"Eu gostava de aprender, lia
muito, pensava muito mas com a liberdade que a escola não permitia. E também era preciso
contar com o desequilíbrio da juventude, a descoberta do mundo e os dolorosos
esforços para compreendê-lo, aceitá-lo ou rejeitá-lo. Desde jovem me senti
desajustado de tudo. Fui mal preparado para a vida.
O comportamento da minha
mãe marcou-me muito, não as lições ou os conselhos organizados que não saberia
programar, mas o seu dia-a-dia, o seu repúdio visceral pelas injustiças, a sua
condolência pelo sofrimento alheio, a sua necessidade de ser útil, de ajudar o
próximo e o distante, a sua benévola compreensão das fraquezas estranhas. Ela
devia ter-me ensinado a ser cínico, a ser violento, a não ter escrúpulos, a
saber aproveitar-me das pessoas e das situações e de tudo isso tirar proveito.
Devia-me ter ensinado a ser como toda a gente, a pôr os meus interesses acima
de tudo, a dissimular, a mentir, a atropelar o direito dos outros, a impor a
minha vontade, a exercer o meu domínio. Ela, coitadinha, não teve culpa, não
sabia educar para a vida nem estava a pensar nisso, mas mesmo que ela morresse
quando me deu à luz eu tinha que ser parecido com ela. Está tudo nas células,
na irresponsabilidade das células que já tinha em mim. (…)
Eu digo “pobre de
mim” como diria pobre do pobre que está sentado à soleira da porta a apanhar
sol e a coçar as costas. Mas ele, o pobre, ainda é feliz porque eu ao vê-lo
desejo ajudá-lo, e eu era um ser indefeso que ninguém pensava em ajudar. Nunca
tive vocação nem jeito para viver, inclinação elementar que qualquer ser, mesmo
sem ser humano, possui por natureza. Tão incapaz, tão estranho, tão desajustado
que ainda hoje, aos oitenta e um anos, me sinto tão surpreendido de viver como
aquele frágil menino de um ano a quem a irmã mais velha amparava, no retrato,
para que não caia do alto da coluna de madeira em que o poisaram. (…)
Os meus
sentimentos para com os outros não são de repulsa, mas (imaginem!) de pena, de
piedade. Tenho pena de ver as pessoas presas aos seus preconceitos, às suas
ansiedades, aos imperativos da sua hereditariedade, ao peso das tradições, aos
condicionamentos do ambiente físico e humano em que nasceram ou em que vivem.
Tenho pena de todos, e também tenho pena de a ter, porque as pessoas preferem
ser odiadas a suscitarem pena. No fundo somos todos irresponsáveis, tanto eles
pelo que fazem como eu por reparar nisso. (…) A vida nunca me seduziu. Entre o
viver e o morrer sempre preferi morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria
pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que
gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para
viver…”

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