sábado, 12 de novembro de 2016

Estante de leitura – M Train

"No início passa-se num tempo real. Uma mulher entra num jardim que transborda de cor. Não tem memória, apenas uma intensa curiosidade. Aproxima-se do homem. Ele não mostra curiosidade. Está parado em frente a uma árvore. Dentro da árvore há uma palavra que se transforma num nome. Ele recebe o nome de todas as coisas vivas. Em sintonia com o presente, não tem ambições nem sonhos. A mulher alcança-o, fascinada pelo mistério contido nas sensações que dela extravasam.

Fechei o caderno e sentei-me no café a pensar no tempo real. Será um tempo ininterrupto? Incluirá apenas o presente? Serão os nossos pensamentos nada mais do que comboios a passar, sem paragens, sibilando por enormes cartazes de imagens sucessivas?  Captando o fragmento de uma ideia num lugar à janela, seguida logo de outra num enquadramento idêntico? Se eu escrever no presente e começar a divagar, estarei ainda no tempo real? O tempo real, pensei, não pode ser dividido em secções como números no mostrador de um relógio. Se escrever a gora acerca do passado ao mesmo tempo que vivo no presente, estarei ainda no tempo real? Talvez não haja passado nem futuro, apenas o presente perpétuo que contém a tríade da memória. Olhei para a rua e notei que a luz do dia estava a mudar. Talvez o sol se tenha escondido atrás de uma nuvem. Talvez o tempo tenha deixado de existir. (…)

Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isto o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber. (…) Por fim, o Fred conseguiu o seu brevete, mas não tinha dinheiro para um avião. Eu escrevia ininterruptamente, mas não publicava nada. Apesar de tudo isto, continuámos a acreditar no conceito do relógio sem ponteiros. Todas as tarefas foram realizadas, a fosse preparada, sacos de areia empilhados, árvores plantadas, camisas engomadas, bainhas costuradas e, contudo, reservávamo-nos o direito de ignorar os ponteiros que continuavam a girar. Olhando para trás, já muito tempo depois da sua morte, o nosso modo de vida parece um milagre que apenas se conseguiu pela sincronia silenciosa das peças da engrenagem que constituem uma alma gémea."

Patti Smith. (2016). “Um relógio sem ponteiros”, in M Train. Lisboa: Quetzal, págs.97, 98, 100 e 101 

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