terça-feira, 8 de novembro de 2016

Palavras de sabedoria de um grande pensador. Un enfant terrible, da cultura francesa, um homem de fora da Academia e que sabe pensar o que nós devemos tentar ser entre a nossa pela, a sociedade e o cosmos que habitamos. Palavras para que cada um encontre o seu lugar, num processo de sabedoria individual em que seja possível construir uma relação vertical e estruturada consigo próprio, mas também com aquilo que o rodeia. Palavras de um livro chamado Cosmos e que está dividido em cinco partes:

"1 – O Tempo: uma forma a priori antes do que vive
2 – A Vida: a força da força
3 – O Animal: um alter ego diferente
4 – O Cosmos: Uma ética do universo enrugado
5 – O Sublime: A experiência da Imensidão
Palavras pensadas, olhadas como forma de filosofar sobre o que nos rodeia, a matéria, os outros, o cosmos e nós próprios. Palavras que se definem num manuseamento de valores existenciais, uma materialidade filosófica que buscam formas de utilização de cada um e de pensar a relação existencial com o universo e com os outros. E essa ideia de que o Cosmos estando já cá há milénios é ao homem que importa redefinir essa relação. Livro enorme de um grande pensador que vale a pena conhecer, Cosmos, de Michel Onfray. Livro que compõe uma triologia de três volumes sob o título genérico “Breve história do mundo”. Cosmos é o primeiro volume, a que se seguirão Decadência que tratará da história do mundo e o último designado Sabedoria que falará da ética da felicidade. Pensador que fundou uma universidade em Caen, e que cujo pensamento oscila entre o hedonismo e um pensamento libertário. Herdeiro de uma sabedoria do natural, dos ritmos da terra e do valor da filosofia antiga como forma de pensar o homem, Onfray recolocou a filosofia como um modo de vida. Aquilo que a Cultura clássica consideraria como objetos do seu estudo e da sua ação, o saber e o conhecer, a Filosofia como tema e o filosofar como integração da Filosofia na sua própria ação individual. Filosofia aprendida nos ritmos da natureza, mas também no espanto pela ação do que se observa. Espanto de ser, deste no tempo, desse ser no mundo e com os outros, com os animais, sem dúvida e também com as estrelas, com os ritmos da natureza. Michel Onfray trouxe-nos essa ideia essencial de fazer da Filosofia, não a arte do discurso, mas sim uma arte que se identifica numa forma de vida, no fundo a vida filosófica. Um livro para nos iniciar no diálogo com o que nos rodeia, para refazer palavras antigas, discursos fora do coração do homem, palavras para resgatar o ar puro e essa experiência do visível para uma vida mais conseguida, mais sábia. Em baixo, um excerto desse primeiro volume Cosmos, que integra a sua Breve História do Mundo. Cosmos é sem dúvida um dos grandes livros do presente. Um livro para nos transformar e que vale a pena voltar muitas vezes, pela intensidade e dimensão do que nos propõe.

Esculpir a natureza, não a suprimir; conhecer as leis do que é vivo em nós; aceitar o nosso destino de mamífero; colocar a cultura ao serviço da pulsão da vida; lutar contra toda a pulsão da morte; saber que tudo o que vive se alarga para lá do da dicotomia bem e mal; viver os tempos das estrelas, mais do que o dos cronómetros; querer uma vida natural em substituição de uma vida mutilada; trabalhar para viver e não viver para trabalhar; coincidir o mais possível com os movimentos do mundo; habitar densamente o instante presente; ser por não ter por ter; viver em graça e não apenas sobreviver sendo; se criar o tempo de lazer pessoal; se saber pura matéria; distinguir sobre aquilo que temos poder e aquilo que não temos; querer aquilo que nos acontece quando não podemos agir contra isso; saber aquilo que o indivíduo crê desejar e o que o deseja a espécie; obedecer o mais possível a um sentido de vida que ultrapasse um mero programa para lá do bem e do mal; saber que nós não estamos dentro da natureza, mas que nós somos a natureza; identificar os predadores para nos prevenirmos deles; recusar todo o pensamento mágico; descobrir o mecanismo do relógio biológico de cada um; viver segundo os ciclos pagãos do tempo circular; não ignorar os princípios de fuga da nossa psique material; conhecer as leis do céu pagão; fazer descer o céu sobre a terra; ultrapassar o conhecimento cristão; utilizar a psique para abolir a metafísica; regressar ao cosmos para ultrapassar o niilismo; descartar os numerosos livros que nos afastam do mundo; meditar com os poucos livros que nos religam ao mundo; interrogar as sabedorias pré-cristãs em vista de um saber que seja póscristão; recusar todo o trabalho inútil de um ponto de vista existencial; utilizar a razão contra as superstições; reactualizar a linha de pensamento epicuriano; a morte não é um mal, o sofrimento é suportável, os deuses não estão aí para nos amarrar, a felicidade é possível; dar a nossa aprovação a um materialismo integral; recusar a religião provedora de mundos passados; se persuadir que morrer enquanto vivemos é pior do que morrer um dia; preparar a sua morte por uma vida adequada, filosofar para aprender verdadeiramente a morrer; experimentar o sublime pela contemplação do cosmos; saber que o homem é um animal diferente em grau, mas não não na natureza; tratar os animais de acordo com as suas características individuais; recusar ser um animal predador; excluir infligir sofrimento a um ser vivo; recusar fazer um espectáculo com a morte de um animal; se reconciliar com os animais; receber lições dos animais, do que nos podem ensinar; fazer da Etologia a primeira ciência do homem; construir uma frugalidade alimentar; se dedicar a conduzir a vida de um modo poético; procurar de seguida o exercício da via filosófica; aumentar a sua presença no mundo; conceder aos artistas as suas vias de acesso ao mundo; parar, no mundo, de viver fora do mundo."

Michel Onfray. (2015). Cosmos. Paris: Flammarion. Livre de Poche.

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