sábado, 17 de setembro de 2022

Estante de leitura – Clarissa

“Sentado no banco do jardim, Amaro lê os seus poetas.

As folhas da árvore que lhe dá sombra, desenham arabescos móveis nas páginas do livro.

O jardim é uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, com uma folha de papel de seda levada. pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa se despetala lentamente e as pétalas rolam para o chão. Há pelos canteiros, verdes de todos os matizes. As glicínias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insetos minúsculos de asas coloridas.

Amaro fecha o livro e olha o jardim. Porque será que lhe vem à memória a imagem de Clarissa? Clarissa é parte integrante deste jardim florido e luminosos, Clarissa é como a relva veludosa, como as glicínias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia, menina e moça – olhos abertos para o mistério da vida, alma que amanhece.

Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele – insensato – pensava que a vida estava só nos livros…

Agora é tarde. tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete.

A hora rútila de Clarissa passará também. Amanhã ela se fará mulher de todo. Professora, irá para a sua cidade natal, onde decerto casará com o filho dum fazendeiro rico. Serão muito felizes, terão muitos pimpolhos gordos. Clarissa ganhará fatas carnes, ficará como a tia, será uma esplêndida dona de casa, que há-de saber fazer gostosos doces, e queijos e bolinhos…

Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Põe-se a caminhar dum lado para o outro, mãos às costas, o pensamento solto…

Clarissa! Agora ela é poesia, ingenuidade, ternura, incompreensão, encantamento… Para ela a vida está cheia de surpresas e de atrações irresistíveis. Mas amanhã que virá? Amanhã? A dissolução, a deformidade do corpo e do espírito. Hoje – a menina verde, fresca, risonha. Amanhã – a mulher gorda, senhora respeitável que sabe em que mês devemos plantar couves, que não acredita “nessas bobagens dos poetas”, e que nem sequer há - de saber ensinar aos filhos a mentira bonita dos contos de fadas. Dir-lhes-á com uma voz árida:

– As fadas não existem, nem as varinhas de condão.

Os poetas só dizem mentiras. Vocês devem mas é aprender as quatro estações, a curar bicheira e a dar banho de carrapaticida no gado. Isso é que vocês devem aprender, para juntar dinheiro, povoar a fazenda, comprar mais campo e ganhar prestígio político….

Amaro procura apagar o pensamento mau.

Agora compreende mais que nunca que só na arte a beleza é imortal. Canta-lhe na cabeça o verso de Keats:

A thing of beauty is a joy for ever.

Na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça.

Senta-se de novo, mais sereno.

Mas o momento luminoso de Clarissa ainda não passou. Ela vive aqui na pensão, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente….

E ele a poderá contemplar da sombra… Inspirado em Clarissa, há-de compor ainda muitas músicas frescas e alegres. A canção do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moça. Uma “suite” de cor e movimento que há-de se chamar: “Clarissa amanhece”.

Há-de compô-la em segredo, muito em segredo. Ninguém ficará sabendo.

E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim….”

A thing of beauty is a joy for ever.

Clarissa / Erico Veríssimo. São Paulo: Companhias das Letras, 2005.

Sem comentários:

Enviar um comentário