu corpo, com os seus prazeres ou os seus males, como se eu não lhe pertencesse. Mas pertenço-lhe, minha amiga. Este corpo, que parece tão frágil, é todavia mais durável que as minhas virtuosas resoluções, talvez até que a minha alma, pois quantas vezes não morre a alma antes dele. Esta frase, Monique choca-vos por certo mais que toda a minha confissão: acreditais na alma imortal. Perdoai-me por ser menos seguro que vós ou menos orgulhoso; muitas vezes, a alma apenas me parece uma simples respiração do corpo.
E foi nesse momento que as minhas mãos ne apareceram. As minhas mãos repousavam nas teclas e era como se tivesse debaixo dos olhos a minha alma viva duas vezes. As minhas mãos pareceram-me de repente extraordinariamente sensitivas; mesmo imóveis, pareciam aflorar o silêncio como para o incitar a revelar-se em acordes. Repousavam, ainda um pouco trémulas do ritmo, e havia nelas todos os gestos futuros, como todos os sons possíveis dormiam naquele teclado. Havia atado em volta dos corpos a alegria breve dos abraços; haviam palpado, nos teclados sonoros, a forma das notas invisíveis; haviam, nas trevas, encerrado numa carícia o contorno dos corpos adormecidos. Muitas vezes as mantivera erguidas, num gesto de oração; muitas vezes as unira às vossas, mas nada disso se lembravam. Eram mãos anónimas, as mãos de um músico. Eram o meu intermediário, pela música, com esse infinito que somos tentados a chamar Deus, e, pelas carícias, o meu meio de contacto com a vida dos outros. Eram mãos apagadas, tão pálidas como o marfim em que se apoiavam, porque as tinha privado de sol, de trabalho e de alegria. E no entanto, eram servas bem fiéis; haviam-me alimentado, quando a música era o meu ganha-pão; e começava a compreender que há uma certa beleza em viver-se da sua arte; porquanto isso nos liberta de tudo o que não seja ela.
Na da iguala a doçura de uma derrota que sabemos definitiva: em Viena, durante esses últimos dias soalheiros de Outono, conheci o fascínio de reencontrar o meu corpo. O meu corpo que me cura de ter uma alma. Não soube, ou não ousei dizer-vos a adoração ardente que a beleza e o mistério dos corpos me faz sentir, nem como cada um deles, quando se oferece, parece trazer-me um fragmento da juventude humana. Minha amiga, viver é difícil. Já construí teorias morais de sobra para construir mais ainda, e contraditórias: sou demasiado sensato para acreditar que a felicidade apenas se encontra à beira de um erro, e o vício, tal como a virtude, não pode dar a alegria aos que a não têm em si mesmos. Simplesmente, ainda prefiro o erro (se de erro se trata) a uma denegação de nós próprios tão próxima da demência. A vida fez de mim aquilo que eu sou (se quisermos) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e este consentimento, assim o espero, sem me trazer felicidade, há - de proporcionar-me a serenidade. Minha amiga, sempre vos julguei capaz de tudo compreender, o que é bem mais raro do que perdoar tudo.
Tendo sido incapaz de viver segundo a moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha: é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo….. (…)
Alexis ou o Tratado do vão combate / Marquerite Yourcenar, Lisboa: Difel; 1988.

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