Daí que os médicos condenem os não-médicos; que os financeiros mostrem apenas uma tolerância superficial pelos que nada sabem de acções; que as gentes literárias desprezem os iletrados; e que as pessoas de todas as ocupações se aliem para menosprezar as que com nada se ocupam. (…)
É absolutamente inquestionável que devemos ser bastante ociosos na juventude. Pois embora, aqui e ali, um Lord Macaulay possa sair a escola mantendo todas as suas faculdades intactas, a maioria dos rapazes paga um preço tão elevado pelas medalhas precoces que conquista, que nunca mais volta a ter uma oportunidade, “e começa a vida na bancarrota”. E o mesmo se aplica durante a altura em que um rapaz se educa a si próprio, ou permite que outros o eduquem. Deve ter sido muito tonto aquele ancião que dirigiu a Samuel Johnson em Oxford as seguintes palavras: “Jovem, agora é a altura para te agarrares aos livros com diligência, e adquirires conhecimentos; pois quando os anos se acumularem irás descobrir que ler se torna uma tarefa fastidiosa”. O cavalheiro não parece ter dado conta que muitas outras tarefas além da leitura se tornam fastidiosas, e algumas impossíveis, quando um homem se vê forçado a usar óculos e é incapaz de caminhar sem bengala. Os livros têm a sua utilidade, mas são um pobre substituto para a vida. É um desperdício ficar à espera, como a Senhora de Shalott em frente ao espelho, de costas voltadas a todo o encanto e rebuliço da realidade. E o homem que muito lê, como diz o velho ditado, vai ter pouco tempo para pensar.
Se recordarmos a nossa educação, certamente não serão as vividas, preenchidas e instrutivas horas de gazeta que nos trarão arrependimento; acharíamos de longe preferível omitir alguns daqueles períodos tristonhos, entre o sono e a vigília, dentro da sala de aula. Pela minha parte, assisti a muitas lições quando era novo. Ainda recordo que o girar de um pião se deve à Estabilidade Cinética. Ainda recordo que a enfiteuse não é uma doença, nem o estilicídio um crime. Mas embora não pretenda esquecer estes fragmentos de ciência, não lhes atribuo o mesmo valor que a outras ninharias que aprendi ao ar livre, enquanto vadiava. Não será este o momento para nos demorarmos sobre esse portentoso lugar de aprendizagem, a escola preferida de Dickens e Balzac, e que todos soa anos foram muitos mestres infames na Ciência de Todos os Aspectos da Vida. Basta afirmar o seguinte: se um rapaz nada aprender na rua, é porque não possui a capacidade de aprender. Nem o gazeteiro se encontra sempre nas ruas, pois, se assim o entender, pode percorrer os subúrbios ajardinados até ao campo. Pode sentar-se na margem de um regato, junto a uma moita de lilases, e fumar inúmeros cachimbos ao som da água a rolar sobre os seixos. Um pássaro cantará entre as copas. E talvez aí consiga afundar-se numa corrente de pensamentos gentis, e ver as coisas de uma nova perspectiva. Se isto não é educação, o que será?
Podemos imaginar um tal rapaz abordado pelo Sr. Wordly Wiseman, e o diálogo que se desenrolaria:
– Pois então, meu jovem, que fazes aqui?
– Em boa verdade vos digo, Senhor, não faço muito.
– Não é porventura esta a hora das lições? E não deverias estar aplicadamente curvado sobre os Compêndios, para assim adquirires o conhecimento?
Não, mas também aqui procuro Instrução, se me permite.
– Instrução, deveras? Que espécie de Instrução, pergunto? Matemática?
– Decerto que não.
– Metafísica?
– Também não.
– Alguma língua estrangeira?
– Não, não é língua alguma.
– Um ofício?
– Tão-pouco um ofício.
– Então, por Deus, de que se trata?
– Na verdade, caro Senhor, como em breve chegará a hora de iniciara minha Peregrinação, desejo aprender o procedimento normal das pessoas na minha situação, e saber onde ficam as piores valas e obstáculos do Caminho; e também gostaria de saber que género de Pessoa presta o melhor auxílio. Mais a mais, aqui repouso, junto a este regato, para memorizar a lição que o meu mestre-escola me ensinou a chamar Paz, ou Contentamento.
Robert Louis Stevenson. (2016). “Apologia do ócio”. Lisboa: Antígona.

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