"Foi um dia calmo nas corridas, a minha vida presa por um fio. Vou lá todos os dias. Tive um amigo jogador que me disse uma vez:
– Não me importo se ganho ou perco, a única coisa que quero é jogar.
Eu tenho mais respeito pelo dinheiro. Passei a vida quase toda
com muito pouco. Sei bem o que é um banco de jardim e as pancadas de um
senhorio à nossa porta. O dinheiro só tem dois problemas: quando é de
mais ou quando é de menos. Suponho que temos sempre de nos
atormentar com qualquer coisa. E, nas corridas, conseguimos sentir os outros, o
desespero sombrio e a facilidade com que nos atiram tudo ao ar e desistem. O
público das corridas é o mundo em ponto pequeno, a vida a debater-se com a
morte, e a perder. No final, ninguém ganha, andamos todos apenas à procura de
um adiamento, de um momento longe dos olhares dos outros. Bom, precisamos de
humor, precisamos de rir. Eu costumava rir mais, costumava
fazer mais de tudo, menos escrever. Agora, escrevo e escrevo e escrevo sem
parar, quanto mais velho estou mais escrevo, numa dança com a morte. Que bom. E
acho que não me tenho saído mal. Um dia dirão, “O Bukowiski morreu” e, nessa
altura, serei verdadeiramente descoberto e posto debaixo dos holofotes. E
depois? A imortalidade é uma invenção estúpida dos vivos. Estão a ver o que
fazem as corridas? Fazem as frases sair. O relâmpago e a sorte. O último canto
do pássaro azul. Isto soa tudo bem porque, quando escrevo, também estou a
apostar. Há tanta gente demasiado cuidadosa. Estudam, ensinam, mas não
conseguem acertar. São as convenções que lhes apagam a chama.
Sinto-me melhor agora, aqui em cima, neste 2º andar com o meu Macintosh. O meu
melhor amigo. E tenho o Mahler no rádio, a deslizar com tanta facilidade,
sempre a arriscar tudo. Às vezes é preciso isso. Obrigado, Mahler: aquilo que
tu me emprestas, nunca te conseguirei pagar.
Tenho aqui uma pequena varanda, a porta está aberta e consigo ver
as luzes dos faróis dos carros no sentido sul da Harbor Freeway. Sem nunca
parar, aquele desfilar de luzes constante. E todas essas pessoas? O que andarão
a fazer? Em que estarão a pensar? Vamos todos morrer, todos. Que circo! Isso
deveria bastar para que nos amássemos uns aos outros, mas não basta. Somos
aterrorizados e esmagados pelas pequenas trivialidades, somos engolidos pelo
nada.
Continua Mahler! Graças a ti, esta noite tornou-se maravilhosa.
Hoje não há corridas. Sinto-me estranhamente normal. Já sei
porque é que o Hemingway precisava de touradas: deixavam-no centrado,
lembravam-lhe onde estava e do que havia para fazer. Às vezes esquecemo-nos de
pagar a conta do gás,… A maior parte das pessoas não está preparada para a
morte: nem para a sua nem para a dos outros. Choca-as, aterroriza-as. Como se
fosse uma grande surpresa. Trago a morte no meu bolso esquerdo. De vez em
quando, tiro-a para fora e falo com ela: – Olá, meu amor, como
estás? Quando me vens buscar? Já estou pronto.
Há tanto para chorar na morte como pelo desabrochar de uma flor.
O que é terrível não é a morte, mas a vida que se leva ou que não se leva até
morrermos. As pessoas não honram as suas próprias vidas. (…) Estão
demasiadas concentradas nos filmes, no dinheiro, na família. (…) Parece
que têm a cabeça cheia de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem a pátria
sem pensar. Rapidamente se esquecem de pensar, e deixam que os outros pensem por
si. Têm mesmo os cérebros entupidos de algodão. São feias, falam de maneira
feia, andam de uma maneira feia. Toquem-lhes as grandes músicas de todos os
séculos e não conseguem ouvi-las. A morte da maioria das pessoas é uma farsa.
Já não há nada para morrer.
Percebem? Preciso de cavalos para não perder o sentido de humor.
Se há coisa que a morte não suporta é que se riam dela. Uma boa gargalhada dá
cabo até das probabilidades mais baixas.
Charles Bukowski. (2016). O
capitão saiu para almoçar e os marinheiros tomaram o navio. Lisboa: Alfaguara,
páginas 9, 10 e 13

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