É necessário que o pensamento da ciência – pensamento de sobrevoo, pensamento do objeto em geral – se coloque de novo num aí prévio, in locus, sobre o solo do mundo sensível e do mundo trabalhado. Tal como existe na nossa vida, para o nosso corpo, não esse corpo possível em relação ao qual é permitido defender que se trata de uma máquina de informações, mas este corpo atual que eu chamo meu, a sentinela que se mantém silenciosamente sob as minhas palavras e os meus atos. É necessário que, com o meu corpo, despertem os corpos associados, os «outros», que não são meus congéneres, como diz a zoologia, mas que me assombram, que eu assombro, com os quais comungo um ser único atual, presente, como nunca nenhum animal assombrou os da sua espécie, do seu território, ou do seu meio. Nesta historicidade primordial, o pensamento apressado e improvisador da ciência aprenderá a aprofundar-se nas coisas enquanto tais e em si mesmo, tornar-se-á de novo filosofia…
Ora a arte e especialmente a pintura bebem nessa camada de sentido bruto da qual o ativismo nada quer saber. Elas são mesmo as únicas a fazê-lo em toda a inocência. (…) Ao escritor, ao filósofo, pede-se conselho ou opinião, não se admite que tenham o mundo em suspenso, exige-se que tomem posição, não podem declinar as responsabilidades do homem falante. O pintor é o único a ter o direito do olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação. Dir-se-ia que perante ele as palavras de ordem do conhecimento e da ação perdem a sua virtude. (…) Ele [o pintor] aí está, forte ou fraco na vida, mas incontestavelmente soberano na sua ruminação do mundo, sem outra «técnica» senão a criada pelos seus olhos e pelas suas mãos à força de ver, à força de pintar, obstinado a tirar deste mundo, onde soam os escândalos e as glórias da história, telas que nada acrescentarão às cóleras e às esperanças dos homens e ninguém se queixa. Que ciência secreta é esta que ele possui ou procura? Esta dimensão segundo a qual Van Gogh quer ir «mais longe»? Este fundamental da pintura, e talvez de toda a cultura.”
O olho e o espírito / Merleu-Ponty. Pontinha: Vega; Imagem: “Senecio” / Paul Klee, 1922.

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