sábado, 1 de abril de 2017

Estante de leitura – Grécia Revisitada

"Na Biblioteca Ambrosiana de Milão, existe um manuscrito grego da época bizantina com a cota “Ambr. I 98 inf”. É o exemplas da Ilíada, em grego, que pertenceu a Petrarca. Ter nas mãos livros que foram produzidos manualmente, antes da invenção da imprensa, é sempre emocionante. Quando se sabe que o livro em causa pertenceu, no século XIV, a um dos maiores nomes da história de literatura universal, a emoção é redobrada.

Mas nesta emoção imiscui-se uma certa tristeza. Petrarca nunca leu o livro que considerava o mais precioso da sua biblioteca. E a razão é fácil de apontar: Petrarca não sabia grego. Embora se tenha esforçado já tardiamente para a prender a língua de Homero e Platão, nunca chegou a saber o suficiente para ler a Ilíada no original. 
Já se observou muitas vezes que a Ilíada, sendo um poema de guerra, tem os seus momentos mais altos nos episódios que fogem por completo à temática bélica. É o caso da despedida de Heitor da mulher e do filho, no canto VI. Heitor está já armado. Quando vê o pai, Atíanax foge aos gritos para s braços da ama, cheio de medo do capacete com o seu penacho de crinas de cavalo. Pai e mãe desatam a rir. Heitor tira o capacete da cabeça, beija e abraça o filho; depois põe-no nos braços da mãe, que recebe Astíanax entre risos e lágrimas. Nesse momento, diz o poeta, Heitor condói-se com pena da mulher e consola-a com as palavras “ninguém me lançará na morte contra a verdade do Destino”. Nada de mais simples; nada de mais sublime. 
O poeta da Ilíada é um mestre na arte do contraste. De outro modo, tornar-se-ia insuportável a insistência no negrume da morte, nas feridas infligidas por armas de bronze, cujo gore o poeta descreve sem pestanejar, na mutilação de cadáveres. Tipicamente, o contraste como recurso poético materializa-se na oposição paz/guerra. A paz na Ilíada é uma reminiscência do passado, um recordar de tempos idos, em que o ritmo do quotidiano, era feito de ínfimos pormenores de grande beleza. Quanto a mim, a manifestação mais genial desta técnica ocorre no Canto XXII, pouco antes de Aquiles matar Heitor.
Heitor espera Aquiles junto às muralhas de Tróia. Apesar da sua coragem, quando vê Aquiles, o pânico apodera-se de Heitor, que se lança na corrida. Aquiles persegue-o e correm para longe da muraha, para a estrada, até chegarem às nascentes do rio Escamandro. No momento de maior tensão deste poema épico de dezasseis mil versos, o poeta diz-nos que aí, junto às nascentes, ficavam os lavadouros de pedra, onde vinham lavar a roupa “As mulheres e belas filhas dos Troianos; / mas isso acontecera antes, em tempos de paz…” (vv. 155-156).
Heitor morre vestido com as armas de Aquiles, que arrancara a Pátrocolo. Aquiles, por sua vez, veste armas novas, divinas, que a deusa Tétis, sua mãe, pedira a Hefesto. O escudo segurado por Quiles é uma maravilha da metalurgia e da poética. Na descrição pormenorizada que dele faz o poeta no Canto XVIII, apercebemo-nos de que é todo um universo de experiência humana que está gravado no escudo. Vemos a terra, o céu e o mar; o sol, a lua e todos os astros do firmamento. Duas cidades se destacam pelas situações contrastantes em que se encontram. Numa, celebra-se uma boda com música e dança. A outra está em guerra, cercada: até as mulheres, as crianças e os velhos têm de defender as suas muralhas. Os homens saem para uma emboscada e chegam a um local idílico, aonde vão ter dois pastores com os seus rebanhos, tocando flauta. Apesar de indefesos, os pastores são mortos pelos soldados. Na expressão “deleitando-se ao som da flauta”, que o poeta aplica aos pastores, e na descrição dos soldados escondidos “revestidos de fulvo bronze” encerra-se todo um mundo de contraste, toda a desumanidade da guerra, toda a precariedade da paz. (…)
Um dos aspectos curiosos da Ilíada é a consciência revelada do próprio valor da poesia, ainda que em moldes mais velados comparativamente à Odisseia. Da primeira vez que nos é apresentada a personagem de Helena, no Canto III da Ilíada, vemo-la a tecer uma grande tapeçaria, representando as batalhas que os Gregos e Troianos travaram por sua causa (vv. 125-128). É a mais antiga mise en abîme da história da literatura, em que a macro-estrutura de uma obra literária é reflectida e sintetizada, em ponto pequeno, algures no meio do próprio texto. E mais adiante, no Canto VI, Helena diz a Heitor que sobre todos eles fez Zeus abater um destino doloroso, “para que no futuro / sejamos tema de canto para os homens ainda por nascer” (vv. 357-358).
Se Helena revela esta insólita clarividência relativamente ao seu estatuto de personagem poética, Aquiles, o protagonista da Ilíada, chega mesmo a revestir a capa de um cantor épico. Quando, no Canto IX, Agamémnon envia à tenda de Aquiles uma embaixada com palavras de desagravo, os embaixadores encontram o herói a dedilhar a sua lira: “com ela deleitava o seu coração, cantando os feitos gloriosos dos homens; / e só Pátrocolo estava sentado à sua frente, ouvindo em silêncio” (vv. 189-190).
Entre as especificidades próprias da epopeia homérica, há uma que levanta o mais bizarro dos problemas: a língua. E aqui voltamos às dificuldades sentidas por Petrarca ao tentar ler o texto na língua original. O primeiro aspecto insólito é o facto de os primeiros poemas da literatura europeia terem sido compostos numa língua que nunca ninguém falou. O grego da Ilíada e da Odisseia é uma língua artificial, que mistura elementos de dialetos diferentes (jónico, eólico, árcado-cíprico, ático, etc.). A esta estranheza vem juntar-se a própria métrica: a cadência da epopeia homérica contraria o ritmo natural da língua grega. Deste extraordinário desafio poético, imposto pela tradição épica desde os seus primórdios, só podemos extrair uma ilação lógica: o facto de denunciar a vontade de atirar o discurso poético para uma zona linguística própria, o mais longe possível da fonética, da morfologia, do léxico e da cadência da língua no quotidiano. Neste aspecto, embora a Ilíada seja o primeiro livro da literatura europeia, nunca a mais moderna poesia experimentalista foi tão radical.

Frederico Lourenço. ( 2004). Grécia Revisitada. Lisboa: Livros Cotovia.

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