domingo, 17 de maio de 2015

Estante de Leitura – A cidade e as serras

 "E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que a Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca, – dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles como numa festa ou numa glória. (…) De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado. embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde.  (…) Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadas do tédio, e lhe gritara o seu belo ambula, caminha! – também certamente lhe gritara et lege, e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. (…) Aquele grande mar da Odisseia – resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas Divinas -, exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. (…) E meio entorpecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca… (…) Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal."


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