– Este livro é belíssimo – disse eu, mostrando-lhe Até à Morte de uma Rapariguinha.
O seu rosto iluminou-se, parecia uma criança que acabara de receber um presente de aniversário maravilhoso.
– É verdade! Que bom que também aches – exclamou, todo entusiasmado.
– Sim, é mesmo um belo livro. Como posso dizer… Prendeu-me.
Irritava-me não conseguir explicar melhor. A expressão “prendeu-me” não transmitia, nem de perto, nem de longe, a ideia do alvoroço interior que aquele livro provocara em mim.
– É fantástico ouvir-te dizer isso. E, ainda por cima, foste ler um autor fora de moda como Murō Saisei, parabéns.
O tio estava tão feliz que também me contagiou.
Então, começámos a falar do livro e assim ficámos durante algum tempo. Eu estava contente por ter finalmente algo em comum com alguém. Mesmo que fosse o meu tio, aliás, estava emocionada precisamente porque se tratava de uma pessoa como ele.
As situações inesperadas abrem-nos portas que nem sequer imaginávamos. Era mesmo assim que me sentia.
E, de facto, a partir daquele momento, comecei a ler um livro atrás de outro. Era como se a sede de leitura, há muito adormecida dentro de mim, tivesse explodido de repente.
Tentava saborear os livros que lia, um de cada vez, devagar. Tinha todo o tempo do mundo, e, quanto aos livros, não corria o risco de ficar sem exemplares.
Nagai Kafū, Jun’ichirō Tanizaki, Dazai Osamu, Haruo Satō, Akutagawa Ryūnosuke , Uno Kōji… Nomesde que já ouvira falar, mas dos quais nunca lera nada, ou que me eram completamente novos, não importava: se me despertavam a curiosidade, pegava neles e lia-os avidamente. E quantos mais lia, mais queria ler.
Era a primeira vez que viva uma experiência tão maravilhosa. Quase parecia que desperdiçara anos de vida.
Deixei de dormir horas e horas, já não sentia essa necessidade. Ao invés de me refugiar no sono, quando o meu tio me substituía, ia a correr ler num café ou no meu quarto.
Aqueles livros velhos escondiam histórias, para mim, inimagináveis. E não me refiro apenas àquilo que contavam. Em cada um encontrei vestígios do passado.
Por exemplo, em Paisagem de Uma Alma, de Kajii Motojirō, li:
“O que significa observar? Significa transferir para um objeto parte da sua alma, se não a sua totalidade.
Alguém a ler esta frase, devia ter-se emocionado e sublinhara-a a caneta. Eu, que também me emocionara, senti uma afinidade com aquele desconhecido e fiquei feliz.
Aconteceu-me também encontrar flores secas usadas para marcar a página onde se parara. Quando acontecia, cheirava-as e fantasiava sobre quem, quando e em que estado de espírito as deixara entre aquelas páginas amarelecidas.
Eram encontros que ultrapassavam as barreiras temporais, apenas possíveis através dos livros velhos. E assim comecei a afeiçoar-me à livraria Morisaki, que estava repleta de livros velhos. Poder passar horas naquele pequeno mundo sereno parecia-me um privilégio.
Yagisawa, Satoshi. (2023). Os meus dias na livraria Morisaki. Barcarena: Editorial Presença

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