quinta-feira, 21 de maio de 2015

Estante de leitura – Memórias de Rómulo de Carvalho

"E
u gostava de aprender, lia muito, pensava muito mas com a liberdade que a escola não permitia. E também era preciso contar com o desequilíbrio da juventude, a descoberta do mundo e os dolorosos esforços para compreendê-lo, aceitá-lo ou rejeitá-lo. Desde jovem me senti desajustado de tudo. Fui mal preparado para a vida. 

O comportamento da minha mãe marcou-me muito, não as lições ou os conselhos organizados que não saberia programar, mas o seu dia-a-dia, o seu repúdio visceral pelas injustiças, a sua condolência pelo sofrimento alheio, a sua necessidade de ser útil, de ajudar o próximo e o distante, a sua benévola compreensão das fraquezas estranhas. Ela devia ter-me ensinado a ser cínico, a ser violento, a não ter escrúpulos, a saber aproveitar-me das pessoas e das situações e de tudo isso tirar proveito. Devia-me ter ensinado a ser como toda a gente, a pôr os meus interesses acima de tudo, a dissimular, a mentir, a atropelar o direito dos outros, a impor a minha vontade, a exercer o meu domínio. Ela, coitadinha, não teve culpa, não sabia educar para a vida nem estava a pensar nisso, mas mesmo que ela morresse quando me deu à luz eu tinha que ser parecido com ela. Está tudo nas células, na irresponsabilidade das células que já tinha em mim. (…)

Eu digo “pobre de mim” como diria pobre do pobre que está sentado à soleira da porta a apanhar sol e a coçar as costas. Mas ele, o pobre, ainda é feliz porque eu ao vê-lo desejo ajudá-lo, e eu era um ser indefeso que ninguém pensava em ajudar. Nunca tive vocação nem jeito para viver, inclinação elementar que qualquer ser, mesmo sem ser humano, possui por natureza. Tão incapaz, tão estranho, tão desajustado que ainda hoje, aos oitenta e um anos, me sinto tão surpreendido de viver como aquele frágil menino de um ano a quem a irmã mais velha amparava, no retrato, para que não caia do alto da coluna de madeira em que o poisaram. (…) 

Os meus sentimentos para com os outros não são de repulsa, mas (imaginem!) de pena, de piedade. Tenho pena de ver as pessoas presas aos seus preconceitos, às suas ansiedades, aos imperativos da sua hereditariedade, ao peso das tradições, aos condicionamentos do ambiente físico e humano em que nasceram ou em que vivem. Tenho pena de todos, e também tenho pena de a ter, porque as pessoas preferem ser odiadas a suscitarem pena. No fundo somos todos irresponsáveis, tanto eles pelo que fazem como eu por reparar nisso. (…) A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver…”

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